Brasil

Entrevista de Romário ao Players’ Tribune reforça a lenda em torno do baixinho

Craque nos gramados, Romário contou casos no Vasco, PSV e Barcelona, além de curiosidades da sua vida

Romário é um dos grandes jogadores da história do futebol brasileiro. Tornou-se um finalizador com uma precisão e categoria que poucos conseguiram na história. Teve uma carreira marcante por clubes brasileiros e na Europa, além, claro, da seleção brasileira. Há toda uma mitologia em volta de Romário, que ele ajuda a propagar em sua entrevista ao Players’ Tribune, “Eu Sou Romário”, divulgada nesta sexta-feira.

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Dunga no Vasco: “Eu corro para ele”

No seu início de carreira, ainda no Vasco, Romário contou um episódio que mostrou sua personalidade. O então jovem atacante já era artilheiro, ainda que corresse muito pelas pontas. Teve em Dunga um parceiro fiel, algo que se repetiria na Copa do Mundo de 1994. Mas ali, o episódio serviu como afirmação.

“Quando eu jogava no Vasco, e o time não estava bem, o Tita e o Roberto Dinamite decidiram que eu, o mais novo, tinha que correr para eles. Como eram mais experientes, eles pensaram que podiam fazer o que quisessem. Mas eles não estavam marcando gols! Então eu disse: ‘Escuta aqui, eu corro para o time e está muito bom. É só olhar quem é o artilheiro da equipe’.  Acho que eles ainda estavam resmungando quando o Dunga pediu a palavra: ‘Oh, se essa indireta é para o Romário, pode cobrar de mim, que a partir de hoje eu vou correr pra ele. Deixa ele lá fazendo os gols’. Foi exatamente isso o que aconteceu. Ele era um cara inteligente, o Dunga. Diferente de outros….”

Gratidão ao PSV: “Passei quase cinco anos lá e esse período mudou minha vida”

Romário passou cinco anos no PSV, onde se tornou ídolo

A primeira experiência de Romário na Europa foi o PSV. O atacante saiu do Brasil em 1988, depois de brilhar na Olimpíada de Seul pela seleção brasileira – o time foi vice-campeão. Sua passagem em Eindhoven seria marcante. Por lá, Romário não era o camisa 11, era o 9. Jogou 148 partidas pelo clube holandês e marcou 128 gols. Marcou o seu nome na história do clube como um dos maiores de todos os tempos. É idolatrado até hoje – a ponto de ter sua figura pintada no estádio do clube, ao lado do compatriota Ronaldo. A história foi um sucesso, mas não quer dizer que tenha sido moleza. Mesmo para um craque como Romário.

“Foi difícil pra caralho na Holanda. Quando me transferi para o PSV, eu tinha 22 anos e nunca tinha morado fora do Rio. Eu, carioca da gema, acostumado a ir à praia de Ramos, Ilha do Governador, Copacabana, Barra da Tijuca… Jogava futebol na rua. De repente, eu estava num lugar escuro e gelado. Cara, chegou a –17 graus uma vez. Dezessete! Como alguém ia me criticar por não treinar? Uma vez, passei três dias sem sair de casa. Os caras ficaram preocupados comigo. Eles bateram na minha porta e eu não atendi. Tava hibernando, parceiro”, contou.

“Mas valeu a pena, porque a cada um real que ganhava no Brasil, eu recebia 4.000 lá. A diferença era essa. Sempre que eu parava de sentir os dedos dos pés de tanto frio, eu me lembrava de quando estava batendo lajes com meu pai para me tornar um jogador de futebol. Eu ia desistir do meu sonho só porque estava frio?? E foi assim que eu superei. Acabei comprando uma casa pra minha família na Freguesia, em Jacarepaguá, com carro, motorista e tudo. Para mim, foi uma vitória do caralho. Sempre serei grato ao PSV. É preciso deixar isso muito claro. Passei quase cinco anos lá e esse período mudou minha vida. Mas eu tive que sair. Barcelona é Barcelona, né?”

A ida para o Barcelona: “Cruyff foi meu melhor treinador”

Romário – 8 de janeiro de 1994 – No Camp Nou, o Barcelona goleou por 5 a 0 com um show do baixinho, em sua maior atuação com a camisa catalã. Romário abriu o placar e ainda fez outros dois gols, com Koeman e Ivan Iglesias anotando os outros.

A chegada de Romário ao Barcelona é algo marcante. Custou o equivalente na época a € 8 milhões (com a correção da inflação, algo em torno de € 13 milhões), em 1993. Sua passagem pela Catalunha deixaria grandes marcas também. Em números, foram 65 jogos e 39 gols, contando apenas os jogos oficiais.

