Brasil

O adeus a Rubens Minelli, um vanguardista por excelência, um mestre do futebol brasileiro

Rubens Minelli conquistou títulos grandiosos em múltiplas equipes do Brasil e ofereceu inovações que iniciaram uma nova era sobretudo nos anos 1970

O futebol é feito de sucessivas transformações. Vanguardistas são aqueles que conseguem antever os caminhos do esporte e se colocar à frente dos demais, em busca de grandes conquistas. Neste sentido, Rubens Minelli foi um treinador visionário como raríssimos na história do futebol brasileiro, sul-americano e mundial. Se tantas vezes Rinus Michels costuma representar um “antes e depois” por aquilo que realizou no Ajax e na seleção da Holanda, Minelli tem um papel similar dentro do Brasil. É uma espécie de “pai do Futebol Total” à brasileira, por instituir tendências e garantir inovações. Graças a isso, também se tornou um multicampeão. Possui quatro títulos nacionais em seu currículo, sendo um tricampeonato consecutivo do Brasileirão entre 1975 e 1977 – e com dois clubes diferentes.

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Minelli, afinal, era completo como poucos em seu trabalho como treinador. Sua capacidade tática costuma ser a mais reconhecida. Montava times coesos e ao mesmo tempo dinâmicos, que garantiam títulos de forma avassaladora. Gostava de um estilo de jogo mais direto, fulminante, mas extremamente funcional. Para que os mecanismos funcionassem, Minelli também enfatizava o trabalho físico de seus atletas. A pressão em campo se dava a partir da potência dos indivíduos na ponta dos cascos. O comandante mantinha um trato próximo com seus comandados, claro em suas instruções e sempre muito cordial. E ainda inovava pela maneira como observava os oponentes, bem como transmitia seus conhecimentos com as tecnologias da época.

Por mais de 30 anos, Rubens Minelli se manteve como um dos melhores treinadores do Brasil. Sua lista de grandes conquistas começa no Palmeiras, com o qual faturou o Robertão e iniciou uma nova Academia. Virou unanimidade no Internacional, bicampeão do Brasileirão. E estava num momento tão superior aos demais que conquistou o tri consecutivo, assim que foi para o São Paulo. Também comemorou estaduais no Grêmio e no Paraná Clube. Era um vanguardista por natureza, que ainda teve experiências no exterior e passagens como dirigente. Se falta apenas a presença da Seleção em seu histórico, talvez seja o melhor treinador que a Canarinho nunca teve.

Nesta quinta-feira, Rubens Minelli faleceu aos 94 anos. Estava internado durante as últimas semanas, mas não resistiu a uma infecção. Deixa uma lacuna imensa no futebol nacional. Ao longo das últimas décadas, “Seu Rubens” continuou tratado com enorme reverência – pelos clubes onde trabalhou, pelas torcidas que o agradeciam e por qualquer um do meio. Entre os técnicos, comumente acabava tratado como um professor. É assim que precisa ser recordado: como alguém que ensinou e também marcou um “antes e depois” ao futebol de clubes no país. Escreveu a história não apenas por si. Vários de seus pupilos também colecionaram taças – de Muricy Ramalho a Paulo César Carpegiani, de Emerson Leão a Renato Gaúcho.

Abaixo, resgatamos um texto de janeiro de 2011, quando a antiga equipe do site elegeu os 25 maiores técnicos da história do futebol. Minelli merecia ter seu lugar cativo.

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(Bruno Castilho / EC Taubaté)

Rubens Minelli: completo à beira do campo

Por Leandro Stein

Alguns treinadores se gabam de seus conhecimentos táticos. Outros tantos, da forma como conduzem o grupo de jogadores. Mas poucos são aqueles que podem ser chamados de completos. Rubens Minelli era um deles. Considerado o primeiro tricampeão do Campeonato Brasileiro (na contagem a partir de 1971, antes da revisão dos títulos nacionais), o paulista aliava qualidades diversas em seu trabalho. Era impecável nos cuidados com a parte física de seus jogadores e sabia como tratá-los nas concentrações. Ainda maior era a sua capacidade de entender o jogo, antevendo situações e criando equipes ao mesmo tempo coesas e funcionais.

