Eliminatórias da Copa

Romário até vê Endrick como referência para Seleção — mas no futuro, não contra a Argentina

Endrick recebeu elogios de Romário às vésperas de seu primeiro clássico contra a Argentina, mas ainda não é visto pelo ídolo como referência

Tentando encerrar 2023 de forma positiva, retomar um pouco da confiança da torcida e não deixar que o ano seja mais de derrotas do que de vitórias, o Brasil entra em campo nesta terça-feira (21), às 21h30 (de Brasília), no Maracanã para enfrentar a Argentina pela sexta rodada das Eliminatórias para Copa do Mundo de 2026. Os últimos dois clássicos no principal templo do futebol brasileiro não terminaram bem para a seleção pentacampeã mundial, com o vice na decisão da Copa América de 2021 que tirou a Albiceleste da fila de 28 anos e uma derrota também por 1 a 0 em amistoso às vésperas da Copa do Mundo de 1998. A última vitória brasileira sobre os hermanos no Maracanã foi em 1989 pelo quadrangular final da Copa América e contou com uma participação fundamental de um lendário centroavante que não deixou de dar seus pitacos sobre o confronto de logo mais: Romário.

Autor do segundo gol do triunfo por 2 a 0 em 12 de julho de 1989 — o último da seleção brasileira contra a Argentina no Maracanã até hoje — o Baixinho falou sobre tudo e mais um pouco relacionado ao time comandado atualmente por Fernando Diniz em entrevista ao Sportv na noite de segunda-feira (20). As falas de maior repercussão foram sobre o futuro do ataque brasileiro, até pelo conhecimento de causa do quarto maior artilheiro da história do Brasil nas contas da Fifa, com 55 bolas na rede em 71 jogos. O destaque foi a opinião de Romário sobre Endrick, que recebeu a chancela do antigo camisa 11, mas não para o presente.

Nascido em 21 de julho de 2006, Endrick foi convocado para a seleção brasileira pela primeira vez no início de novembro. Aos 17 anos, fez sua estreia com a camisa canarinho na quinta-feira (16) na derrota para a Colômbia, entrando já na reta final do segundo tempo. Para Romário, ainda é cedo para o garoto do Palmeiras e futuramente do Real Madrid ser a referência do Brasil, por mais que tenha números assombrosos para a idade e gerar enorme expectativa.

— Minha referência sempre foi o Reinaldo (ídolo do Atlético-MG e jogador da seleção brasileira de 1975 até 1985). A forma que ele se colocava em campo, era extremamente inteligente e fazia jogadas muito difíceis para uns, mas para ele era normal. No jogo de amanhã não vai ter a referência. O Endrick é um bom jogador, tem grande futuro, sabe fazer gol, mas em um jogo importante desse e você vê um jogador como ele em campo, não vão ver como veem o Neymar. Ele tem todo um futuro, mas ainda é um garoto — afirmou o campeão mundial em 1994.

Aos 17 anos, Endrick pode disputar seu primeiro clássico contra a Argentina logo em sua segunda partida pela seleção brasileira (Foto: Joilson Marconne/CBF)

Apesar do elogio a Endrick, Romário tem outro preferido para o futuro do ataque do Brasil. Convocado por Ramon Menezes no início do ano e tendo feito sua estreia no revés contra o Marrocos, em março, Vitor Roque é visto pelo Baixinho como o mais completo para a posição de centroavante, que é motivo de debates quando o assunto é seleção brasileira há pelo menos nove anos.

— Acredito que o Vitor Roque é o mais completo. Lá atrás eu falava que o Gabigol seria o atacante ideal para a seleção brasileira. Hoje eu retiro aquilo que falei. Gosto do Pedro. É um cara inteligente, fazedor de gols e que se coloca bem na área. Não dá para fazer comparação com atacante de hoje com Ronaldo e Romário. Diniz tinha que escolher um ou dois atacantes e insistir nisso. Da forma que ele joga, se ficar trocando muito, fica difícil de pegar o jogo — opinou Romário.

— Eles (Endrick e Vitor Roque) têm capacidade e condição de sair do Palmeiras ou Athletico-PR para clubes como Barcelona e Real Madrid. Em relação a eles, não podemos pensar em “se”. Mas hoje eles estão aí e tenho certeza que podem se tornar grandes ídolos e podem fazer a diferença. Se me perguntar o que eu imagino na próxima Copa, imagino esses dois — completou.

