Copa do Mundo

Dos problemas escolares à elite europeia: Como Maignan virou referência no gol da França

Ele odiava futebol, mas tudo mudou após uma campanha do McDonald's em 2000

Quase todas as noites, a mesma cena se repetia em Villiers-le-Bel, uma pequena comuna da França. No final dos anos 2000, quando o fim de tarde chegava, as aulas na escola Léon-Blum se encerravam e a tensão tomava conta das ruas. De um lado, o bairro Puits-la-Marlière. Do outro, Les Carreaux. Crescer ali — em meio a um clima de rivalidade, invasões e brigas frequentes — exigia resistência.

Neste cenário, vivia o jovem Mike — não é redução de Michael — Maignan, já reconhecido pelo seu talento no futebol, na época ainda como atacante. Morador de Les Carreaux, em meio a prédios desgastados e um cotidiano bastante delicado, o jovem, nascido em Caiena, capital da Guiana Francesa, se mudou com a família para a França ainda criança e lá tentava construir um caminho diferente.

Ao lado da mãe e das duas irmãs, dividia a rotina entre a escola, o pequeno apartamento da família e os treinos no clube Villiers-le-Bel JS.

No entanto, a trajetória do jovem com o futebol nem sempre existiu. O próprio jogador já revelou em entrevistas que, quando criança, não tinha interesse pelo esporte, mas tudo mudou após uma ação do McDonald’s.

Durante a Euro de 2000, vencida justamente pela França e com Didier Deschamps sendo um dos líderes do elenco, a rede de fast food deu uma bola de futebol devido à campanha que promovia a competição. O garoto passou a brincar com o objeto em casa e ali descobriu seu amor pelo esporte.

— Eu odiava futebol. (Mas, depois do presente), nunca mais larguei a bola, brinquei com ela em todos os lugares da casa e até quebrei algumas coisas — revelou ao canal “Le Populaire”da França.

Assim como grande parte dos jovens criados em cenários turbulentos, o futebol virou refúgio. Dentro de campo, as rivalidades entre os bairros não existiam. O nome do garoto começou a ganhar força e circular na região.

Apesar de ser focado no esporte e começar a ser destaque, o caminho não foi linear. Sem figura paterna presente, Maignan testava os limites que lhe eram impostos. Não era considerado um adolescente problemático, segundo quem conviveu com ele, mas falava demais em sala, enfrentava os professores e acumulava notas abaixo do esperado.

— O Mike era reservado, adorável. Tinha uma educação adequada e valores sólidos. Mas não se podia contrariá-lo. Se o fizessem, receberiam o que mereciam — lembrou Romain Damiano, treinador do clube de Villiers-le-Bel, em entrevista ao “L’Équipe”.

Mike Maignan é goleiro do Milan
Mike Maignan é goleiro do Milan. Foto: IMAGO / Gonzales Photo

A grande chance que quase não aconteceu

Em 2008, surgiu a grande oportunidade. Aos 13 anos, Maignan participou das seletivas do Instituto Nacional de Futebol de Clairefontaine. Criado em 1988, o instituto visa desenvolver jovens promessas do país, com um processo de seleção rigoroso, e já ajudou a formar nomes como Thierry Henry e Kylian Mbappé.

Nesta época, Mike já havia se descoberto goleiro e, sem novidades, impressionou treinadores e avaliadores. Ainda assim, a oportunidade não aconteceu. O motivo não estava nos gramados, mas no boletim escolar.

Enquanto isso, o Paris Saint-Germain já acompanhava o jovem goleiro havia algum tempo. O clube enxergava potencial atlético e uma personalidade competitiva, mas, para contratá-lo, precisaria que suas notas melhorassem.

Em reunião na sede do clube de Villiers-le-Bel, Maignan se sentou à mesa ao lado da mãe, de treinadores e representantes do PSG. A mensagem foi direta: para entrar no programa de formação, precisaria melhorar as notas e mudar o comportamento. Teria um ano para provar que estava pronto.

— Explicamos ao Mike que, considerando seu boletim e alguns de seus comportamentos, sua admissão futura teria que ser condicionada à melhora de suas notas. Mas deixamos claro que essa era a condição para ingressar em nosso programa de pré-formação. Demos um ano e depois vimos.. Lembro-me de ter sentido, durante aquela reunião, que o Mike estava receptivo, que havia entendido a mensagem — relembrou Pierre Reynaud, ex-olheiro do PSG, ao “L’Équipe”.

No retorno às aulas, Maignan apareceu diferente na escola. Algumas atitudes ficaram para trás. As notas começaram a subir. O garoto inquieto passou a tratar o estudo como parte do próprio projeto de vida. Meses depois, em 2009, as portas do PSG se abriram de vez. Foi um passo decisivo para quem, anos depois, se tornaria goleiro da seleção francesa e um dos principais nomes da posição na Europa.

Maignan pelo Milan
Maignan pelo Milan. Foto: IMAGO / Marco Canoniero

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Magic Mike

Conhecido desde pequeno como “Magic Mike”, Maignan assinou seu primeiro contrato com o PSG bastante cedo. No entanto, apesar do talento reconhecido internamente, ele não recebeu oportunidades reais na equipe principal do clube parisiense.

