Argentina

Emi Martínez: “Com o que exige o futebol a nível mundial, creio que todo jogador precisa de um psicólogo”

Numa longa entrevista, Emiliano Martínez também comentou a diferença que Messi faz no ambiente da seleção

Emiliano Martínez precisou de poucos jogos como titular para se transformar numa figura central da seleção argentina. O goleiro garantiu uma segurança que faz tempo a Albiceleste não sentia e virou protagonista na Copa América. Não à toa, a equipe e ele mesmo faziam tanta questão da presença nesta Data Fifa. Antes do imbróglio ocorrido no Brasil x Argentina deste domingo, Martínez deu uma interessante entrevista ao jornal El País. O titular do Aston Villa falou não apenas sobre clubes ou seleção, mas também da importância do acompanhamento psicológico no futebol de alto rendimento e como isso contribuiu para sua carreira.

“Defender a seleção argentina era meu sonho desde que comecei a jogar no gol, com seis anos. Há muita gente que fica pelo caminho, porque mentalmente se cansam e jogam a toalha. Sempre fui forte mentalmente, mas é algo que se trabalha. Comecei com um psicólogo há quatro anos, ele me prepara a cada partida”, comentou Martínez. “Sempre vejo com o psicólogo quão fortes os rivais podem ser e o que pode acontecer no jogo. Sigo a mesma rotina para jogar contra o City, o Liverpool, o Crystal Palace ou o Watford. Tenho três preparações: a mental, a individual e a de toda a equipe”.

“São coisas muito pessoais que trabalho. Não sei se o psicólogo quer que exponha. Falamos duas ou três vezes por semana antes de uma partida. Minha cabeça está mais centrada que nunca, ganhando ou perdendo. Com o que exige o futebol a nível mundial, creio que todo jogador precisa de um psicólogo. Hoje em dia, é muito fácil que chegue uma mensagem de alguém que te insulta ou te discrimina. Nas redes sociais, você se encontra com gente que ameaça e pede que se aposente. Por isso, é necessário ter a cabeça centrada e ter um objetivo”, complementou.

Emiliano Martínez apontou como a mentalidade é importante desde o início da carreira. Cria da base do Independiente, o goleiro vivia em condições limitadas nos dormitórios do clube desde os 12 anos. Ainda perseguia o sonho de se profissionalizar com o Rojo, mas o interesse do Arsenal o levou para a Inglaterra com 19 anos. Segundo o argentino, foi o desejo de auxiliar a família que o fez se decidir pela transferência. Porém, também precisou encarar novos desafios num país diferente e seguidos empréstimos para emplacar.

“O Arsenal veio me buscar e Pepe Santoro [lendário goleiro do Independiente, que era seu tutor] me disse que o trem só passa uma vez na vida. Minha família e meus empresários pensavam o mesmo. Assim a decisão foi mais por eles do que por outra coisa. Eu não queria ir. Não me arrependi, mas fiquei com vontade de jogar no Independiente. Pensava que poderia estrear em dois anos. Fui mais para ajudar minha família do que pelo esportivo. Sabia que poderia chegar no primeiro time, o Independiente confiava nos goleiros da base”, disse.

“Eu não sabia o idioma na Inglaterra. E Wenger me disse que os goleiros precisavam falar inglês sim ou sim. Quando coloco algo na cabeça, eu consigo. Em um ano aprendi a falar inglês e até tirei a habilitação para dirigir. Depois, fui de empréstimo por empréstimo. Fui emprestado por seis vezes antes de me consagrar. As experiências foram muito boas na segunda divisão inglesa, mas ruim no Getafe. Foi o ponto mais baixo da minha carreira. Não pensei em deixar o futebol, mas duvidei se iria alcançar o que queria”, também apontou.

O arqueiro vê como a Premier League beneficia seu jogo e eleva seus próprios limites: “A Premier League é a melhor competição que existe. Todo jogador de futebol profissional gostaria de atuar na Inglaterra. E todo mundo que vem de outras ligas fala como é difícil de se adaptar. Tem outro nível de jogo e outra estrutura física. Você compete a cada três dias e todas as equipes podem te vencer. Mas eles também podem ganhar de você duramente. Enquanto você relaxa, marcam quatro gols. Mas, para mim, é ótimo como goleiro. Muito jogo aéreo, muito jogo com o pé. É meu jogo. Você fica todo tempo em contato com a bola, nunca fica frio”.

Sobre a seleção argentina, Emi Martínez exaltou Lionel Messi. Afirmou como o camisa 10 fez a diferença na Copa América não apenas por seu talento, mas também por sua influência como capitão e pelo desejo de conquistar um título. Como ficou claro nas comemorações, um objetivo em comum do elenco albiceleste foi buscar a taça para consagrar seu ídolo.

“Digo de coração: sou mais contente pela conquista da Copa América por Messi que por mim. Sou argentino. Qual argentino não queria que o melhor jogador da história não levantasse a taça? E todo o elenco entendeu isso. Quando ele estava por levantar o troféu, gritamos que era o dia dele. Agora vamos tentar ganhar mais coisas. Mas já entrou para a história o dia em que o 10 ganhou no Maracanã. Isso é para toda a vida”, revelou Martínez.

“Não estive com Messi em outras etapas, mas o que vivi com ele é incrível. É um companheiro a mais e uma loucura de capitão. Extraordinário. Por exemplo, antes da partida ele dava uma palestra e explicava as dificuldades dos rivais e o que nós tínhamos que fazer. Depois pedia para cantarmos o hino todos juntos e abraçados. Detalhes como esses nos entusiasmavam cada vez mais. Além do óbvio: é uma referência total no jogo. A mensagem, porém, não era para dar a bola pelo camisa 10. Era de que se precisava trabalhar pelo camisa 10. Se tínhamos que correr 12 km por jogo, corríamos. Mas não tinha que passar a bola e esperar que ele resolva tudo. A ideia era deixar a vida por ele, e todos que jogaram entenderam”, comentou.

Decisivo na semifinal, Martínez virou meme pela forma como intimidou os cobradores colombianos na disputa por pênaltis. Entretanto, ressalta como deseja representar mais:  “É algo impagável. No momento, realmente não pude desfrutar tanto como se fizesse agora, quatro dias depois da semifinal já tinha a final. Demos uma alegria às pessoas, que é o importante. Vimos muitos vídeos de torcedores comemorando e chorando no Obelisco. Também soube que muitos goleiros jovens receberam vídeos com minha frase. Comemorar depois de pegar um pênalti ou falar aos rivais não é o exemplo que quero dar às crianças. Mas foi o que me saiu neste momento. Num esportista, por trás de cada história de êxito há muito esforço e sacrifício. Saí da minha casa com 12 anos para viver na pensão do Independiente e tive que superar muitas adversidades antes de chegar no lugar que estou hoje. Essa é a mensagem para os jovens, não um meme de festejo”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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