Como Baggio e Baresi podem dar lição a Ancelotti sobre Neymar na Copa do Mundo
Atacante brasileiro se vê envolvido em nova polêmica com sua questão física e deve causar dilema ao treinador italiano
Carlo Ancelotti não terá sua primeira experiência na Copa do Mundo como treinador em 2026. Em 1994, foi auxiliar técnico de Arrigo Sacchi com a seleção italiana. E, naquela ocasião, ele vivenciou algo semelhante à polêmica atual sobre as questões físicas de Neymar.
Em 1994, a Itália teve dois grandes baques durante a Copa do Mundo: Franco Baresi e Roberto Baggio, as duas principais referências do time, sofreram lesões que impactaram a final, perdida justamente para o Brasil. E a lembrança que Ancelotti tem sobre o dilema de escalá-los ou não pode ajudá-lo a resolver a “questão Neymar”.
A lesão de Neymar para a Copa do Mundo de 2026
A convocação ou não de Neymar foi rodeada de polêmica antes de Ancelotti divulgar a lista oficial para a Copa, no dia 18 de maio. Na ocasião, o atacante foi chamado com a justificativa de que estaria apto fisicamente e que Santos e CBF trocavam informações sobre a recuperação do atleta.
Naquele momento, o Santos informou à CBF que Neymar tinha apenas um edema na panturrilha. Nesta quinta-feira (28), o médico da seleção brasileira, Rodrigo Lasmar, se pronunciou antes da entrevista coletiva e afirmou que, na verdade, foi constatada uma lesão de grau dois na região. A expectativa é de que ele esteja liberado daqui duas a três semanas.
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O Santos reforçou que absolutamente todos os exames realizados por Neymar foram compartilhados com a CBF até o dia 18, data da convocação. O prazo de duas semanas na recuperação seria contado a partir do dia 17 e terminaria neste domingo (31), para que o jogador estivesse apto a voltar às atividades, “lembrando sempre que essas estimativas variam de pessoa para pessoa e conforme a necessidade da equipe e importância dos jogos”.
O diagnóstico dos exames feitos pela Seleção é diferente do que foi apresentado à CBF. O Peixe havia cravado que Neymar estaria apto a iniciar os treinos na última quarta-feira (27), o que não aconteceu — e o camisa 10 não treinou. Com isso, Neymar deve ficar de fora dos dois amistosos preparatórios do Brasil antes da Copa, contra Panamá (30) e Egito (6), e é dúvida para a estreia no Mundial, contra Marrocos, no dia 13 de junho.
A situação coloca dúvidas para e sobre Ancelotti. Parte da torcida e imprensa passou a questionar a decisão do treinador de levar o atacante, mesmo sem estar completamente apto, e como isso difere do argumento que o italiano sempre deu sobre convocar apenas jogadores 100% fisicamente.
Vale ressaltar, no entanto, que essa fala de Ancelotti sempre foi voltada às convocações de testes — nãos seria possível testar uma nova opção se ela não estivesse completamente apta. Para a Copa do Mundo, o discurso “mudou” levemente: agora, a ideia é reunir no grupo jogadores que podem ser capazes de ajudar o time a vencer o Mundial.
Por isso cria-se a dúvida do próprio treinador: Neymar, se recuperando de lesão ainda durante a Copa, seria capaz de contribuir? O atacante está longe dos seus momentos mais brilhantes, mas ainda é visto como liderança dentro do elenco e carrega a “aura” de ídolo e jogador de confiança dos companheiros (por mais que o termo tenha se deteriorado recentemente).
🚨 Agora! Nota oficial do Santos sobre o 'caso Neymar':
“NOTA DO SANTOS FC:
Sobre a questão clínica do atleta Neymar Jr., o Departamento Médico do Santos FC esclarece que:
– Absolutamente todos os exames realizados por Neymar Jr. foram compartilhados com a Confederação… pic.twitter.com/yDtKGOYEUh
— Planeta do Futebol 🌎 (@futebol_info) May 28, 2026
E toda a situação sobre levar Neymar ou não — e, ainda mais, escalá-lo ou não — retoma uma situação que Ancelotti já viveu com duas lendas italianas em 1994.
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Os casos de Baggio e Baresi em 1994 e como Ancelotti lidou com isso na Copa do Mundo
No Mundial também disputado nos Estados Unidos, a Itália vinha em grande momento, mas passou por apuros com dois dos seus grandes nomes. Baresi, aos 34 anos, era o capitão da seleção e o principal líder do elenco, além de um dos grandes zagueiros da história. E ele se lesionou no segundo jogo da Copa.
Na ocasião, Baresi lesionou o menisco do joelho direito e chegou a fazer cirurgia nos EUA. O zagueiro teve uma recuperação às pressas e, apenas 25 dias depois, foi titular na final contra o Brasil — e jogou os 120 minutos da prorrogação. Mesmo no sacrifício, fez grande jogo.
Baggio, por sua vez, sofreu um estiramento muscular na parte posterior da coxa direita. O lance ocorreu já na semifinal, contra a Bulgária, quando marcou os dois gols italianos na vitória por 2 a 1.
O contexto é, claro, diferente de Neymar. Baggio vinha de um ano de 1993 em que viveu seu grande auge: aos 26 anos, foi campeão da Europa League e artilheiro da Juventus no ano com 39 gols, sua melhor marca na carreira, e venceu a Bola de Ouro. No ano seguinte, era o grande líder técnico da Itália e a esperança ofensiva do time.
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O médico da seleção italiana na época, Andrea Ferretti, não dava grandes esperanças para o camisa 10 atuar na final. Mesmo assim, o maior nome da geração não foi poupado e jogou com dores, infiltração no local e clara dificuldade de movimentação. Ainda teve um final trágico com o seu pênalti para fora sendo o responsável pelo tetracampeonato brasileiro.
Mas há paralelos nas histórias da dupla italiana com Neymar. Ancelotti participou da decisão com Arrigo Sacchi de escalar ambos, mesmo longe das condições físicas. Os motivos eram óbvios: eram líderes de toda aquela geração, e carregavam a mesma energia de “salvadores da pátria” que muitos colocam sobre Neymar — principalmente Baggio.
É óbvio que Neymar não vive o auge que Baggio vivia. O atacante do Santos já tem 34 anos e vive há pelo menos três lutando para manter uma sequência de jogos em alto nível, e não tem tido tanto sucesso assim. Mas, mesmo assim, ainda há muita fé depositada na sua participação no time pelos próprios jogadores e pela comissão técnica de Ancelotti.
Baggio jogou a final no sacrifício e praticamente sem conseguir correr, mas ajudou não só seu próprio time a acreditar na possibilidade do título, mas foi o herói para a torcida. Mais do que a tática, o lado emocional e a conexão com a torcida são importantes em momentos como esse — principalmente em torneios em que o desempenho é superestimado, como a Copa do Mundo.
No fim, a decisão de Ancelotti por cortar o não Neymar pode fazê-lo revisitar o caso de 1994. Escalar Baresi e Baggio foi um acerto na ocasião, mesmo que o título não tenha vindo. Foi uma final dura que poderia ter ido para qualquer lado da moeda. Neymar pode ser um caso semelhante.