Brasileirão Série A

Na era da saúde mental, metade dos clubes do Brasileirão não tem psicólogos no time profissional

Levantamento feito pela Trivela mostra que apenas 50% dos clubes do Brasileirão, o principal campeonato do país, possuem psicólogos

A saúde mental nunca esteve tanto em discussão. Mas no futebol profissional do Brasil, o assunto ainda é tabu, muitas vezes escanteado, que entra por último na lista de prioridades. É fato que o futebol no século XXI exige dos clubes uma estrutura completa de profissionais que atendam diversas áreas, como a preparação física, fisiológica, nutrição, além das questões técnicas e táticas do jogo, tendo uma equipe de análise de mercado e de desempenho à disposição do treinador.

E com a evolução da discussão em torno do tema nos últimos anos, era de se esperar que os psicólogos fossem presença certa nos clubes para acompanhamento do elenco diante dos altos e baixos da profissão, mas essa não é a realidade de metade dos clubes da Série A do Brasileirão.

Um levantamento exclusivo da Trivela revelou que apenas 10 clubes do Campeonato Brasileiro têm psicólogos que acompanham o time profissional. Desses, em nove, apenas um profissional é responsável por todo o trabalho com o grupo de jogadores – a exceção da lista é o Vasco, que tem um departamento de psicologia com sete profissionais, estendendo o atendimento pelas categorias de base.

Quais times da Série A têm psicólogo para o time profissional?

Times que não possuem Times que possuem
América-MG Atlético-MG
Athletico Bahia***
Corinthians Botafogo
Cruzeiro*** Coritiba
Cuiabá Fluminense
Flamengo* Fortaleza**
Goiás Palmeiras
Grêmio* Red Bull Bragantino
Internacional Santos
  São Paulo
  Vasco

 

*Grêmio e Flamengo informaram à Trivela que apesar de não contarem com profissionais na equipe, os jogadores podem solicitar o atendimento com psicólogo ao departamento médico.

**O Fortaleza informou à Trivela que o psicólogo mexicano Christian Rodríguez faz parte da comissão técnica de Juan Pablo Vojvoda.

***Inicialmente, o Cruzeiro informou que não contava com um profissional da área. Após a publicação do levantamento feito pela Trivela, o clube disse possuir uma “profissional parceira” que atende atletas quando a necessidade é identificada.

****Após a publicação do levantamento feito pela Trivela, o Bahia afirmou que contratou uma nova profissional para o setor na última semana. 

Por que metade dos clubes da Série A não têm psicólogos? 

A Trivela ouviu especialistas para explicar: por que metade dos clubes do Brasileirão, incluindo os gigantes Corinthians, Flamengo e Grêmio, não têm psicólogos? Na opinião do psicólogo do esporte e presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e do Exercício, João Ricardo Cozac, o principal motivo é a desinformação.

– No Brasil ainda tem muito preconceito por conta da desinformação ou da má informação que se tem sobre a psicologia do esporte. Eu diria que, no Brasil, a própria psicologia sofre um preconceito muito grande enquanto ciência. Quando a questão é associada à parte mental, as pessoas têm muito medo, elas se escondem, elas negam, existe um preconceito muito grande – explicou Cozac.

Emily Gonçalves, psicóloga do Fluminense, aponta exatamente o mesmo motivo da falta de conhecimento sobre o assunto e ainda relata que muitos associam a psicologia ao fracasso.

– A resistência ainda tem a ver com a falta de conhecimento das pessoas que, infelizmente, associam a psicologia ao fracasso, para quem tem doença. […] Quando as pessoas entendem realmente o que é a psicologia, muda essa visão, mas é um trabalho de longo prazo. Então nosso trabalho não é imediato, cabe a gente também se posicionar – afirmou a profissional.

Esse desconhecimento e resistência do meio do futebol foi mostrado em uma fala do volante Allan, do Flamengo. Após o empate em 1 a 1 com o São Paulo, dias depois da eliminação na Copa Libertadores, o jogador foi questionado sobre a ausência de acompanhamento psicológico no clube carioca, mas rechaçou que isso faça a diferença.

– Não tem psicólogo que ajude jogador, não. É cada um olhar para si e tentar sair da situação o mais rápido possível, até porque, não tem tempo – falou Allan, na zona mista.

A posição do Conselho Federal de Psicologia vai neste mesmo sentido de que o preconceito atrapalha a presença de mais profissionais de psicologia em clubes de futebol. Rodrigo Acioli, conselheiro da entidade, crê que o futebol nada mais é um reflexo da sociedade neste sentido.