Segundo o próprio Minelli, seus times tinham liberdade para o que bem entendessem com a bola nos pés, mas precisavam seguir as ordens do treinador sem ela. Assim, unia disposição tática e técnica, elementos suficientes para se constituir um campeão. Foi assim que saiu vitorioso em Palmeiras, São Paulo e, sobretudo, no Internacional.

As inovações propostas por Minelli ao futebol brasileiro não se limitaram às formas de trabalho. Seus métodos de lidar com os atletas e de estudar o esporte também anteciparam uma nova era. A principal estratégia para entender os adversários era por meio de fotografias, com as quais orientava os seus jogadores. Além disso, foi o primeiro técnico brasileiro a utilizar o videocassete. Não à toa, era sempre reconhecido pela organização de seus comandados em campo.

Dos vestiários à academia

Rubens Minelli nasceu no dia 19 de dezembro de 1928, na cidade de São Paulo. Iniciou a trajetória no futebol como jogador profissional, mas sem grandes sucessos em sua carreira como atleta. O atacante fez suas primeiras aparições defendendo clubes da capital, como Ypiranga e Nacional, chegando a atuar também por Palmeiras e São Paulo. Em 1954, teve sua grande conquista como futebolista no Taubaté, ao faturar o Campeonato Paulista da Segunda Divisão. O ponta esquerda se transferiu ao São Bento na temporada seguinte. No entanto, foi obrigado a abandonar a carreira logo aos 27 anos, após sofrer grave fratura na perna.

Sem mais opções nos gramados, Minelli se formou em Ciências Econômicas, faculdade que cursava enquanto atuava em Sorocaba. Com o diploma, passou em um concurso e começou trabalhar nos Correios. Sua vida, porém, continuava diretamente ligada ao futebol. Não demorou muito para que iniciasse a caminhada como treinador e seguisse para as divisões de base do Palmeiras em 1959, conciliando ambos os empregos.

Ainda ajudando a desenvolver os garotos alviverdes, Rubens Minelli recebeu o primeiro convite de uma equipe profissional. Após a demissão de João Avelino, o América de Rio Preto foi buscá-lo na capital. Em São José do Rio Preto, foi feliz logo nas primeiras semanas. Estreou em março de 1963 e, cerca de um mês depois, já conquistava o título na divisão de acesso do Campeonato Paulista.

Ao todo, foram dois anos e sete meses na casamata do América. Levado pelo Sport em 1966, acabou vice-campeão estadual durante a estadia em Recife. Depois, retornaria ao interior de São Paulo, comandando Francana, Botafogo e Guarani, até ter o seu nome reconhecido na capital.

Inaugurando uma nova Academia

O primeiro grande desafio em um grande clube de São Paulo foi, na verdade, um recomeço na antiga casa. Seis anos depois de deixar as divisões inferiores, Minelli estreava no banco de reservas da equipe profissional do Palmeiras. Um período difícil, no qual os palestrinos tinham que conviver com o fim de uma era de glórias nos anos 1960 e as consequentes incertezas vindouras.

O técnico, contudo, soube recriar, a partir dos remanescentes daquela geração anterior, um novo esquadrão. Tendo como base craques no nível de Ademir da Guia, Dudu e César Maluco, montou a chamada Segunda Academia. Já sem Valdir Joaquim de Morais, Djalma Santos, Valdemar Carabina ou Julinho Botelho, contou com a ascensão de estrelas como Luís Pereira, Emerson Leão e Eurico para acertar o time. Teria uma nova potência nacional em suas mãos.

Depois de um começo sofrível, o Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1969 serviu para, enfim, gravar o nome de Rubens Minelli na história do Palmeiras. Depois de passar em jejum nas seis primeiras partidas, os alviverdes ainda alcançaram a classificação para o quadrangular final. E, em um grupo equilibradíssimo, o time só conseguiu prevalecer graças ao saldo de gols. Na última rodada, venceu o Botafogo por 3 a 1 e, após o apito final, precisou torcer por um resultado favorável na partida entre Corinthians e Cruzeiro para garantir o título. Aconteceu, com seu primeiro caneco nacional.

