Champions League

Guerra de desgaste? Por que final da Champions pareceu mau presságio para a Copa 2026

Decisão vencida pelo PSG nos pênaltis diante do Arsenal foi trucada e sem grandes chances para ambas equipes

Dois times com o talento, uma condição física adequada e uma disposição para atacar produziram um espetáculo inesquecível nas semifinais da Champions League. Me refiro, claro, ao encontro entre o Paris Saint Germain e o Bayern de Munique. Na final, colocando o Arsenal no lugar dos alemães, a partida  é totalmente diferente: uma guerra de desgaste onde um quer jogar, mas o outro está mais focado em defender.

Para ser justo, pode até ser que o Arsenal sofreu por causa de seu gol tão cedo. Se colocou no defensivo desde o início. Um elenco rico em recursos produziu muito pouco, e mereceu perder, mesmo sendo na disputa por pênaltis.

O meu medo para a Copa do Mundo é o seguinte: temo que tem muita mais possibilidades de jogos tipo PSG x Arsenal do que PSG x Bayern, por dois motivos principais.

Copa do Mundo com mais jogos estilo PSG x Arsenal do que PSG x Bayern

Um dos motivos é a própria estrutura do torneio. Tem uma justificativa sólida para expandir a Copa para 48 seleções. Com 32, a África não estava recebendo vagas suficientes, e uma vez que ninguém vai abrir mão de lugares, expandir era a única solução.

Mas 48 não é um número fácil. Dos 12 grupos de quatro times, oito das seleções que terminam em terceiro lugar vão se classificar para a fase mata-mata. Não é necessário, então, fazer um grande esforço para ficar vivo na competição. A cautela é premiada.

Arteta terminou uma temporada histórica com gosto amargo. Foto: IMAGO/Craig Mercer
Arteta terminou uma temporada histórica com gosto amargo. Foto: IMAGO/Craig Mercer

Uma vez classificados, os times mais fracos têm um incentivo extra para se fechar na defesa. Não precisa ganhar. Pode empatar, ficar apostando na disputa de pênaltis e fazer progresso. Pode ser que nem o Paraguai na Copa América de 2011, quando chegou na final sem vencer um jogo sequer. Teoricamente, pode ganhar a Copa do Mundo até sem marcar um gol. Isso é preocupante.

E fica mais preocupante ainda levando em consideração as condições climáticas.

Lembro bem da última Copa nos Estados Unidos, 32 anos atrás. Os times entraram para a grande final, e levei um choque enorme vendo o Franco Baresi presente como o capitão da Itália. O grande zagueiro passou por um procedimento no joelho durante a Copa. Não era possível que ele estivesse em condições – menos ainda porque teria que marcar o Romário. “Não tem como funcionar”, pensei.

Funcionou. Funcionou tão bem que o Baresi conseguiu anular o melhor jogador da Copa. Um pouco como Gabriel Magalhães no sábado contra o PSG, foi muito cruel Baresi perder o seu pênalti depois de lutar bravamente durante 120 minutos.

Sempre fiquei fascinado com esse duelo entre o Baresi e o Romário. Anos depois, vi os dois técnicos de 94, Parreira do Brasil e Sacchi da Itália, juntos num evento no Rio de Janeiro. Falaram sobre o caso. A conclusão, nas condições de calor desumano, não somente no dia mas acumulado durante o torneio, era melhor estar machucado do que estar cansado.

O Sacchi revelou que no intervalo o Donadoni, um dos seus meio campistas, falou o seguinte: “Professor, se a gente vai para frente, a gente não vai conseguir voltar.” 

Nessas circunstâncias, o que vão fazer a maioria dos times? Eles vão optar por manter a solidez defensiva, somente levando o time para frente na boa. Calor excessivo, especialmente quando dá para classificar sem assumir os riscos de vencer, tem a tendência de produzir um futebol cauteloso.

A equivalente de PSG x Bayern, na esfera das seleções, seria a final de Qatar, o jogo sensacional entre a Argentina e a França. Aconteceu em quais circunstâncias? Num torneio transferido para novembro-dezembro para driblar o calor da região, e que aconteceu na metade da temporada europeia, com os melhores jogadores ainda cheios de gás.

Gostaria muito de estar errado, mas acho difícil a gente ver um nível de espetáculo parecido na fase decisiva desta Copa. Acho que muitos jogos vão seguir o modelo “guerra de desgaste” de PSG x Arsenal.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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