O primeiro Brasil x Argentina dos craques

Sem Neymar e Vinícius Júnior, a tendência é que o ataque do Brasil seja formado por Raphinha, Gabriel Jesus, Rodrygo e Martinelli contra a Argentina. Ao menos foi assim que a seleção treinou na Granja Comary desde a derrota para a Colômbia. Com isso, Endrick iniciará novamente no banco de reservas. Caso Diniz opte por colocar o garoto no decorrer do clássico, comparações com as primeiras partidas de craques do passado diante da Albiceleste serão inevitáveis.

Em 1957, quem fez sua estreia pela seleção também aos 17 anos e justamente contra a Argentina foi um tal de Pelé, em julho daquele ano. Apesar da pouca idade, o Rei já dava indícios de realeza e marcou o único gol da equipe da casa na derrota por 2 a 1 pela Copa Rocca, no Maracanã. Três dias depois, ele marcaria novamente contra os hermanos na vitória por 2 a 0 no Pacaembu e que garantiria o título do torneio amistoso.

Dos quatro maiores artilheiros da história da seleção brasileira em jogos considerados oficiais, Pelé foi o único que balançou a rede em seu primeiro clássico com a Argentina. Goleador máximo do país com 79 gols, um a mais que o Rei, Neymar passou em branco no amistoso realizado em 17 de novembro de 2010 em Doha, no Catar. O atual camisa 10 do Al-Hilal tinha 18 anos, fazia sua segunda exibição com a camisa principal do Brasil e foi substituído no fim do segundo tempo, antes de Lionel Messi marcar o gol do triunfo argentino por 1 a 0 e que encerrou um tabu de cinco anos sem vencer o rival.

Neymar tinha 18 anos quando enfrentou a Argentina pela primeira vez e viu Lionel Messi marcar o gol da vitória da Argentina por 1 a 0 no fim do segundo tempo (Foto: Rafael Riberio/CBF)

Ronaldo também apareceu pouco em seu primeiro embate com a Argentina, mas curiosamente repetiu Pelé e fez sua estreia pela seleção aos 17 anos e contra a Albiceleste. Em um amistoso disputado no Arruda em março de 1994, o terceiro maior artilheiro do Brasil (62 gols) substituiu Bebeto e ficou em campo por 10 minutos na vitória por 2 a 0.

O triunfo foi o primeiro do Brasil sobre a grande rival desde aquele da Copa América de 1989 no Maracanã, citado anteriormente. Romário anotou o segundo gol da partida e seu primeiro naquela edição do torneio. O Baixinho iria marcar nos dois jogos seguintes, sendo responsável pelo gol do título sobre o Uruguai. Sua estreia contra a Argentina, no entanto, foi bem diferente. Um ano antes, em amistoso na Austrália, o quarto maior goleador da seleção (55 gols) pouco fez e acabou vendo do banco o fim do empate em 0 a 0.

Na época, Romário tinha 22 anos, a mesma idade que tinha Zico quando enfrentou a Argentina pela primeira vez. Hoje o quinto maior artilheiro do Brasil em partidas oficiais com 48 tentos, o Galinho de Quintino não sentiu a pressão do Monumental de Núñez e fez o segundo gol da vitória por 2 a 1 em fevereiro de 1976, pelo jogo de ida da Copa Rocca. Foi a segunda exibição e a segunda vez que o craque marcava pela amarelinha, já que dias antes ele havia balançado a rede do Uruguai no triunfo brasileiro pelo mesmo placar e válido pela Copa Rio Branco.

As opiniões de Romário sobre Diniz, seleção brasileira e clássico

Endrick e Vitor Roque não foram os únicos tópicos abordados por Romário na entrevista ao Sportv. O ex-jogador e atual senador falou sobre o que espera do clássico entre Brasil e Argentina nesta terça-feira. Apesar de ter colocado os hermanos como favoritos, ele acredita numa vitória brasileira.

— Se o jogo do Brasil entrar na teoria de que vai jogar atrás, eles vão passar por cima da gente. Tenho certeza que Diniz e os jogadores sabem do momento que o Brasil está vivendo. O time da Argentina já se conhece há muito tempo, é superior à seleção brasileira, mas, por outro lado, o Brasil tem que atacar a Argentina. O Messi é o jogador a ser marcado, é o pensamento e coração do time. Mas o Brasil tem que atacar a Argentina logo nos primeiros minutos. Não é deixar buraco, mas o Brasil joga em casa, no Maracanã e o Brasil precisa da vitória para dar um ânimo aos jogadores — afirmou.