Além do Robertão, Minelli faturou o Torneio Ramón Carranza e o Troféu Cidade de Barcelona em 1969, batendo, respectivamente, Real Madrid e Barcelona. Permaneceu no Palestra até o começo dos anos 1970, deixando encaminhado o grupo que conquistaria pouco tempo depois o Campeonato Brasileiro por dois anos consecutivos – já sob as ordens de Oswaldo Brandão, que assumiu os palestrinos a partir de 1971, levando o bicampeonato nacional em 1972 e 1973. Minelli ficou mais um tempo em São Paulo, no comando da Portuguesa, antes de acertar o retorno ao interior, agora contratado pelo Rio Preto.

Contra a vontade, o início de uma saga

Treinando o rival do América, Minelli emplacou o segundo título em São José do Rio Preto. Conquistou o Torneio de Seleções da Primeira Divisão de 1973, espécie de seletiva para o Campeonato Paulista. E apesar da intenção de continuar por mais tempo na cidade, teve que se mudar logo. O presidente do Internacional foi buscá-lo em casa. O treinador pediu um salário alto para que desistissem do negócio e ele continuasse no Rio Preto, mas a vontade dos colorados era superior a qualquer quantia em dinheiro. Minelli viu sua proposta ser coberta pelo Inter e aceitou rumar para Porto Alegre.

O começo da jornada no Beira-Rio deu-se nos últimos dias de 1973. Hegemônico no Rio Grande do Sul, o Inter também frequentou com assiduidade o topo dos primeiros Campeonatos Brasileiros, mas sem nunca ficar com a taça. Minelli substituía Dino Sani, que tinha formado um elenco sólido entre os colorados. Das categorias inferiores, por exemplo, havia elevado Paulo Roberto Falcão, que começava a despontar no meio-campo. Outra cria da casa era Paulo César Carpegiani, que servia como uma referência técnica. Além da boa base, o novo treinador recebia os valiosos reforços do goleiro Manga e do ponta-esquerda Lula.

Já de início, Minelli começou a incutir uma nova filosofia no Internacional. Em vez do tradicional futebol defensivo, que prezava mais por não tomar gols a fazê-los, a prioridade agora era a imposição. Bem preparada fisicamente, a equipe saia para o jogo e pressionava a partir do campo adversário. Massacrando cada um dos rivais, conquistou o Gauchão de 1974 impecavelmente. Teve 100% de aproveitamento, com 18 vitórias em 18 partidas. Além disso, se o ataque anotou 43 gols, a defesa sofreu míseros dois.

Enfim, o Brasileirão

Na sequência do ano, o Inter mais uma vez deixou escapar o tão almejado título nacional. Caiu na penúltima fase do Campeonato Brasileiro, encerrando a campanha na quarta posição. Por sua vez, o time titular recebia suas últimas peças. Caçapava, que atuava na base, foi integrado de forma emergencial entre os profissionais e se firmou no time. Já o veterano Flávio Minuano era visto com desconfiança no ataque, mas foi dele o gol que deu o sétimo título gaúcho consecutivo, sobre o Grêmio, em 1975.

No Campeonato Brasileiro do mesmo ano os colorados finalmente chegaram ao topo. Foram trinta jogos disputados ao longo de cinco fases em 1975. Dentre as batalhas mais importantes, a vitória por 2 a 0 sobre o Fluminense nas semifinais, deixando pelo caminho a chamada Máquina Tricolor. O título, decidido contra um fortíssimo Cruzeiro, consagrou o zagueiro Figueroa, que marcou o único gol da partida em uma jogada treinada com insistência por Minelli. A lenda se erigia ao redor do Beira-Rio, e com Minelli como seu grande mentor.

O prelúdio do bicampeonato nacional veio com mais um estadual, em 1976, desta vez decidido pela mais nova arma ofensiva: o centroavante Dario, o Dadá Maravilha. Mais atrás, a inovação chegava com Marinho Peres, de grande valia tática após período no Barcelona de Rinus Michels. Até mesmo a linha de impedimento foi implementada na dinâmica equipe do Inter. No Brasileirão, os colorados foram ainda mais superiores. Em 23 partidas, venceram 19 e atingiram o aproveitamento de 84% dos pontos disputados – o melhor de um campeão nacional. Pelo caminho ficaram o semifinalista Atlético Mineiro, com direito a um antológico gol de Falcão na classificação, além do vice Corinthians. O segundo triunfo de Minelli veio com gols de Dadá Maravilha e Valdomiro.

