Brasil

O futebol brasileiro deve (muito) reconhecimento ao imortal Rubens Minelli

Treinador que faleceu aos 94 anos e foi tricampeão brasileiro entre 1975 e 1977 foi dos maiores do nosso futebol. Ele afirmava ter inventado o cabeça de área.

O Universo chamou para a próxima etapa um dos maiores treinadores da história do futebol brasileiro. Morreu em 23 de novembro de 2023, aos 94 anos, Rubens Francisco Minelli. Ele foi o primeiro treinador tricampeão brasileiro em sequência, comandando o Internacional em 1975/76 e o São Paulo, em 1977. Também foi campeão brasileiro com o Palmeiras, em 1969, além de conquistar títulos estaduais no Paraná, no Rio Grande do Sul e troféus na Arábia Saudita.

Minelli foi o que se pode chamar de treinador nada boleiro. Embora tivesse jogado futebol em clubes como Nacional, Ypiranga, São Paulo e Palmeiras, após uma contusão grave encerrou a carreira e foi estudar Economia na Universidade de São Paulo. Foi treinando o time da Economia da USP que ele, que trabalhava nos Correios e tinha um escritório de importação e exportação, chamou a atenção de dois jogadores do Palmeiras que atuavam no time universitário: Canhotinho e Richard. Ele aceitou o convite e começou a carreira na base palmeirense, tendo Oswaldo Brandão como treinador do time principal acima dele.

Minelli foi um treinador educado, cordato, mas que não compactuava com o modelo vigente no futebol brasileiro dos anos 1950 e 1960, ainda com muita influência de fatores extracampo. Pude entrevistar Minelli longamente em duas oportunidades. Para uma reportagem especial da revista “Trivela”, em 2009 (edição 43), e para meu primeiro livro: “Os 11 Maiores Técnicos do Futebol Brasileira” (Editora Contexto).

Minelli se dizia o inventor do cabeça de área

Na entrevista para a “Trivela”, Minelli afirmou que tinha sido o inventor do cabeça de área. Segundo ele, foi dirigindo o América de São José do Rio Preto que ele deslocou o meio-campista Mota (“um lateral-esquerdo que corria muito”) para “ficar na frente da zaga e atacar o cara que vem com a bola”. A ideia era dar sustentação à defesa e ter uma sobra dos zagueiros na marcação, sem que eles precisassem sair à caça do jogador que vinha com a bola dominada.

Capa da entrevista de Rubens Minelli a uma ainda revista Trivela

Foi ao assumir o Internacional, em 1974, que Minelli deixou sua marca no futebol brasileiro para a eternidade. Estudioso, ciente da preparação física e dos rigores do futebol gaúcho, ele teve uma estrutura que deu a ele jogadores de enorme talento, como Falcão, Batista, Figueroa, Lula, Caçapava, Carpegiani.

Em certo trecho da entrevista, Minelli revelou o que disse aos jogadores ao propor uma nova abordagem tática:

“Quando nós estivermos com a bola, vocês façam o que quiserem. Mas quando estivermos sem a bola, nós vamos defender como eu quero”. Ele bolou um treinamento específico para aprimorar o sistema defensivo: “utilizávamos metade do campo, com cinco ou seis jogadores em cada time, um zagueiro, um meio-campo e três atacantes. Tínhamos cinco times e fazíamos um torneio entre eles. Não tinha falta e quando a bola saía pela lateral o jogo recomeçava invertendo as posições. Com isso treinava a recomposição”.

Internacional de Minelli revolucionou o futebol sem perder a qualidade

O Inter revolucionou o futebol brasileiro sem perder a qualidade. Em 1977, Minelli levou o São Paulo ao primeiro título nacional, com um time menos talentoso, porém mais forte física e taticamente que o Atlético Mineiro.

Minelli não engolia desaforo e não precisava do dinheiro do futebol porque tinha negócios fora dele. Provavelmente por isso ele não chegou à seleção brasileira para as Copas de 1978 e, depois, 1986. Seu nome era o favorito, mas nunca emplacou na CBD ou depois na CBF. Sempre teve restrições entre os dirigentes e a imprensa do Rio de Janeiro, muito influente junto ao comando do futebol nacional.

Quando escrevi o livro sobre os 11 treinadores, procurei Muricy Ramalho com a intenção de entrevista-lo sobe Telê Santana. Mas ele acabou me convencendo a falar sobre Minelli. “Considero o Minelli o melhor técnico que vi na parte tática”, argumentou.

Discreto, caseiro, Minelli se reunia com amigos do futebol para almoços e jantares nos quais gostava de compartilhar e reviver histórias. Muito respeitado, era sempre visitado por ex-jogadores, jornalistas e treinadores.

O futebol brasileiro deve a ele mais reconhecimento por sua incrível obra.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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