A tática mata o desenvolvimento de jovens no futebol? O que diz a ciência
Crítica sobre o "futebol moderno", que supostamente prioriza ordens em detrimento do lúdico, realmente é válida em termos clínicos e científicos?
A ascensão de Pep Guardiola no fim dos anos 2000 mudou o futebol. A obsessão pelo jogo de passes curtos e geralmente seguros para não perder a bola se espalhou, foi deturpada e moldou quase duas décadas do esporte. Atualmente, apesar de diversos expoentes de alto nível que vão contra essa ideia ou que a reformularam, esse é o tipo de jogo chamado de “futebol moderno”.
E como toda nova tendência, há a crítica, principalmente do lado saudosista ou que viveu sucesso com algo diferente no passado. Não é incomum ver argumentos de como o “futebol moderno está acabando com os dribladores” e ceifando talentos criativos para dar espaço àqueles que se limitam a obedecer regras.
A Trivela foi além do debate sobre preferências: há fundamento na crítica que indica que seguir ordens táticas à risca mata a criatividade e o lado lúdico dos atletas? Os jovens em desenvolvimento que atuam dessa forma sofrem alterações psicológicas ou nas suas ativações cerebrais?
O desenvolvimento dos jogadores enquanto seres humanos é a chave
Ainda existem áreas nebulosas na ciência para acatar ou descartar o argumento crítico sobre o futebol moderno minar talentos criativos. Para Ricardo Eid, médico do esporte especialista em concussão cerebral, o foco de atenção deve ser no desenvolvimento das crianças que se tornarão atletas, antes mesmo de tática e ordens de treinadores se fazerem presentes.
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Segundo o especialista, não é possível afirmar com embasamento científico que o fato de jovens jogadores seguirem regras táticas e ordens de treinadores no futebol de base, por exemplo, afeta negativamente o seu cérebro. O problema é queimar etapas de desenvolvimento das crianças e adolescentes com um foco exacerbado em uma única modalidade — no caso, o futebol.
— Se você olhar desenvolvimento cerebral das pessoas, como é que estão as ativação cerebrais delas, talvez não dê diferença. Mas, via de regra, quanto mais cedo você especializar o seu atleta, pior é para o desenvolvimento dele — explica à reportagem.
É de suma importância a fase de desenvolvimentos motores e vocabulários esportivos. O médico ilustra o que deveria ser uma linha do tempo padrão para o desenvolvimento esportivo das pessoas:
- Até os seis anos de idade, essa criança vai ter muito mais atividades lúdicas — estará literalmente brincando, socializando. Às vezes as suas atividades têm algumas regras, mas poucas;
- Depois, até a faixa dos nove anos, já começa aumentar o vocabulário motor. A criança começa a desenvolver habilidades próximas das modalidades esportivas — e aí entram, por exemplo, os jogos reduzidos de futebol e de todas as outras modalidades;
- Dos nove até os 12 anos é o momento em que a criança tende a escolher qual atividade prefere fazer e focar. Nessa fase, já são jogos com regra total ou perto disso, e pode começar a ter competições, mas sem compromisso total;
- E dos 12 aos 15 anos, geralmente, a pessoa seleciona uma ou duas modalidades para fazer com mais afinco. E é só depois disso que se começa a falar de especialização.
O médico relembra, no entanto, que as competições “sérias” do futebol vêm de idades bem menores do que o sub-15, e atletas com menos de 10 anos já são observados com projeção profissional — e muitas vezes essas crianças só praticam futebol.
8-year-old Leo Messi playing a youth tournament with Newell's Old Boys.
These moves, this left foot… 🐐 pic.twitter.com/DbtxKHRLJp
— Football Talent Scout – Jacek Kulig (@FTalentScout) August 27, 2020
“Então, muitas vezes você deixa de desenvolver algumas habilidades que você estaria desenvolvendo se fizesse outras modalidades. Exemplo simples: em outros esportes você aprende a cair. Tem gestos que você não vai fazer naturalmente na vida, mas são bons para aumentar o seu vocabulário esportivo, que não seriam aprendidos com foco total no apenas no futebol”, analisa.
Quanto mais fiel for a seguir essas etapas e aumentar o vocabulário esportivo, gestos e possibilidades para soluções de diferentes problemas, melhor para o atleta em formação, independente da modalidade.
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O auxílio aos jovens precocemente especializados
No alto nível, é na psicologia que esses jovens amplamente focados no futebol desde cedo podem encontrar ajuda para a solução de alguns de seus problemas durante o desenvolvimento. E esse é o trabalho de Luana Gastão, psicóloga da base do Corinthians, com as categorias sub-15, 17 e 20 do clube:
“Dentro do contexto esportivo, o jogador enfrenta inúmeros desafios. Meu papel é esse: levar para o jogador que são desafios, não ameaças. Até mesmo um treinador que pede uma obediência táctica, não é uma ameaça, ou alguém criando grande expectativa sobre você. Esse é o trabalho: as habilidades emocionais que a gente desenvolve no atleta”.
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A psicóloga explica que a maior queixa dos jovens atletas é sobre frustração, que pode se fazer presente de diferentes formas: angústia de estar no banco, uma lesão que o tirou dos gramados ou pressão para performar em alto nível.
— O banco é uma grande questão, e a gente precisa dar um novo significado para isso. Eu costumo dizer que o banco é onde você tem a visão privilegiada do campo. Então, o que a pessoa da sua posição ali não tem? O que falta que você poderia entregar? Tem casos também de pressão: quando ganha a titularidade, ‘o que os meus pais e o público vão achar de mim’ — conta a profissional.
Ter medo e ansiedade, em níveis controlados, é natural e inclusive benéfico, aponta Luana. Os jovens não devem se martirizar por terem esse sentimento, mas também merecem auxílio no seu desenvolvimento profissional.
— Uma pessoa que está sentindo ansiedade, isso é importantíssimo. A ansiedade é uma forma de você antecipar seu futuro e se preparar para ele. O medo também é importante, é sobrevivência. Sem medo, você atravessa a rua sem olhar. Todas as emoções são importantes, a questão é como a gente gerencia isso –.
Afinal, o jogador é impactado ao seguir regras e ‘esquecer’ da individualidade?
O principal argumento levantado em termos neurológicos é que não é benéfico que os jogadores se especializem muito cedo em sua trajetória, uma vez que tendem a perder contato com outras formas de resolver problemas. Isso, como consequência, os tornaria, em média, piores jogadores de futebol em termos globais de vocabulário esportivo.
Esse argumento, por sua vez, não tem nenhuma ligação com seguir instruções táticas, tanto nas categorias de base quanto no profissional. Dessa forma, ser “obediente taticamente” não tem impacto cerebral sobre o jogador.
Por outro lado, em termos psicológicos, existe a ideia de que, quando jovem, se o jogador focar muito em obedecer instruções e for privado da liberdade das suar próprias ações (seja porque é retraído, por sua própria personalidade, ou porque o treinador é rígido e o impede de tomar decisões próprias), isso pode ter impacto no futuro.
O argumento deste lado é que o atleta vai ser moldado a tentar menos, a seguir ordens em detrimento da sua própria interpretação e, por isso, pode também se tornar um jogador com menos repertório.