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Por que o passe mais perigoso do futebol é também o mais importante

Ame ou odeie, o passe que prende a respiração do torcedor é necessário e o mais alto nível já sabe disso

Desde que a priorização da posse de bola se tornou popular no futebol globalmente, surgiram diferentes formas de se construir o jogo com passes. Há quem prefira deslocar adversários com passes curtos e aproveitar brechas criadas, e há quem queira ser arriscado desde atrás para colher frutos melhores rapidamente.

Existem diversos tipos de passes arriscados, com diferentes tipos de “recompensa” por trás deles.

A seleção brasileira de Carlo Ancelotti, por exemplo, tem sido fã dos passes que rompem linhas no meio-campo para acelerar o jogo pelo meio — um passe arriscado, mas recompensador.

No entanto, nenhum passe no futebol é mais perigoso — e mais importante — do que o que sai do goleiro para o jogador em apoio no meio-campo, geralmente um volante, quando o time adversário está fazendo pressão alta. É o que tem mais chance de dar errado e gerar uma chance clara para o adversário, mas, sem ele, é mais difícil que um time consiga sair da pressão e criar suas próprias chances.

Qual a ideia por trás desse passe?

Se a ideia é construir o jogo desde o goleiro com um jogo apoiado e, seguindo a cartilha do Jogo de Posição, “viajar juntos”, no termo que Pep Guardiola popularizou, esse passe é necessário.

Seu time não viaja junto da bola se o goleiro faz um lançamento longo. Dessa forma, primeiro viaja a bola e, depois, se o atacante conseguir retê-la, vão chegando aos poucos os meias, laterais e depois zagueiros. São menos opções de passe e mais chances do adversário roubar a bola — e, se a ideia é mantê-la, obviamente procura-se alternativas para que ela siga na sua posse.

O passe curto do goleiro para o apoio no meio pode, sim, ser tranquilo. Contra times que defendem em bloco mais baixo e não pressionam, pode ser um dos passes mais fáceis de se fazer. Por outro lado, não dá a mesma recompensa do que se fosse realizado diante de um time que tenta roubar a bola bem alto.

Por isso, a principal ideia do passe é geras superioridade numérica durante a primeira fase de construção, quebrar primeira linha de pressão adversária e usar a dinâmica de terceiro homem para progredir pelo chão.

O ponto crucial que leva as equipes mais propositivas a usarem esse passe é simples: se o goleiro adversário não vai sair do gol para marcar alguém, quem tem a bola com o seu próprio goleiro está sempre em vantagem numérica. A questão é apenas como usá-la ao seu favor.

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Por que fazer um passe tão perigoso é tão benéfico?

Dada a superioridade numérica das equipes que constroem com goleiros, há sempre um espaço para ser encontrado. Geralmente, os times que pressionam alto não constrangem o goleiro de início, mas focam em suas opções de passe, para que ele não tenha saída se não um lançamento longo.

marselha paris fc
Paris FC impede o Olympique de Marselha de construir curto com o apoio do volante Angel Gomes (Foto: Reprodução/CazéTV)

Por isso que existe a ideia de atração de marcadores com passes curtos. Por exemplo: o goleiro faz o passe para o zagueiro ao seu lado, que é pressionado; quando o zagueiro volta a bola ao goleiro, muitas vezes o adversário vai seguir pressionando a bola, justamente pela recompensa de roubá-la naquele momento ter crescido.

Esse movimento geralmente vai liberar alguém como opção de passe, mas não do goleiro — provavelmente a pressão vai tirar o seu ângulo e orientá-lo a um lado específico. Para que a bola chegue no jogador livre, na maioria das vezes, é necessário um passe a mais, pelo meio, para criar esse ângulo que antes foi obstruído. E é esse o passe mais importante do futebol atual.

