Messi, Newell’s e um retorno impossível: Por que maior sonho do futebol argentino está se dissipando
Em ótima fase no Inter Miami, ídolo argentino pode encerrar sua carreira sem passagem pelo futebol de seu país
O retorno de Lionel Messi ao futebol argentino seria enorme para o Newell’s Old Boys, embora seja um sonho que dependa de múltiplos fatores e atores. Messi é, para o futebol argentino, uma figura que transcende gerações e fronteiras. Seu impacto supera o esportivo, é identidade, pertencimento e um símbolo que conecta milhões.
Por isso, imaginar seu retorno ao país sempre despertou uma expectativa única. No Newell‘s, esse sonho ganhou ainda mais força, convertido em uma fantasia coletiva que se renova cada vez que Messi pisa em Rosário ou menciona sua infância na cidade.
No entanto, apesar do peso emocional que cerca essa ilusão, o tempo expõe uma pergunta que nunca termina de ser respondida: por que um jogador tão ligado à camisa rubro-negra nunca esteve perto de concretizar seu retorno? A expectativa existe, a história também, mas a realidade marca um caminho diferente. Essa contradição, entre desejo popular e fatos concretos, é o que abre o interrogante central desta análise.
Os sinais do Newell’s para Messi, sem resposta

Em várias ocasiões, o Newell’s tentou dar sinais públicos para aproximar Messi, embora nunca tenha conseguido converter esses gestos em um projeto concreto. Ignacio Astore, presidente do Newell’s prestes a terminar seu mandato de quatro anos, expressou isso mais de uma vez: o clube “sonha” com seu retorno e o considera “um desejo de toda a instituição”.
Inclusive garantiu que seria “glorioso” vê-lo na cidade junto com Ángel Di María, mas também admitiu: “Não falei com o jogador”, deixando exposta a distância real entre a ilusão e os fatos.
O movimento mais simbólico chegou com o batismo da nova arquibancada “Lionel Messi”, inaugurada no dia de seu aniversário de 38 anos, em junho. O clube apresentou a obra como uma homenagem histórica, mas a resposta do próprio Messi foi nula. Esse silêncio gerou ruído interno e externo.
Hernán Cabrera, jornalista que cobre o Newell’s para diferentes veículos, entre eles a “Rádio LT8, Newell’s al minuto” e colabora no “Diário La Capital” de Rosário, em um depoimento exclusivo para o “Top Mercato”, explicou assim: “Não houve nenhum gesto, nenhuma mensagem, e isso decepcionou muito o torcedor”. Por outro lado, Rodrigo Mendoza, jornalista da “Rádio Continental” e correspondente do “TyC Sports”, contou que houve apenas “uma sondagem e alguns atos de sedução, mas nada firme”.
Sobre os contatos formais, há versões contraditórias. Cabrera sustenta que “houve um contato em algum momento, e a conversa foi com Jorge Messi”, embora também ressalte que a família “não estava muito convencida do retorno”. Do outro lado, o comunicador partidário Facundo Alvarado, comentarista do programa “Al Fondo de La Red”, afirma o contrário: “Jamais houve contato com Messi, nem sequer com sua família”. Essa dupla leitura, entre gestos simbólicos e falta de ações concretas, ajuda a explicar por que o sonho nunca esteve perto de se materializar.
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Inter Miami blindou Messi e quer garantir seu futuro
Enquanto em Rosário se debatia se os gestos institucionais poderiam aproximá-lo, nos Estados Unidos acontecia o contrário: o Inter Miami fez de tudo para blindar Messi a longo prazo. Primeiro buscou uma renovação até 2026, depois avançou e terminou assinando um contrato ainda mais ambicioso, que o prende até a temporada 2028. Dessa forma, Jorge Mas e David Beckham, membros da alta cúpula do time da MLS, garantiram a continuidade da estrela absoluta de sua instituição.
A estrutura contratual vai muito além do salário esportivo. Inter Miami, a MLS, