Você ainda não viu, mas o futebol tem dado mais espaço a craques individuais e a ‘culpa’ é da defesa
O rumo do futebol de alto nível tem levado a um retorno à priorização dos duelos individuais
A grande maioria do que se consome no mundo é cíclico. Dos diferentes formatos de mídia à moda, o futebol não é diferente. E mudanças táticas no mais alto nível têm feito o jogo voltar a padrões de décadas passadas — principalmente no que diz respeito a dribles.
Os últimos anos foram repletos de debate sobre como “o camisa 10 morreu”, ou como as novas invenções táticas “robotizaram” os jogadores e inibiram o crescimento de craques dribladores. No jogo atual, isso já não acontece mais: esses dois grupos têm cada vez mais espaço atualmente.
Em um cenário com equipes que pressionam cada vez mais alto, forte e constantemente, o jogo tem pedido novas saídas. Uma delas é ser mais direto — algo que diversos times têm feito, incluindo um surpreendente Manchester City. Outra é o crescimento dos jogadores que podem quebrar defesas individualmente: o renascimento do craque.
A evolução na defesa como ponto de partida
O futebol caminhou na última década para um padrão quase universal de pressão alta. A maioria dos times de alto nível busca pressionar a primeira fase de construção adversária de modo a roubar a bola perto do gol ou impedir que haja progressão pelo chão.
Um movimento que ganhou popularidade com Jürgen Klopp e Ralf Rangnick no futebol alemão no fim dos anos 2000, a pressão alta e feroz chegou a um modus operandi estruturado em 2025: times que sobem a marcação com encaixes individuais.

Apesar da pressão alta não ser novidade, ela era feita de forma menos agressiva. Antes, a ideia era majoritariamente induzir a construção a um lado e fazer a pressão por ali. Isso permitia que mesmo uma inferioridade numérica fosse vantajosa, dada a “ajuda” da linha lateral — e permitia que a defesa seguisse com mais jogadores para protegê-la.
Agora, times procuram pressionar praticamente com igualdade numérica. Inicialmente, cada jogador de linha tem um opositor direto e, quando a bola chega ao goleiro, um dos atacantes fecha a opção de passe de retorno para pressioná-lo e avançar ainda mais a pressão.
Esse é um movimento quase que padrão de todos os times que buscam marcar alto. Do modesto Como, na Itália, que é estatisticamente o time mais agressivo do futebol europeu, até o PSG multicampeão da última temporada.
Outro ponto que ilustra a evolução defensiva é em como os times mudam a estrutura da pressão. De um sistema “passivo”, com orientação por zona, para uma subida agressiva e forte. Os gatilhos, como passes para trás ou quando a bola chega à lateral, têm sido cada vez mais frequentes e respondidos com mais agilidade.
De La Masia al mundo: Lamine Yamal 🪄 pic.twitter.com/FjhjCw3tWX
— FC Barcelona (@FCBarcelona_es) November 6, 2025
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Como a pressão influencia o surgimento de ‘craques’?
Quando fala-se sobre o craque brasileiro, habilidoso com a bola e que tem repertório para se desvencilhar da marcação, esse jogador muito provavelmente vem de um contexto de muitos duelos individuais. Seja no futebol de rua, de salão ou simplesmente jogos com espaço reduzido.
No fim das contas, um sistema de pressão alta e forte simula exatamente isso: um campo reduzido. Com a evolução do futebol, os atacantes passaram a ter menos espaços por conta de defesas muito compactadas perto da sua própria área. Agora, o espaço está cada vez menor em todos os setores do campo.
Também por isso que volantes têm aparecido entre as transferências mais caras dos últimos tempos: nomes como Enzo Fernández, Declan Rice e Moisés Caicedo, todos acima dos 100 milhões de libras, têm a capacidade de sair da pressão e fazê-la de forma agressiva quando não têm a bola — impedindo que meias adversários avancem.

O sistema de pressão individual faz com que toda posição do campo seja marcada por uma batalha individual: os volantes enfrentam os meias; os pontas, os laterais; muitas vezes, os próprios laterais se enfrentam. E isso faz com que seja necessário que jogadores vençam seus duelos individuais — significa que o pedido agora é de habilidade técnica.
Esse movimento não só dá espaço aos jogadores criativos, como também pede que eles sejam protagonistas. É também por isso que nomes como Yamal, Musiala, Wirtz, Raphinha, Vinícius Júnior e Rodrygo têm sido impactantes nas últimas temporadas.
Comparado com o modelo de posse de bola dominante que se fez padrão nos últimos anos, quem gerava espaço e criava oportunidades era mais a troca de passes e o “sistema” do que um jogador individualmente. E depois de anos de times aprendendo a defender esse estilo de futebol, já não é mais tão efetivo quanto antes.
Agora, basta um jogador vencer seu duelo para causar grande estrago: em um jogo com encaixes individuais, quando um opositor é superado, cria-se rapidamente um efeito dominó e outros espaços serão escancarados ao longo do campo.
Laterais mais impactantes no jogo, volantes determinantes para o sucesso de grandes clubes e pontas e meias habilidosos da nova geração — tudo isso é reflexo de uma evolução defensiva no jogo para contra-atacar o padrão ofensivo que se instaurou na última década.