O estilo de jogo aplicado ao Inter de Minelli era fundamentado na obediência tática de seus jogadores. A partir da disciplina de seus atletas é que a equipe aplicava um ritmo tão intenso. Atacar com força total e defender diminuindo ao máximo o espaço do time adversário eram os princípios em campo. Tal superioridade, entretanto, também resultava de um alto padrão físico exigido por Minelli. A qualidade técnica se combinava ao vigor. Gilberto Tim, o preparador colorado, tinha um papel fundamental na manutenção da força e da resistência dos jogadores.

Em campo, mais que o 4-3-3 costumeiro na época, o time se segmentava. Era um 1-3-1-2-3, como definido pelo próprio Minelli em entrevista ao jornalista Mauro Beting em seu blog. Na defesa, Marinho Peres comandava a linha de impedimento e era o responsável pela sobra, enquanto a linha a sua frente defrontava o ataque adversário. A grande inovação, o meio-campo com dois volantes, era muito bem composto por Falcão, Caçapava e Carpegiani (ou Batista). Mais à frente, dois pontas ágeis para abastecer um centroavante goleador – Flávio em 1975 ou Dario em 1976.

“Fiquei três anos montando uma equipe, apurando a condição técnica e tática. Num time montado, qualquer reforço dá certo. Meu grande mérito foi a equipe ter uma grande obediência tática. Além disso, era um grupo raro, de estrelas sem vaidades. Eles compreendiam o que eu queria taticamente e conseguiam desenvolver esse futebol dentro de campo. O meu conceito sempre foi que o jogador tem liberdade para fazer o que quer quando tem a bola. Mas, sem a bola, vão jogar como eu quero”, afirmou Minelli, em 2008.

O tricampeonato nacional

Depois de se tornar referência ao encabeçar o Internacional, Minelli teria que se reinventar em seu novo clube. Aceitou uma proposta do São Paulo em 1977 e chegou com a missão de encontrar o encaixe em um time que, apesar de ter boas peças, não alcançava tão bons resultados. No ano anterior havia sido o sétimo no Paulistão, além de não passar de uma medíocre 28ª posição no Campeonato Brasileiro.

A partir de jogadores como Waldir Peres, Zé Sérgio e Serginho Chulapa, o treinador contava com certa dose de talento. Mas, assim como no Inter, o ponto forte era o meio-campo: integrado perfeitamente ao sistema defensivo graças aos dois volantes, mas bem menos técnico do que aquele visto entre os colorados. Chicão e Teodoro preferiam a pegada ao refino, com a qualidade sob o encargo do uruguaio Dario Pereyra.

Com este time, apesar de não encantar, Minelli entrava bastante competitivo para o Brasileirão de 1977. Passou pelas duas primeiras fases sem alcançar a ponta de seu grupo, enquanto precisou liderar a terceira etapa para chegar às semifinais, onde passou pelo Operário-MS. Já na decisão o treinador travou o poderoso Atlético Mineiro, que encantava até então sob a batuta de Reinaldo, ausente na final. Segurando de todas as formas o placar por 0 a 0, a vitória veio nos pênaltis, com Bezerra fechando a contagem e Waldir Peres infernizando os cobradores. Era o primeiro técnico tricampeão do Brasileirão (algo revisto só depois da unificação da Taça Brasil), um feito para afirmar ainda mais a funcionalidade de seus conhecimentos e de seus métodos.

Experiências diversas na década de 1980

Atraído pelos royalties do petróleo, Rubens Minelli iniciou uma jornada de dois anos no futebol saudita, dirigindo o Al-Hilal. Chegou para substituir Zagallo na casamata dos alviazuis e deixou suas marcas numa liga que começava a se abrir para estrangeiros. Em companhia do já veterano Rivellino, seu craque em campo, também fez história no país, campeão da liga nacional em 1979, bem como da copa local no ano seguinte.

Sua volta ao Brasil aconteceu em 1982, pela segunda vez convidado a treinar o Palmeiras. Não teve uma estadia tão notável. Em período sem tantas vitórias, ainda esteve no Atlético Mineiro até chegar ao Grêmio. E, ironicamente, foi aos torcedores que mais impôs sofrimento nos anos 1970 que deu o primeiro título em seu retorno ao Brasil. Com um 2 a 1 sobre o Inter, os tricolores festejaram o Campeonato Gaúcho de 1985. Aquele elenco gremista era repleto de futuros treinadores, incluindo Renato Gaúcho, Caio Júnior, Paulo Bonamigo e até mesmo o argentino Alejandro Sabella.

