Por que o passe mais perigoso do futebol é também o mais importante
Ame ou odeie, o passe que prende a respiração do torcedor é necessário e o mais alto nível já sabe disso
Desde que a priorização da posse de bola se tornou popular no futebol globalmente, surgiram diferentes formas de se construir o jogo com passes. Há quem prefira deslocar adversários com passes curtos e aproveitar brechas criadas, e há quem queira ser arriscado desde atrás para colher frutos melhores rapidamente.
Existem diversos tipos de passes arriscados, com diferentes tipos de “recompensa” por trás deles.
A seleção brasileira de Carlo Ancelotti, por exemplo, tem sido fã dos passes que rompem linhas no meio-campo para acelerar o jogo pelo meio — um passe arriscado, mas recompensador.
No entanto, nenhum passe no futebol é mais perigoso — e mais importante — do que o que sai do goleiro para o jogador em apoio no meio-campo, geralmente um volante, quando o time adversário está fazendo pressão alta. É o que tem mais chance de dar errado e gerar uma chance clara para o adversário, mas, sem ele, é mais difícil que um time consiga sair da pressão e criar suas próprias chances.
Qual a ideia por trás desse passe?
Se a ideia é construir o jogo desde o goleiro com um jogo apoiado e, seguindo a cartilha do Jogo de Posição, “viajar juntos”, no termo que Pep Guardiola popularizou, esse passe é necessário.
Seu time não viaja junto da bola se o goleiro faz um lançamento longo. Dessa forma, primeiro viaja a bola e, depois, se o atacante conseguir retê-la, vão chegando aos poucos os meias, laterais e depois zagueiros. São menos opções de passe e mais chances do adversário roubar a bola — e, se a ideia é mantê-la, obviamente procura-se alternativas para que ela siga na sua posse.
Forcing the error. 👊 pic.twitter.com/g0Jmd2O2LN
— Fulham Football Club (@FulhamFC) December 6, 2024
O passe curto do goleiro para o apoio no meio pode, sim, ser tranquilo. Contra times que defendem em bloco mais baixo e não pressionam, pode ser um dos passes mais fáceis de se fazer. Por outro lado, não dá a mesma recompensa do que se fosse realizado diante de um time que tenta roubar a bola bem alto.
Por isso, a principal ideia do passe é geras superioridade numérica durante a primeira fase de construção, quebrar primeira linha de pressão adversária e usar a dinâmica de terceiro homem para progredir pelo chão.
O ponto crucial que leva as equipes mais propositivas a usarem esse passe é simples: se o goleiro adversário não vai sair do gol para marcar alguém, quem tem a bola com o seu próprio goleiro está sempre em vantagem numérica. A questão é apenas como usá-la ao seu favor.
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Por que fazer um passe tão perigoso é tão benéfico?
Dada a superioridade numérica das equipes que constroem com goleiros, há sempre um espaço para ser encontrado. Geralmente, os times que pressionam alto não constrangem o goleiro de início, mas focam em suas opções de passe, para que ele não tenha saída se não um lançamento longo.

Por isso que existe a ideia de atração de marcadores com passes curtos. Por exemplo: o goleiro faz o passe para o zagueiro ao seu lado, que é pressionado; quando o zagueiro volta a bola ao goleiro, muitas vezes o adversário vai seguir pressionando a bola, justamente pela recompensa de roubá-la naquele momento ter crescido.
Esse movimento geralmente vai liberar alguém como opção de passe, mas não do goleiro — provavelmente a pressão vai tirar o seu ângulo e orientá-lo a um lado específico. Para que a bola chegue no jogador livre, na maioria das vezes, é necessário um passe a mais, pelo meio, para criar esse ângulo que antes foi obstruído. E é esse o passe mais importante do futebol atual.
Cada time terá uma abordagem para quebrar a pressão. Há quem convide o adversário para marcar alto e, então, acelerar em suas costas, como é o caso dos times de Roberto De Zerbi ou Francesco Farioli. E quebrar a pressão é o primeiro passo para atacar com vantagem na atualidade em um jogo com cada vez menos espaço, criá-lo dessa forma é de grande valia.
É justamente por isso que a ampla maioria dos times do mais alto nível tenta impedir esse passe de acontecer. Isso pode ser feito de diferentes formas:
- Há quem prefira pressionar individualmente o jogador que desce como apoio central, para que ele não receba com tempo e espaço o suficiente para ser impactante — ou para que o goleiro decida não tocar para ele;
- Também existem aqueles times decidem marcar as opções de passe do goleiro e dar a ele próprio muito tempo e espaço, deixando que o goleiro suba com a bola (o que poucos farão) ou limitando-o a passes curtos e sem progressão, ou longos sem grande chance de sucesso.
Diferentes goleiros terão diferentes soluções aos problemas apresentados. Ederson, por exemplo, tem um repertório vasto o suficiente para ser impactante sendo pressionado ou tendo espaço, mas é um caso raro.

O risco é tão grande quanto a recompensa
A equipe que faz esse tipo de passe não segue um padrão. Ele é tão necessário que mesmo quem não é conhecido por ser um time dominante ainda assim o busca ocasionalmente — mesmo que não seja o padrão.
A busca pela superioridade numérica e posicional é natural ao jogador de futebol. O volante, na maioria das vezes, vai se apresentar como opção de passe ao goleiro em um espaço sem marcação. Se ele vai receber e se vai conseguir dar prosseguimento à jogada depende do modelo de jogo, da confiança do goleiro e da sua própria capacidade técnica.
Mas jogar dessa forma como regra exige alguns pontos cruciais e inegociáveis:
- O goleiro deve não só ter qualidade no fundamento, mas saber identificar o melhor passe, qual janela está aberta e quando usá-la, e saber tocar no melhor pé do jogador que vai receber;
- O volante (ou quem for receber esse passe) deve “quebrar o pescoço” constantemente para mapear o campo e suas costas, além de conseguir se desvencilhar do jogador que vai o pressionar;
- Os demais jogadores devem ter entendimento da dinâmica de terceiro homem e dos ângulos de passe que se criarão para se movimentarem e criarem novas janelas de passe assim que o goleiro tocar no volante ao meio.
Quando algum destes pontos é quebrado, tudo pode desmoronar. Quanto mais no início da jogada houver o erro, mais perigoso se torna — e o exemplo claro é o erro de James Trafford, goleiro do Manchester City, na derrota para o Tottenham:

Na vitória por 2 a 0 dos Spurs na Premier League desta temporada, Trafford não soube identificar a janela de passe que se criou diante da pressão do Tottenham. Bernardo Silva apareceu livre como apoio, seu marcador mais próximo estava longe e havia espaço para girar e progredir, mas não recebeu.
No fim, o goleiro tocou curto para Nico González, que estava muito pressionado, perto do gol e sem opções de passe. Com isso, perdeu a bola e gerou o segundo gol da equipe londrina.
O passe mais perigoso do futebol é um passe que rompe linhas de pressão como qualquer outro. Poderia ser dado no meio-campo ou no ataque. Mas suas implicações são ainda maiores: pode desmontar a defesa adversária e gerar um gol, ou, com o erro, pode dar de bandeja um gol ao adversário. Todos já o fazem e o defendem, e por isso é uma minúcia tão crucial do futebol atual.



