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Há 40 anos, Inter conquistava seu 1º Brasileiro e revolucionava o jeito de pensar o jogo no país

Três títulos em nove anos. A partir da criação do Campeonato Brasileiro, em 1971, o Internacional se tornou uma grande potência nacional. Os colorados consumaram o tricampeonato entre 1975 e 1979, eternizando um dos maiores esquadrões que o país já teve – e, de maneira efetiva, o primeiro dominante em competições nacionais além do sudeste, diante do processo de integração do futebol ocorrido intensamente a partir de 1959. Aquele timaço do Inter, porém, representou mais do que hegemonia ou grandes craques. Ele serviu também para potencializar uma nova maneira de conceber o jogo no Brasil. Uma revolução iniciada há exatos 40 anos.

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Em 14 de dezembro de 1975, a cabeçada firme de Figueroa determinou o sucesso do Inter. Os colorados venceram, no Beira-Rio abarrotado por 82,5 mil torcedores, o ótimo Cruzeiro de Raul, Nelinho, Piazza, Palhinha, Joãozinho e outros grandes nomes – que não à toa, conquistou a Libertadores no ano seguinte. O triunfo por 1 a 0 coroou a campanha notável feita pelos gaúchos, deixando para trás adversários como Fluminense, Flamengo, São Paulo e Grêmio. Sobretudo, valorizava o excelente trabalho realizado por Rubens Minelli em Porto Alegre, o principal responsável por disseminar a mentalidade inovadora nos campeões.

O técnico chegou ao Internacional em 1974. Já pegou uma base muito sólida montada por Dino Sani, que conseguiu mesclar talentos da base com boas contratações. Ainda assim, Minelli elevou o patamar dos colorados, que, de um grande time que fazia boas campanhas nacionais, começou a erguer taças e marcar época. A trajetória vitoriosa começou no Campeonato Gaúcho de 1974, o sexto dos oito seguidos na época. Todavia, dominar as fronteiras locais não bastava mais para satisfazer o Beira-Rio. E a equipe já teve um ótimo desempenho no Brasileiro daquele ano, chegando até o quadrangular final.

Fora do Brasil, o futebol mundial atravessava um período de transformações. Em 1974, a Holanda impressionou durante a Copa. Não conquistou o título, mas indicou a direção à qual o esporte caminhava, com seu marcante carrossel. Não dá para dizer que o Inter trouxe o “futebol total” para o Brasileirão. Mas muitas das mensagens deixadas pelos holandeses foram captadas e aplicadas por Minelli. Ao invés de apostar na retranca, como era costumeiro, o Inter passou a contar com um time de imposição. Técnica, física e tática – a exemplo da Laranja Mecânica. De fato, o primeiro grande campeão nacional a integrar os três princípios de maneira tão sistemática.

Figueroa e Falcão, mais do que ídolos incontestáveis, simbolizavam o espírito daquele grande Inter. Jogadores de exímia qualidade com a bola nos pés. Mas que eram completos porque iam além. Donos de inteligência privilegiada, contribuíam muito na organização tática pedida por Minelli. E ainda apresentavam grande capacidade física para manter a intensidade durante os 90 minutos. Exemplos ao lado de tantos outros jogadores, que foram reforçando o timaço pouco a pouco: Carpegiani, Caçapava, Lula, Valdomiro. Até que o esquadrão se completasse em 1975, com as contratações do goleiro Manga e do centroavante Flávio Minuano.

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Mesmo com tantos valores individuais, o Inter dependia da coesão. A partir da disciplina de seus atletas é que a equipe aplicava um ritmo tão sólido. Atacar com força total e defender diminuindo ao máximo o espaço do time adversário eram os princípios em campo. Tal superioridade, entretanto, também resultava de um alto padrão físico exigido por Minelli. A habilidade se combinava ao vigor. Gilberto Tim, o preparador colorado, tinha um papel fundamental na manutenção da força e da resistência dos jogadores.

Em campo, mais que o 4-3-3 costumeiro na época, o time se segmentava. Era um 1-3-1-2-3, como definido pelo próprio Minelli em entrevista ao jornalista Mauro Beting em seu blog. Inovava principalmente com o trio de volantes composto por Falcão, Caçapava e Carpegiani (ou Batista). “Fiquei três anos montando uma equipe, apurando a condição técnica e tática. Num time montado, qualquer reforço dá certo. Meu grande mérito foi a equipe ter uma grande obediência tática. Além disso, era um grupo raro, de estrelas sem vaidades. Eles compreendiam o que eu queria taticamente e conseguiam desenvolver esse futebol dentro de campo. O meu conceito sempre foi que o jogador tem liberdade para fazer o que quer quando tem a bola. Mas, sem a bola, vão jogar como eu quero”, afirmou Minelli, em 2008.

A evolução contínua do Internacional chegou ao ápice em 1976. Outro traço marcante da influência holandesa, Marinho Peres entrou na zaga trazendo os conceitos de posicionamento que aprendera com Rinus Michels no Barcelona. Ideias aperfeiçoadas pela concepção do professor Minelli. Os colorados chegaram ao bicampeonato brasileiro com um aproveitamento ainda melhor, um futebol mais exuberante. Ratificaram que o título no ano anterior não havia sido um ponto fora da curva. Que, naquele momento, o clube gaúcho se firmava como uma verdadeira potência nacional. Um marco que completa quatro décadas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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