Depois, Rubens Minelli trabalhou no Corinthians, além de ser chamado novamente por Palmeiras e Grêmio. Também estaria presente num outro momento memorável do futebol gaúcho e dos campeonatos nacionais, desta vez do lado perdedor, com a derrota tricolor no Gre-Nal do Século. Posteriormente, descartou convites de grandes clubes para iniciar uma equipe praticamente do zero. Com a fusão entre Pinheiros e Colorado, Minelli foi indicado para conduzir a trajetória do recém-criado Paraná Clube, desafio este prontamente aceito.

A primeira estadia do comandante em Curitiba aconteceu nos primeiros dias da existência do Tricolor. Coube a Minelli realizar a junção entre os elencos dos dois clubes finados, bem como dar uma cara ao novo time. No primeiro estadual disputado, foram apenas duas derrotas e o terceiro lugar na classificação final. Já pelo Brasileirão, a equipe alcançou logo no primeiro ano o acesso rumo à Série B.

Em 1994 Minelli voltou, substituindo Levir Culpi no banco de reservas do então campeão estadual, e faturou o bi. Disputando um quadrangular final, o gol do título só veio as 44 minutos do segundo tempo na última rodada, em jogo ante o Londrina. Três anos depois, o técnico se envolveu em certa polêmica ao acertar com o rival Coritiba antes de o Campeonato Paranaense terminar. Profissional como sempre, conquistou o quinto título consecutivo dos paranistas antes de seguir ao Couto Pereira.

Novas empreitadas no futebol

O período no Coxa foi o suspiro final da vitoriosa carreira de Rubens Minelli como treinador. Ao longo da década de 1990, além de Paraná e Coritiba, chegou a dirigir também Santos, XV de Piracicaba, Ferroviária e Rio Branco-SP. Finalizados os seus serviços na casamata, ele passou a assumir cargos administrativos em clubes, transmitindo as experiências adquiridas ao longo dos cerca de 50 anos de trato diário com o futebol.

Assim, fez parte das diretorias de Athletico Paranaense, São Paulo e Paraná. Sempre havia, porém, um empecilho político que atrapalhava o desenvolvimento de suas ideias. A última tentativa de Minelli foi no Avaí, em 2002, quando era superintendente de futebol. Sem recursos para implantar as mudanças que achava necessárias, abandonou a posição em poucos meses.

Rubens Minelli não voltou mais a trabalhar diretamente com o futebol desde a saída do Avaí. Sua única relação profissional com o esporte passou a ser em trabalhos como comentarista. Já no cotidiano, o ex-treinador se manteve como um confesso compulsivo pelas partidas televisionadas. Segundo ele mesmo, nem partidas da quinta divisão passavam batidas.

E diante de tantas vitórias, há apenas uma lacuna na carreira de Minelli: o fato de nunca ter treinado a seleção brasileira. Passou perto por duas vezes, mas nunca recebeu uma chance. Na primeira delas, em 1977, quando ainda estava no São Paulo, era o mais cotado após a demissão de Oswaldo Brandão. Mas Claudio Coutinho, do Flamengo, foi o escolhido pelo presidente da CBD, Heleno Nunes. Segundo Minelli, durante a Copa de 1978, enquanto trabalhava como comentarista da Rede Globo, o próprio Nunes veio pedir que desse conselhos a Coutinho, a fim de melhorar a seleção.

A nova decepção veio em 1983, época da saída de Telê Santana. Então no Palmeiras, Minelli novamente figurava no topo das cotações, mas acabou preterido pelo ainda jovem Carlos Alberto Parreira. Preferindo exercer seu trabalho a constituir redes de influência, não foi lembrado outras vezes. Obviamente, a Seleção fez falta ao seu currículo. Mas muito mais sentida foi a perda sofrida pela equipe nacional, que não pôde contar com um técnico que, muito mais do que visão de jogo, possuía uma antevisão sobre o futebol. A aplicação de seus times e os feitos só comprovam tal fato. Foi um pioneiro e um revolucionário.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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