– Ainda se encontra resistência por parte de dirigentes, técnicos e até mesmo jogadores em relação à presença do psicólogo no ambiente esportivo. Isso pode ser atribuído a diversos fatores, como a falta de compreensão sobre o papel do psicólogo, estigmas associados à saúde mental e à busca de ajuda psicológica. Esse é o reflexo da sociedade também. Se ainda existem preconceitos, equívocos no campo mais aberto, isso se reflete nesse segmento também – afirma Acioli.

Como funciona o trabalho de um psicólogo em um clube de futebol?

A psicologia do esporte, que é exercida dentro dos clubes, é diferente de uma consulta comum com o psicólogo, como uma sessão de terapia clínica. No futebol, a psicologia analisa o conjunto de atletas no contexto do esporte e como potencializá-los para a prática esportiva. O jogador pode ser auxiliado para desenvolver o autoconhecimento, ajudando a identificar seus pontos fortes e fracos, lidar com frustrações, tão comuns no futebol, além de melhorar a concentração e tomada de decisão dentro de campo. Também é fortalecido o trabalho em grupo nas questões de comunicação e motivação.

– A psicologia clínica, terapêutica, ela atende um atleta isoladamente. […] Já um psicólogo do esporte trabalha com a equipe, está ali para falar e trabalhar questões do grupo: comunicação, coesão, motivação, enfim, temáticas relacionadas à equipe e quando existir uma demanda dentro do time que seja para um trabalho clínico, o psicólogo do esporte deve encaminhar para um psicólogo clínico fora do clube – detalhou Cozac.

Emily explica como funciona seu dia a dia no Fluminense. A profissional analisa diariamente os níveis de humor, estresse e sono a partir de uma escala de bem-estar. Como membro da comissão técnica, Emily atua junto dos jogadores se recuperando de problemas físicos e também durante os treinamentos.

– Tudo que diz respeito, tanto à equipe quanto aos atletas de uma forma individual, são feitos os acompanhamentos diários. [A comissão] tem as escalas e os relatórios dos departamentos, onde a gente sempre está trocando as informações. Auxiliamos, seja a partir de uma demanda para potencializar ou melhorar aquilo que é já é bom em um jogador, mas também para aquilo que o atleta está com dificuldade – conta Emily.

A profissional destacou também a importância de uma rede de apoio dentro do clube para trazer um ambiente harmônico aos jogadores, o que pode potencializar aspectos individuais. O atleta não precisa, necessariamente, se abrir com o psicólogo do clube. O profissional de saúde mental do time, ao fortalecer o trabalho da comissão, pode capacitar e melhorar o relacionamento de um auxiliar técnico com um jogador, por exemplo.

– O psicólogo ajuda nas habilidades dos profissionais (da comissão técnico ou de outros setores) para habilitar o acolhimento de cada um, até porque o trabalho psicológico é um trabalho de todos. Um ambiente que favorece um bom desempenho, harmonia, acaba gerando uma vantagem competitiva. Essa troca diária é muito importante porque o comportamento observado de cada profissional acaba gerando um impacto muito importante, de dar importância à voz do atleta. Às vezes, o jogador se abre mais com um determinado profissional, não necessariamente com o psicólogo. A comissão técnica, estando habilitada para acolher esse atleta, acaba aumentado a rede de apoio no dia a dia – explica a psicóloga do Fluminense.

Qual a importância da psicologia para os atletas de alto rendimento?

Para se alcançar um sonho no futebol, os jogadores renunciam muitas coisas. Muitas vezes saindo de regiões periféricas, deixam a família – e até a escola, em alguns casos, ainda crianças para morar nos alojamentos dos clubes, perdendo sua infância, adolescência e momentos ao lado dos familiares. Do dia para a noite, a partir do momento que se destacam, podem começar a ganhar milhões de reais, mas também convivem com a pressão das redes sociais, da família, da torcida e até da imprensa após qualquer erro dentro (ou fora) de campo.

– Os jogadores acabam tendo muito sofrimento por conta da dificuldade de gerenciar conflitos, situações que vivem no cotidiano do futebol. Essas questões dificultam a concentração, tomada de decisão, velocidade de reação, motivação. Nisso, o trabalho psicológico no esporte é fundamental no futebol, principalmente que tem esse contexto psicossocial de demandas. As demandas são muito importantes e quando não são atendidas, elas geram lacunas tanto emocionais como lacunas nas habilidades e na performance dos atletas – analisa Cozac.

Para o profissional, ao lado da preparação física e técnica, está a psicológica em grau de importância no esporte.

– Se você pegar um triângulo em que um lado é a preparação física, o outro lado é a preparação técnica, a base é a preparação psicológica. Então eu diria que é imprescindível que as equipes tenham uma boa preparação psicológica para que os atletas não tenham corpos muito fortes e a base muito frágil. A importância é indiscutível, é ampla, é enorme – explica o profissional que também trabalhou com equipes de esports.