— É a seleção brasileira, no Rio de Janeiro, contra a Argentina. Eles sabem a importância e o significado de uma vitória amanhã. Tudo isso vamos colocar dentro de um pacote e no final vai dar certo. Eles vão virar a chave. É difícil? Para caramba. Porque primeiro que eles têm um jogo bem parecido, os atuais campeões do mundo, tem um dos três maiores jogadores de todos os tempos e eles gostam desse jogo. Sempre gostaram e sempre vão gostar. São chatos para caramba. O jogo de amanhã não pode ser de esperar a Argentina. Temos que fazer antes — continuou.

Romário também falou sobre o técnico interino Fernando Diniz, que o abraçou durante a entrevista realizada no hotel em que a seleção brasileira está hospedada no Rio de Janeiro. Para o ex-atacante, o treinador campeão da Libertadores com o Fluminense é o cara certo para comandar o Brasil e deveria permanecer no cargo até a Copa do Mundo de 2026.

— Tenho uma relação muito boa com o presidente da CBF (Ednaldo Rodrigues). Nesse pouco tempo, acho que ele tem acertado mais do que errado. Mas claro que está longe do que queremos. Essa decisão de começar com o Diniz e ir para o Ancelotti, sou contrário. Gostaria muito de ver o Diniz na Copa do Mundo. Mas ao mesmo tempo vejo que o futebol é resultado. Diniz é inteligente para saber que se não tiver resultado, capaz de sair antes da chegada do Ancelotti. Mas vejo ele com capacidade de comandar a Seleção — declarou.

Romário ainda disse que Ramon Menezes ter comandado a seleção brasileira nos três primeiros compromissos de 2023 foi um erro e pediu tempo para o Brasil jogar de uma forma semelhante ao Fluminense de Diniz.

— Isso (Ramon Menezes) foi um erro do Ednaldo. Ele poderia ter tomado essa decisão lá atrás. Isso não significa que Diniz ganharia ou perderia. Eu acredito muito no Diniz e vejo como um dos grandes treinadores que temos. Os resultados não têm sido os que eu esperava, mas temos que ter paciência. Diniz, como um cara inteligente, não vai deixar isso chegar no limite. Acredito que ele dará uma reviravolta no time. Se ganhar amanhã levanta o astral — destacou.

— O Brasil não vai jogar igual ao Fluminense hoje. Mas tem condição. Esse time do Fluminense teve um ano e oito meses para chegar nesse nível. Não há esse tempo na Seleção. Mas como são jogadores de alto nível e inteligentes, isso é possível. É difícil? Sim. Mas é possível — complementou o Baixinho.

Mesmo lesionado e fora do grupo que enfrentará a Argentina no Maracanã, Neymar foi inevitavelmente um assunto abordado por Romário. Assim como já havia dito em um passado recente, o camisa 11 do tetracampeonato mundial nos Estados Unidos afirmou novamente que o Brasil precisa jogar por Neymar, que terá 34 anos na próxima Copa.

— A Argentina foi campeã ano passado pelo simples fato de que todos os jogadores resolveram jogar para o Messi. Nas outras Copas isso não aconteceu. O Brasil tem obrigação de fazer com o Neymar já a partir de agora. O Diniz falou que o Neymar é acima da média. Ele é o melhor treinador que temos no Brasil e tenho certeza absoluta que vai trabalhar esse time para jogar pelo Neymar porque o Brasil depende e precisa dele ainda — pontuou.

Com 79 gols em 128 jogos, Neymar superou Pelé e se tornou o maior artilheiro da seleção brasileira nas contas da Fifa. Romário não esconde sua admiração pelo maior craque do país nos últimos anos, mas disse que nem mesmo os números impressionantes colocam o camisa 10 em sua prateleira. Afinal, são duas Copas das Confederações, duas Copas Américas e uma Copa do Mundo vencidas pelo Baixinho contra uma Copa das Confederações levantada pelo jogador do Al-Hilal.

— Os números são impressionantes. Ele é merecedor e um dos melhores que vi jogar com a Seleção. Mas quando fala de alto nível e patamar bem acima, ainda falta um pouco para o Neymar. Mas ele ainda tem condição de chegar nesse patamar — concluiu Romário.

Foto de Felipe Novis

Felipe NovisRedator

Felipe Novis nasceu em São Paulo (SP) e cursa jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Antes de escrever para a Trivela, passou pela Gazeta Esportiva.
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