Só que Romário deixou algo muito maior do que isso por lá. Conquistou o Campeonato Espanhol de 1993/94, com 30 gols. Mais do que os títulos, Romário conquistou os corações catalães. Foi como jogador do Barcelona que ele foi para a Copa do Mundo de 1994, conquistou o título mundial como destaque e foi eleito o melhor do mundo pela Fifa em 1994. Há muitas lendas nessa época de Barcelona, muitas envolvendo Johan Cruyff, técnico do clube na época e uma lenda do futebol mundial. A relação com o treinador foi assunto na entrevista.

“Cruyff se tornou um dos meus maiores amigos no futebol. Ele foi meu melhor treinador, sem dúvida. Quando fui para o Barça, eu queria a 11, minha camisa preferida. Mas o Cruyff me deu a 10. Eu disse: ‘Mister, é uma grande honra botar a 10, mas eu prefiro a 11’. Todo mundo quer a 10, certo? E o Cruyff disse ‘não’. Eu estava tipo: ‘Porra, meu irmão, eu estou dando a 10! Por que não?’. Aí ele explicou: ‘Porque, no meu time, o melhor sempre joga com a 10’. O cara manda uma dessa pra tu… Tu vai falar o quê? Eu tinha que ficar com a 10 pra sempre”, contou.

“Se quisesse, o cara ainda poderia ter jogado pra gente. Porque ele conseguia fazer tudo que pedia aos jogadores. Ninguém me contou, não. Eu vi com meus próprios olhos. ‘Pô, Mister, tá de sacanagem? Isso aqui não dá pra fazer, impossível’. Aí o Cruyff dizia: ‘Ah, não dá?’. Pegava a bola, ia lá e fazia, entendeu? Ele era o cara. Na cabeça dele, tudo era fácil, tudo era simples de fazer. Mas ele entendia até que ponto cada um podia chegar. Tu pode praticar a vida toda, mas, se tu não tiver o dom, vai ser muito mais difícil”.

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Copa 1994: “Estava convencido de que jogaria o torneio da minha vida”

Romário foi o Rei da Copa 1994, com cinco gols e atuação de melhor do mundo (AP)

O grande feito de Romário na carreira, entre os muitos que conseguiu, foi a Copa do Mundo de 1994. Ele ficou muito perto de não estar nos Estados Unidos, no time dirigido por Carlos Alberto Parreira. Depois de ter se desentendido com a comissão técnica, Romário ficou afastado das Eliminatórias para a Copa, que naquela época eram concentradas em um mesmo período, quase como uma Copa América. Só que nos jogos finais, com a corda no pescoço, Parreira convocou Romário. E o resto, bom, o resto é história. E uma história que contamos aqui.

“Eu jamais teria sido convocado para a Copa do Mundo de 1994. Essa é a verdade. O Brasil deveria ter se classificado com facilidade, e, como eu tinha me desentendido com a comissão técnica, eles nunca teriam me aceitado. Mas, naquele jogo decisivo contra o Uruguai, tínhamos que vencer ou empatar para classificar. Os treinadores sabiam que, se perdessem, praticamente teriam que fugir do país. Então, o que eles fizeram? Tiveram que me chamar de volta”, contou Romário.

“E eu não senti a pressão. Eu tava lá pra me divertir, sabe? Pra mostrar para aqueles filhos da p*** da comissão técnica que eles deveriam ter me convocado bem antes. ‘Pô, quando acabar, eu vou esculachar esses m*****’. Era mais ou menos isso. Pode perguntar a qualquer pessoa que esteve no Maracanã e ela dirá que talvez tenha sido o jogo mais foda que um jogador de futebol já fez, principalmente com a camisa da seleção. Em uma escala de 1 a 10, eu levei 11”.

“Fiz uma promessa ao Ricardo Rocha. Duas canetas, dois chapéus e dois gols. Na hora que acabou o primeiro tempo, alguém no banco gritou: ‘E os dois gols?’. Eu falei: ‘Calma, cara. Tudo tem a sua hora’”.

“Sempre disse que ganharíamos a Copa do Mundo e que, se a gente não vencesse, a culpa seria minha. Eu sabia que o nosso time era bom, confiava no grupo e estava convencido de que jogaria o torneio da minha vida. É basicamente isso”.