Além dos clubes: atletas buscam acompanhamento psicológico individual

Um movimento, ainda pouco falado publicamente pelos atletas, é a procura de psicólogos para acompanhamento individual. O goleiro brasileiro Ederson, do Manchester City, revelou à ESPN se consultar com um profissional e como isso o ajudou a superar duras derrotas – como na eliminação da seleção brasileira na última Copa do Mundo, em 2022, no Catar.

– Foi muito difícil, uma derrota muito dolorida para todos nós. A vida é assim, a gente cai aqui, mas tem que levantar, porque se continua no chão vem outro e te pisa. Aí entra o aspecto da mentalidade. […] Tem muitos atletas que passam por coisas que, se não tiver cabeça, não conseguem manter o nível. Aí entra o aspecto de um trabalho psicológico, com um psiquiatra. Não vai te fazer melhor que ninguém, mas vai saber lidar com situações – falou o arqueiro.

A Seleção Brasileira não contou com um profissional dessa área durante o mundial, mas isso não impediu o goleiro do City de continuar com suas consultas durante a competição.

– Acho super importante e super necessário no futebol [se consultar com o psicólogo]. Cada um encara de uma forma. Eu, durante a competição, não deixei de fazer minhas consultas. Sempre me preparei mentalmente e me preparo para tudo, um possível erro, para vitória, para derrota, para empate, um grande jogo. Consigo absorver melhor as coisas hoje. É um fator que me ajuda muito, vejo uma diferença absurda, no meu comportamento e tudo – completou.

Psicologia no futebol: Metade dos clubes do Brasileirão não têm psicólogos no time profissional
Ederson durante partida do Manchester City (Foto: Icon Sport)

Também goleiro, o argentino Emiliano Martínez, campeão do mundo com a Argentina, é um defensor da psicologia e afirma que todos os jogadores devem se consultar regularmente. Há mais de quatro anos, antes mesmo de seu sucesso por seu país e no Aston Villa, o jogador se consulta com o psicólogo inglês David Preastley. Duas vezes por semana e antes dos jogos, Dibu – como é conhecido o atleta – é atendido pelo profissional.

– Minha cabeça está mais centrada que nunca, ganhando ou perdendo. Com o que exige o futebol mundial, creio que todo jogador precisa de um psicólogo. Hoje, é muito fácil que te chegue uma mensagem que te insulta ou te discrimina. Nas redes, encontramos pessoas que te ameaçam e te falam para você se aposentar. Por isso, é preciso ter a cabeça centrada e manter um objetivo – disse Martínez ao jornal argentino La Nación.

A pressão das redes sociais é pauta nas consultas do jovem Ronald, do Grêmio, de apenas 20 anos. À Trivela, o jogador, que estreou no profissional do Imortal nesse ano e soma quatro partidas pelo time principal, afirmou como lida com os xingamentos da torcida e sabe diferenciar que a crítica é em cima do desempenho dentro dos gramados, não algo pessoal.

Jovem Ronald comemora primeiro gol pelo Grêmio (Foto: Divulgação/Grêmio)

– Uma coisa que eu coloquei na minha cabeça, que quando tu faz uma partida mal, quando tu vai mal, e tem muitos torcedores que vêm na rede social xingar, no Twitter, no Instagram, eu sei que não é que elas não gostam do Ronald, elas não gostaram do teu rendimento dentro do campo. Então a gente tem que saber separar esses momentos, que é importante, que também te ajuda nisso – comentou o atleta.

Com passagens na seleção brasileira de base, Ronald mostra entender a importância do acompanhamento psicológico individual. Ele optou por se consultar porque gostaria de uma opinião profissional e não de um familiar ou amigo que agiria com emoção. 

– [A psicologia] ajuda de diversas formas, principalmente com os erros dentro do campo. Uma coisa que eu e minha psicóloga sempre conversamos, que os erros não podem afetar o teu andamento na partida. Isso é o principal, de tu errar e ter consciência que na próxima você vai acertar, para continuar tentando – destacou Ronald, que continuou:

– Fora as outras diversas coisas que nos ajudam: quando temos uma lesão, quando treinamos mal, fazemos uma semana ruim de treino, quando vamos para o banco de reservas. Todas essas questões, a psicóloga ajuda a tu se manter, a tu ser o mesmo quando tiver ‘top', sendo titular, quando tiver na melhor fase. E (também) quando tu estiver na pior, se manter, ser a mesma pessoa e continuar fazendo as mesmas coisas – finalizou.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de esports no The Clutch. Como assessor de imprensa, atuou no setor público e privado.
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