Cada time terá uma abordagem para quebrar a pressão. Há quem convide o adversário para marcar alto e, então, acelerar em suas costas, como é o caso dos times de Roberto De Zerbi ou Francesco Farioli. E quebrar a pressão é o primeiro passo para atacar com vantagem na atualidade em um jogo com cada vez menos espaço, criá-lo dessa forma é de grande valia.

É justamente por isso que a ampla maioria dos times do mais alto nível tenta impedir esse passe de acontecer. Isso pode ser feito de diferentes formas:

  • Há quem prefira pressionar individualmente o jogador que desce como apoio central, para que ele não receba com tempo e espaço o suficiente para ser impactante — ou para que o goleiro decida não tocar para ele;
  • Também existem aqueles times decidem marcar as opções de passe do goleiro e dar a ele próprio muito tempo e espaço, deixando que o goleiro suba com a bola (o que poucos farão) ou limitando-o a passes curtos e sem progressão, ou longos sem grande chance de sucesso.

Diferentes goleiros terão diferentes soluções aos problemas apresentados. Ederson, por exemplo, tem um repertório vasto o suficiente para ser impactante sendo pressionado ou tendo espaço, mas é um caso raro.

ederson bola longa
Juventus fecha opções de passe curto e dá espaço a Ederson. Lançamento para Marmoush fez o time progredir antes do primeiro gol (Foto: Reprodução/CazéTV)

O risco é tão grande quanto a recompensa

A equipe que faz esse tipo de passe não segue um padrão. Ele é tão necessário que mesmo quem não é conhecido por ser um time dominante ainda assim o busca ocasionalmente — mesmo que não seja o padrão.

A busca pela superioridade numérica e posicional é natural ao jogador de futebol. O volante, na maioria das vezes, vai se apresentar como opção de passe ao goleiro em um espaço sem marcação. Se ele vai receber e se vai conseguir dar prosseguimento à jogada depende do modelo de jogo, da confiança do goleiro e da sua própria capacidade técnica.

Mas jogar dessa forma como regra exige alguns pontos cruciais e inegociáveis:

  1. O goleiro deve não só ter qualidade no fundamento, mas saber identificar o melhor passe, qual janela está aberta e quando usá-la, e saber tocar no melhor pé do jogador que vai receber;
  2. O volante (ou quem for receber esse passe) deve “quebrar o pescoço” constantemente para mapear o campo e suas costas, além de conseguir se desvencilhar do jogador que vai o pressionar;
  3. Os demais jogadores devem ter entendimento da dinâmica de terceiro homem e dos ângulos de passe que se criarão para se movimentarem e criarem novas janelas de passe assim que o goleiro tocar no volante ao meio.

Quando algum destes pontos é quebrado, tudo pode desmoronar. Quanto mais no início da jogada houver o erro, mais perigoso se torna — e o exemplo claro é o erro de James Trafford, goleiro do Manchester City, na derrota para o Tottenham:

manchester city trafford erro
Trafford dá um passe muito perigoso, que não gera vantagem ao City e ainda resulta no gol do Tottenham (Foto: Reprodução/ESPN)

Na vitória por 2 a 0 dos Spurs na Premier League desta temporada, Trafford não soube identificar a janela de passe que se criou diante da pressão do Tottenham. Bernardo Silva apareceu livre como apoio, seu marcador mais próximo estava longe e havia espaço para girar e progredir, mas não recebeu.

No fim, o goleiro tocou curto para Nico González, que estava muito pressionado, perto do gol e sem opções de passe. Com isso, perdeu a bola e gerou o segundo gol da equipe londrina.

O passe mais perigoso do futebol é um passe que rompe linhas de pressão como qualquer outro. Poderia ser dado no meio-campo ou no ataque. Mas suas implicações são ainda maiores: pode desmontar a defesa adversária e gerar um gol, ou, com o erro, pode dar de bandeja um gol ao adversário. Todos já o fazem e o defendem, e por isso é uma minúcia tão crucial do futebol atual.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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