Inglaterra

Pechincha de R$ 700 milhões? História recente mostra volantes mais rentáveis que atacantes

Trio de meio-campistas contraria histórico negativo das transferências mais caras do futebol e redefine impacto imediato de reforços desse calibre

Transferências acima de 100 milhões de libras (R$ 700 milhões, na cotação atual) se tornaram rotina nos últimos anos, principalmente na Premier League. O movimento veio impulsionado por pressão de torcedores, necessidade de resultados imediatos e mercados inflacionados.

Mas, apesar do volume crescente, poucas delas viraram sucesso incontestável. Entre os 11 jogadores que ultrapassaram essa marca em toda a história, a maioria deixou mais dúvidas do que respostas — e os exemplos fracassados são numerosos o bastante para moldar uma reputação problemática.

Ainda assim, uma exceção relevante surge no meio-campo no futebol inglês: Declan Rice, Moisés Caicedo e Enzo Fernández, cada um à sua maneira, começam a provar que esse investimento pode funcionar. E, inclusive, valendo mais gastar esse dinheiro em volantes do que em atacantes.

Atacantes decepcionam e meio-campistas entregam entre os mais caros

A lista dos negócios mais caros da história não é animadora. Antoine Griezmann, João Félix e Philippe Coutinho jamais corresponderam ao investimento feito por Barcelona e Atlético de Madrid, por exemplo.

Até craques como Neymar e Kylian Mbappé, donos de estatísticas avassaladoras, deixaram Paris com a sensação de “projeto incompleto”, já que o PSG só conquistou a Champions League após a saída da dupla. E mesmo reforços recentes, como Alexander Isak e Florian Wirtz, contratados pelo Liverpool neste verão, ainda não se encaixaram no time titular de Arne Slot.

Neymar para o PSG foi a contratação mais cara da história do futebol
Neymar para o PSG foi a contratação mais cara da história do futebol (Foto: Imago)

O contraponto aparece justamente onde historicamente se menos investia cifras desse tamanho: o meio-campo. Diferente dos atacantes milionários, que exigem protagonismo imediato e geram dependência tática, Rice, Caicedo e Enzo oferecem algo mais difícil de encontrar: versatilidade. E todos foram adaptados a funções que fogem do rótulo original que carregavam quando chegaram à Premier League.

Enzo e Caicedo: um Chelsea moldado por funções híbridas

Enzo Fernández desembarcou em Londres como volante clássico, referência defensiva e de passe após sua explosão na Copa de 2022. No Chelsea, porém, virou um meio-campista de chegada, aumentando volume ofensivo a cada temporada — finaliza mais, pisa mais na área e se posiciona mais adiantado.

O técnico Enzo Maresca o transformou numa peça que alterna entre camisa 8 e meia-atacante, algo mais próximo de “Frank Lampard moderno” do que do volante tradicional que se imaginava.

Moisés Caicedo, por sua vez, encontrou no Chelsea uma função ainda mais específica: meio-zagueiro sem bola, volante com bola. A leitura defensiva do equatoriano, somada à mobilidade para ocupar o corredor direito, permitiu a Maresca recriar dinâmicas que lembram o antigo “half-back”. É o tipo de tarefa tática que exige inteligência, disciplina e físico — e que Caicedo tem executado com eficiência crescente.

Rice redefine o camisa 8 moderno no Arsenal

No Arsenal, Declan Rice também rompeu expectativas. O debate eterno sobre ser zagueiro ou volante ficou para trás. Arteta o transformou num meia “box-to-box”, fundamental tanto na construção quanto na chegada à área.

Na vitória por 4 a 1 sobre o Tottenham, Rice exemplificou essa dupla identidade: ora recuava entre os zagueiros para iniciar jogadas, ora aparecia infiltrando às costas da defesa para finalizar.

Rice pelo Arsenal
Rice pelo Arsenal (Foto: Imago)

Sua adaptação evidencia uma mudança estrutural no futebol atual: o meio-campista não é mais rigidamente classificado entre camisa 6 defensivo e o camisa 8 criador. O jogo voltou a valorizar jogadores capazes de fazer tudo — marcar, construir, acelerar e chegar ao gol.

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O investimento alto encontra uma lógica diferente

Os três ainda precisam de longevidade e títulos para serem classificados como grandes negócios. Mas o padrão começa a se desenhar: investir pesado em meio-campistas versáteis é mais seguro do que gastar o mesmo valor em atacantes estrelados, que exigem times construídos à sua volta.

Rice, Caicedo e Enzo mostram que, quando a contratação mira jogadores moldáveis, inteligentes e multifuncionais, o retorno pode ser imediato — e, mais importante, sustentável.

A lista dos jogadores que custaram mais de 100 milhões de libras (cotação atual):

  1. Neymar – PSG (194 milhões de libras);
  2. Mbappé – PSG (157 milhões de libras);
  3. Ousmane Dembelé – Barcelona (129 milhões de libras);
  4. Alexander Isak – Liverpool (127 milhões de libras);
  5. Philippe Coutinho – Barcelona (118 milhões de libras);
  6. João Félix – Atlético de Madrid (111 milhões de libras);
  7. Jude Bellingham – Real Madrid (111 milhões de libras);
  8. Florian Wirtz – Liverpool (110 milhões de libras);
  9. Enzo Fernández – Chelsea (106 milhões de libras);
  10. Eden Hazard – Real Madrid (105 milhões de libras);
  11. Antoine Griezmann – Barcelona (105 milhões de libras);
  12. Jack Grealish – Manchester City (100 milhões de libras)
  13. Cristiano Ronaldo – Juventus (100 milhões de libras);
  14. Declan Rice – Arsenal (100 milhões de libras);
  15. Moisés Caicedo – Chelsea (100 milhões de libras).
Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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