“A discussão sobre a premiação? Eu fiz apenas o que era melhor para todos. Em 1990, tivemos problemas envolvendo a divisão do dinheiro de patrocinador, o que acabou atrapalhando nosso foco na Copa. Já em 1994, queriam dar a algumas pessoas mais do que a outras. Para mim, isso não estava certo. Então, propus que todos recebessem o mesmo valor — e todos significam todos. Romário, o artilheiro, receberia igual ao cozinheiro (nada contra o cozinheiro, claro, só pra exemplificar). Tivemos uma reunião, e a maioria dos jogadores votou a favor da minha proposta. De repente, todos sentimos que estávamos no mesmo barco. A partir desse momento, a seleção ficou mais forte”.

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Volta ao Flamengo em 1995: “Sei que minha decisão pareceu estranha para os outros, mas, para mim, foi o melhor que poderia acontecer”

Um dos momentos marcantes da carreira de Romário é quando ele decide voltar ao Brasil, em 1995, prestes a completar 29 anos. Muita gente não entendeu a escolha do baixinho: deixar o Barcelona, na época um clube que disputava os maiores títulos na Europa, para voltar ao Brasil e defender o Flamengo, que quis levá-lo à Gávea. Para Romário, a escolha não era nem financeira, nem exatamente esportiva. Era uma escolha de vida.

“Prefiro ser feliz do que rico. Ou mais rico, no meu caso. Quando voltei para o Brasil depois da Copa do Mundo, eu não tinha em mente o real poder do que era ser campeão do mundo… Sentir isso… O calor do povo brasileiro, pé na areia, uma diversão do caralho… Fazia tanto tempo que estava longe do Rio que me esqueci do quanto eu gostava daquilo. Por isso retornei para a Espanha com duas semanas de atraso”.

“Quando o Flamengo quis me contratar, no fim do ano, tive que me perguntar: O que eu realmente quero? Financeiramente não era a melhor proposta, apesar de terem me oferecido o maior contrato já visto no Brasil. Eu tinha 29 anos, poderia ganhar bem mais se assinasse por mais três temporadas com o Barcelona. Eu era a superestrela do Dream Team. Se tu coloca o dinheiro na balança nessas horas, nem tem como comparar”.

“Mas no Rio eu ficaria perto dos meus pais, do meu irmão, dos meus filhos, dos meus amigos, minha praia, meu funk, meu hip-hop, meu sol, minha Barra da Tijuca… Sei que minha decisão pareceu estranha para os outros, mas, para mim, foi o melhor que poderia acontecer”.

Em busca dos 1000 gols: “Depois dos 35 anos, parei de me preocupar em jogar bem. Eu só queria chegar aos 1.000 gols”

Romário, mil gols pelo Vasco (Foto: AP)

Romário aos mil gols na carreira, ao menos em suas contas – que são bastante controversas, como sempre acontece nesses casos, já que considera, por exemplo, os 77 gols marcados ainda na base. Se contarmos só os gols oficiais, descontando amistosos, jogos festivos e partidas ainda na base, o número já é impressionante: 768 gols. Só pelo Vasco foram 326 gols, o clube pelo qual mais balançou as redes, seguido por Flamengo (204 gols) e PSV (165 gols). Pela seleção brasileira, foram 71 gols, além de 53 pelo Barcelona, onde também marcou época.

“Depois dos 35 anos, parei de me preocupar em jogar bem. Eu só queria chegar aos 1.000 gols. As pessoas dizem que eu não treinava. Repito: eu treinava, mas de uma maneira diferente. Outros jogadores podem dar 70 voltas no campo ou correr sete quilômetros. Eu dava 70 chutes a gol. Fazia um treinamento específico para o que eu precisava fazer em campo. Meu negócio era treinar finalização para aproveitar todas as oportunidades que tivesse. Ninguém se torna o melhor sem praticar, nem mesmo eu. Pegue qualquer gênio natural do esporte… Posso garantir que eles praticaram muito”.

Romário é para sempre um dos maiores de todos os tempos. Viveu duas frustrações, que também foram da torcida, com seu corte na Copa de 1998 – quando formaria uma dupla de ataque espetacular com Ronaldo – e também com sua ausência na Olimpíada de 2000, apesar de muitos pedidos. Ainda assim, conquistou a Copa de 1994 como o grande craque do time, conquistou a torcida brasileira com a camisa da seleção e também de clubes, especialmente de Vasco e Flamengo. Deixou para sempre um legado em campo que será lembrado. Depois da carreira, virou político, Senador da República e tem uma atuação que é controversa como a sua conta de mil gols. Mas isso é uma outra história…

Você pode ler o texto completo “Eu sou Romário” no Players’ Tribune aqui.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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