Até por isso, decidiu mudar de rota, e isso aconteceu em 2015, quando acertou com o Lille. Contratado inicialmente para compor elenco, precisou de paciência até assumir a titularidade em 2017. A partir dali, cresceu rapidamente e virou um dos destaques do Campeonato Francês, sendo eleito o melhor goleiro da Ligue 1 na temporada 2018/19.

Na temporada 2020/21, foi quando Maignan viveu seu auge. Ele foi titular em todos os jogos da campanha do Lille na Ligue 1, sendo peça central na conquista do título francês que encerrou a hegemonia doméstica do PSG. Além do desempenho técnico, assumiu protagonismo dentro do vestiário e se firmou como uma das lideranças da equipe.

O desempenho chamou a atenção do Milan, que o contratou em 2021 por cerca de 15 milhões de euros para substituir Gianluigi Donnarumma. A missão parecia complexa, mas Maignan respondeu de imediato.

Logo na primeira temporada, foi um dos pilares da conquista da Serie A de 2021/22, encerrando um jejum de 11 anos sem o título italiano para o clube rossonero. Também terminou a competição reconhecido como melhor goleiro do torneio.

Desde então, manteve status de referência técnica e liderança no elenco milanista, chegando a usar a braçadeira de capitão. Em janeiro de 2026, renovou contrato até 2031, reforçando a identificação construída com o clube.

Mas e a seleção francesa?

Pela seleção francesa, Maignan percorreu todas as categorias de base antes de estrear no time principal em 2020. Inicialmente era reserva de Hugo Lloris, mas assumiu a titularidade após a aposentadoria do ex-capitão, em 2023. Desde então, ganhou protagonismo e se destacou na Euro 2024, sendo apontado como um dos melhores goleiros do torneio.

— Ele é um cara sério, profissional e metódico. Passa muita segurança e tranquilidade para o time — afirmou o goleiro Léo Jardim, atualmente no Vasco, mas que foi companheiro de Maignan no Lille, à ESPN.

Maignan em amistoso contra a seleção brasileira
Maignan em amistoso contra a seleção brasileira. Foto: IMAGO / Fotoarena

Agora, Mike Maignan terá a missão de defender o gol da França na Copa do Mundo de 2026. Essa será a primeira vez que o jogador defenderá os Le Bleus em um torneio dessa categoria. Em 2022, a meta era defendida por Hugo Lloris, com Alphonse Areola e Steve Mandanda como arqueiros suplentes.

Na Eurocopa 2024, o jogador foi convocado por Didier Deschamps. Na titularidade, fez boas partidas e acompanhou a seleção até a semifinal do torneio, quando terminaram eliminados pela Espanha por 2 a 1.

Voz contra o racismo

Maignan é um atleta que viveu diferentes desafios na vida. O racismo, infelizmente, foi um deles. Alvo de ataques, ele tem sido protagonista em ações de combate. Não se cala. Por diversas vezes, denunciou torcidas adversárias e, inclusive, deixou o gramado em uma partida contra a Udinese após ser vítima de manifestações racistas em janeiro de 2024. Com isso, foi se tornando uma voz importante e potente na luta contra o racismo.

Na partida contra a Udinese, o Milan ganhava por 3 a 2, quando o arqueiro foi vítima de cânticos discriminatórios. O goleiro chegou a comunicar a arbitragem, mas, diante da situação que não se resolvia, optou por deixar o gramado, assim como alguns membros da comissão técnica do clube. Após a situação ser resolvida, o atleta voltou e o jogo foi finalizado.

— Hoje, não foi o jogador que foi atacado. Foi o homem. O homem que é pai de família. Essa não é a primeira vez que isso acontece comigo. E essa não foi a primeira vez que isso aconteceu. Nós escrevemos notas, lançamos campanhas publicitárias, adotamos protocolos… E nada mudou. Hoje, um sistema inteiro precisa ser responsabilizado. Eu já disse isso a vocês e é muito chato ter que ficar repetindo: eu não sou uma vítima! (…) É uma luta difícil, que vai levar tempo e coragem. Mas nós vamos vencer essa luta! — desabafou o jogador após a partida.

Mike Maignan pela França
Mike Maignan pela França. Foto: IMAGO / Antonio Balasco

Em dezembro de 2024, o goleiro voltou a ser alvo de cânticos racistas, dessa vez vindo da torcida do Hellas Verona. O jogador, novamente denunciou o caso à arbitragem, e mensagens foram exibidas em telões pedindo para que os torcedores parassem.

Com isso, Maignan se tornou uma importante voz, ao lado de Vinicius Junior e de outros tantos atletas, na luta contra o racismo no futebol.

A história de Mike Maignan não é apenas sobre um goleiro, mas sobre alguém que aprendeu a fechar as portas para tudo aquilo que tentava desviá-lo do caminho. Hoje, quando pisa em campo com a camisa da França ou do Milan, Maignan não representa só uma geração de goleiros modernos, mas uma geração inteira que encontrou no esporte uma forma de existir, resistir e, sobretudo, ser ouvida.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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