Eurocopa 2024

Eurocopa: Espanha derruba falácias e traz lições à seleção brasileira

Dona do melhor futebol da Euro, La Roja desbancou a França e garantiu vaga na decisão

A Espanha é finalista da Eurocopa 2024. Nesta terça-feira (9), La Roja venceu a França de virada, por 2 a 1, e garantiu vaga no torneio de seleções mais importante do velho continente.

Lamine Yamal foi o grande nome da vitória em Munique. Autor do primeiro gol espanhol na semifinal, a joia do Barcelona se tornou o jogador mais jovem balançar as redes na história da Eurocopa — 16 anos e 362 dias.

Apesar do feito do jovem de La Masia, um ‘coadjuvante de luxo’ da seleção espanhola também merece destaque nessa Euro. Dani Olmo, meio-campista do RB Leipzig, deixou sua marca mais uma vez e chegou a cinco participações em gols no torneio.

O talento nato de Yamal e o brilho de Olmo pela Espanha trazem reflexões importantes para a Seleção Brasileira. E o ‘recado’ serve para todos: CBF, comissão técnica e torcedores.

Lamine Yamal comemora classificação da Espanha à final da Euro
Lamine Yamal comemora classificação da Espanha à final da Euro (Foto: Icon Sport)

Se o jogador é bom, desequilibra e tem estrela, a idade é mero detalhe

Dorival Júnior tem muito a aprender com o trabalho de Luis de la Fuente à frente da Espanha. No português claro, a Eurocopa histórica que faz Yamal soa como um tapa na cara do técnico da seleção brasileira.

Se por um lado, Dorival ‘pisa em ovos’ e adota cautela (bem excessiva) para utilizar Endrick e convocar outros jovens, como Estêvão, na Espanha jogam os melhores.

A idade para De la Fuente não é o mais importante. Acima disso está a vontade de surpreender o adversário e vencer o jogo. E cá entre nós, errado ele não está. Quer jeito mais fácil de alcançar o triunfo do que usar suas melhores armas em campo?

Bom, dito isso, a pergunta que fica é: por que os principais jovens talentos do futebol brasileiro não jogam ou tem baixa minutagem na seleção?

Essas foram algumas das frases ditas por Dorival para justificar a opção de manter Endrick no banco de reservas: “temos que ter um pouco de cuidado”, “um erro pode ser fatal”, “peço só um pouco de paciência a todos”.

Endrick em ação pela Seleção Brasileira na Copa América
Endrick em ação pela Seleção Brasileira na Copa América (Foto: Icon Sport)

Vale destacar que Endrick completou 17 anos recentemente, assim como Estêvão — ambos são meses mais velhos que Yamal. Com 16 anos, o craque espanhol quebrou três recordes históricos na Eurocopa: mais jovem a disputar a competição, a conceder uma assistência e a marcar um gol.

Qual a desculpa? Mantendo a dupla do Palmeiras como exemplo, me questiono quais são as vantagens de deixá-los de fora. Não existe. É um erro crasso.

Endrick é campeão brasileiro, marcou gols importantes em 2023 e mostrou estrela ao balançar as redes nos amistosos contra Inglaterra e Espanha neste ano. O Real Madrid, maior clube do mundo, escolheu investir no atacante. Seria a idade um problema?

Estêvão, por sua vez, é dono de uma habilidade rara com a bola nos pés e vem sendo o principal destaque do Alviverde na atual temporada. Rápido, técnico e inteligente nas tomadas de decisão. O Chelsea notou isso e o comprou por mais de R$ 360 milhões. Seria a idade um problema mesmo?

Jogar em clubes de menor expressão não é um problema

Após o empate do Brasil por 1 a 1 com a Colômbia, em jogo válido pela terceira rodada da Copa América, Galvão Bueno usou seu canal no YouTube para tecer críticas ao desempenho do meio-campo canarinho.

Na opinião do narrador/apresentador, o fato de Bruno Guimarães, João Gomes, Lucas Paquetá e Andreas Pereira jogarem em clubes de média expressão na Inglaterra é um demérito para a imagem da seleção.

— Vou dizer uma coisa aqui e vão dizer que sou maldoso, mas os quatro jogadores do meio-campo do Brasil que jogaram são de clubes médios para pequenos do futebol inglês. Tem alguém do Manchester City? Do United? Do Arsenal? Do Liverpool? Esse é o nível do meio-campo do futebol brasileiro, da metade para baixo do futebol inglês. O time da Colômbia dominou o meio-campo, dominou o jogo, merecia a vitória — disse o narrador.

Com todo respeito, bobagem das grandes dita pelo renomado narrador. Para começo de conversa, quem do meio-campo colombiano joga em um clube de ponta na Europa? A resposta é nenhum.

Jefferson Lerma (Crystal Palace-ING), Luis Sinisterra (Bournemouth-ING), Yáser Asprilla (Watford-ING), Deiver Machado (Lens-FRA) e Kevin Castaño (Krasnodar-RUS) são os jogadores que atuam no velho continente. Todos em times pequenos/médios.

Definitivamente, não foi isso que impediu o Brasil de vencer a Colômbia. E Dani Olmo e Nico Willimas são provas vivas de que jogar por uma equipe de menor expressão não impede ninguém de performar bem na seleção.

Olmo joga no RB Leipzig, equipe coadjuvante do futebol alemão. Williams defende o Athletic Bilbao, time coadjuvante do futebol espanhol. Que mal há nisso?

Enquanto o camisa 10 soma três gols e duas assistências pela Espanha na Euro — algumas vezes vindo do banco, o garoto prodígio do Bilbao acumula um tento, uma assistência e atuações impactantes.

Como pode uma seleção ter sucesso com jogadores de times médios como titular? Bom, basta olhar aos espanhóis.

Dani Olmo celebra classificação espanhola diante da França
Dani Olmo celebra classificação espanhola diante da França (Foto: Icon Sport)

Técnico de peso e com vasto currículo? Será mesmo?

Por fim, mas não menos importante, a Espanha desmascara a falácia de que para um técnico obter sucesso à frente de uma seleção é preciso ostentar currículo vasto, com títulos expressivos e experiência em grandes clubes.

Luis de la Fuente não tem nada disso e faz um excelente trabalho à frente de La Roja. Campeão da Liga das Nações 2022/23 e finalista da Eurocopa 2024, o treinador de 63 anos comandou quatro clubes ao longo da carreira — todos do futebol espanhol e nenhum gigante. São eles: Portugalete, Aurrerá, Athletic Bilbao e Alavés.

De 2013 a 2021, De la Fuente dirigiu todas as categorias da seleção espanhola — da sub-19 a sub-23. Em dezembro de 2022, a Real Federação Espanhola de Futebol o anunciou como novo treinador da equipe principal. Ele assumiu a vaga de Luis Enrique — demitido após a Copa do Mundo daquele ano.

Números de Luis de la Fuente à frente da Espanha

  • 20 jogos
  • 16 vitórias
  • 2 empates
  • 2 derrotas
  • 53 gols marcados
  • 14 gols sofridos

No futebol, contexto é tudo. Uma reformulação bem feita, com padrões de estilo de jogo e transições de trabalho bem definidos, fazem brilhar jogadores medianos e jovens sob o comando de treinadores inexperientes. CBF e Seleção não têm nada disso. Aí fica fácil criticar.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme Calvano

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.
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