Internacional investiu milhões em contratações, mas nem um centavo para trabalhar a força mental do elenco
Especialista em psicologia do esporte ouvido pela Trivela critica negligência da direção colorada sobre o tema
O Internacional foi um dos times que mais investiu no futebol brasileiro em 2024. Estima-se que 14 milhões de euros (R$ 75 milhões) tenham sido gastos para a contratação dos 11 reforços que chegaram ao Beira-Rio nesta temporada.
Porém, nem um centavo sequer foi aportado na montagem de um departamento para trabalhar com o grupo de jogadores aquele que tem sido um dos principais problemas do Inter nos últimos anos: o aspecto psicológico.
Pressionado pelos anos sem títulos, Internacional tem sucumbido em contextos adversos
Com o peso e a pressão por conta do longo período sem conquistar títulos — o último foi o Campeonato Gaúcho de 2016 — o Inter tem acumulado eliminações traumáticas, especialmente no Beira-Rio. A última delas foi para o Juventude, nos pênaltis, na semifinal do Gauchão deste ano.
Eliminações do Internacional no Beira-Rio nas gestões de Alessandro Barcellos (2021-atual)
- Vitória (Copa do Brasil 2021)
- Olímpia (Libertadores 2021)
- Melgar (Copa Sul-Americana 2022)
- Caxias (Campeonato Gaúcho 2023)
- América-MG (Copa do Brasil 2023)
- Fluminense (Libertadores 2023)
- Juventude (Campeonato Gaúcho 2024)
Mesmo em jogos não eliminatórios, o Inter sente muito os gols que sofre, principalmente quando joga dentro de casa. Foi o caso da derrota por 2 a 1 para o Vasco da Gama, no último domingo (7), no retorno ao Beira-Rio após 70 dias.
— Durante muitos anos o Internacional vem sofrendo com esse modelo de comportamento que tem produzido bastante prejuízo para a equipe, promovendo quedas muito importantes no campo tático, técnico e físico por conta de emoções que surgem no histórico recente do time, principalmente nesses últimos quatro, cinco anos. Há muito tempo vem demonstrando fragilidade no contexto comportamental e psicoemocional — aponta, à Trivela, João Ricardo Cozac, Doutor em Psicologia do Esporte pela USP.
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Robert Renan voltou a falhar justamente no retorno ao Beira-Rio
Um exemplo claro disso é Robert Renan. Junto com Maurício, hoje no Palmeiras, o zagueiro de 20 anos foi um dos grandes culpados da eliminação do Inter para o Juventude, no Gauchão, ao tentar cavadinha e desperdiçar sua cobrança na disputa de pênaltis.
Após atuar, com relativo bom desempenho, longe do Beira-Rio, Robert Renan voltou a falhar justamente em seu retorno ao estádio. Ao se desequilibrar e perder a posse de bola, permitiu que Adson abrisse o placar para o Vasco.
— Casos como o do Robert Renan, quando cometem erros que ficam marcados tanto para o atleta como para a torcida, e quando a resultante emocional das falhas não é trabalhada, a tendência é que quando o atleta retorne ao ambiente onde a falha aconteceu, ele esteja mais vulnerável a cometer novos erros — explica Cozac.
Além do local, o especialista em psicologia do esporte lembra que o adversário também pode influenciar mentalmente o desempenho dos atletas. E isso serve de alerta para o Inter, que nesta semana terá confrontos decisivos, pela Copa do Brasil, justamente contra o Juventude, algoz no Gauchão.
Presidente do Internacional disse que não encontrou psicólogo do esporte com experiência suficiente
Após a eliminação no estadual, o presidente colorado, Alessandro Barcellos, foi questionado sobre a negligência do Inter à questão emocional. Como já mostrou a Trivela, o Colorado faz parte da metade dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro que não possuem profissionais de psicologia em sua equipe.
— Não resolve só essa psicologia com profissional. Isso é fundamental, e a gente está trabalhando. Não encontramos alguém que tenha experiência ou minimamente possa já ter trabalhado nesse ambiente, e que possa acrescentar. […] Até porque nós temos uma comissão técnica e vários jogadores experientes, dentro de campo e no vestiário — justificou Barcellos.

Gestor da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e do Exercício Físico (APPEE), Cozac discorda frontalmente do mandatário colorado. Ele ressalta que, apenas na associação que dirige, já se formaram quase seis mil profissionais.
— Eu diria que há profissionais suficientes para ele poder escolher inclusive. Essa fala do presidente me parece bastante equivocada. Temos profissionais com formação e experiência, tanto teórica como prática. Temos profissionais nossos que atuam em outros países, justamente por conta desse tipo de pensamento, como o presidente do Inter menciona, e também de muitos treinadores que têm preconceito e desinformação muito grandes quando o assunto é a psicologia do esporte — opina.



