Copa do Mundo

Como a França tem dúvidas e ressalvas históricas mesmo com melhor ataque da história das Copas

Deschamps levará ao Mundial de 2026 um dos melhores ataques da história do torneio, mas ainda tem questões não respondidas

A seleção francesa vive uma fase histórica no futebol. Em 2026, o time de Didier Deschamps disputará sua terceira Copa do Mundo seguida como a principal favorita do torneio. E o talento no time só cresce a cada edição.

Se o título de 2018 teve um jovem Kylian Mbappé explodindo para o mundo ao lado de astros consolidados como Hugo Lloris e Antoine Griezmann, agora o camisa 10 comanda um ataque que, possivelmente, é o que melhor chega a um Mundial em toda a história.

Mesmo assim, Deschamps ainda tem dúvidas — que, dadas as devidas proporções, até se assemelham às do Brasil: quantos atacantes colocar no time titular? Quais deles? E onde jogarão, uma vez que vários deles são polivalentes? E só o talento vai bastar?

A safra geracional do ataque da seleção francesa

Entre atacantes de profundidade, goleadores, meias que jogam como pontas e simplesmente jogadores completos para a função, a França deve levar ao Mundial nos Estados Unidos, Canadá e México o grupo ofensivo mais talentoso do torneio.

Mbappé é o principal nome da geração e um jogador que está entre os melhores do mundo há quase uma década. Ousmane Dembélé, que também foi como jovem promessa em 2018, deu a volta por cima e é o atual melhor jogador do planeta pela Bola de Ouro.

Didier Deschamps Kylian Mbappé
Didier Deschamps e Kylian Mbappé conversam durante o treinamento. (Foto: Lafargue Raphael / IMAGO / ABACAPRESS)

Michael Olise é um dos grandes criadores do futebol atual e vive uma temporada histórica no Bayern de Munique — podendo, inclusive, quebrar o recorde de Lionel Messi de mais assistências em uma temporada.

Rayan Cherki, no Manchester City, tem chamado a atenção por quebrar o paradigma de um futebol supostamente “mecanizado” sendo uma lufada de talento lúdico e improvisação, aliando isso a precisão e eficiência. Maghnes Akliouche é outra joia do Monaco que, similar a Cherki, é um criador ousado, driblador e que pode mudar o jogo em pouco tempo, apesar de não ter dado o “boom” a uma prateleira maior.

Bradley Barcola e Desiré Doué formam a dupla de joias nas pontas do PSG, o atual campeão da Champions League e que vem de uma temporada histórica. Mesmo jovens, foram cruciais para a campanha que ficará na memória como a melhor do clube em todos os tempos.

E entre atacantes mais próximos de camisas 9, Marcus Thuram mistura força física, instinto goleador e qualidades para atuar pelos lados, progredir com a bola e atacar as costas da defesa — ou seja, um atacante completo. Hugo Ekitiké seria importante para o time e provavelmente titular, mas, lesionado, ficará de fora do Mundial.

É justo dizer que nenhuma seleção na história moderna chegou perto de levar um grupo de atacantes tão volumoso e tão talentoso quanto a França fará em 2026. Principalmente pelo momento de cada um.

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Os ‘problemas’ de Deschamps na França

Com tanto talento, criam-se dúvidas — os famosos “problemas bons”:

  • Que formação será usada para alocar tantos atacantes?
  • Quem é titular e quem ficará de fora?
  • Qual jogador será priorizado e qual terá de fazer o trabalho sujo para outro “brilhar”?
  • Quais as opções em outros setores que mais casam com o time como forma de dar suporte a esses talentos ofensivos?
Deschamps, treinador da França
Deschamps, treinador da França (Foto: Sandra Ruhaut/Icon Sport)

Na última Data Fifa, nas vitórias contra Brasil e Colômbia, Deschamps fez testes para responder algumas dessas perguntas. Contra a seleção brasileira, levou um time mais próximo do que se entende como titular, e contra os colombianos, os reservas.

Nos dois, houve uma mescla de 4-2-4 e 4-2-3-1, similar ao time de Carlo Ancelotti. Mbappé, Ekitiké, Olise e Dembélé formaram o quarteto no primeiro jogo, enquanto Thuram, Doué, Cherki e Akliouche o do segundo.

Nos dois casos, foram escalados um centroavante móvel com liberdade para cair pelos lados, um ponta-direito habilidoso com capacidade criativa e um “camisa 10” que também joga pela ponta e tem carta branca para encontrar espaço. A diferença foi na esquerda: Ekitiké é mais centroavante, enquanto Doué é um clássico ponta.

Atrás desse quarteto, entre os titulares, havia a dupla de Rabiot e Tchouaméni. Contra a Colômbia, Kanté e Zeire-Emery foram os volantes. Nos dois casos, somam-se meio-campistas combativos, de força física e capacidade de progressão com outros menos impactantes nos duelos, mas com boas qualidades de manutenção da posse e passe.

A solidificação de uma defesa de quatro se manteve em toda a era Deschamps e é, inclusive, um dos segredos do time. São os laterais quem geralmente dão amplitude durante a fase de construção, enquanto o quarteto ofensivo ocupa os meio-espaços e entrelinhas para combinar entre si. Isso foi especialmente proveitoso contra o Brasil.

Em termos táticos, a França tem feito o que foi a ideia de Ancelotti nas melhores atuações do Brasil no ciclo: aglomerar talentos entrelinhas para progredir pelo meio com tabelas, dribles e abusar da sua qualidade individual. E tem dado certo.

O que a história diz sobre juntar grandes talentos nas Copas do Mundo

Se o ataque francês é uma das grandes reuniões de talento de todas as edições do Mundial, há exemplos de outros casos em que isso não foi positivo. A Inglaterra de 2006 é um exemplo claro.

Com provavelmente o melhor conjunto de meio-campistas da sua história e o melhor do mundo naquela altura, a Inglaterra até hoje tenta decifrar o que não deu certo no Mundial da Alemanha. Um time com David Beckham, Frank Lampard, Steven Gerrard, Wayne Rooney e Michael Owen, além de Joe Cole como o “patinho feio” e Theo Walcott e Aaron Lennon como jovens promessas nas pontas.

A seleção brasileira do mesmo ano também é um caso que sempre volta à tona quando debatida a junção de talento. Em um grupo com Gilberto Silva, Zé Roberto, Ronaldinho, Kaká, Adriano, Ronaldo e Juninho Pernambucano, difícil encontrar quem tivesse mais qualidade reunida.

A questão brasileira, como foi posteriormente revelado por jogadores e imprensa, foi de preparação e foco na competição, talvez vindo de uma grande sequência de títulos que ampliou o favoritismo.

A segunda parte da equação do fracasso brasileiro há 20 anos também pode acontecer com a França. Ampla favorita, vinda de um título e um vice na Copa e com um grupo geracional — mesmo que a preparação seja séria e ninguém duvide do comprometimento francês, há o registro histórico de que reunião de talento não resulta necessariamente em sucesso.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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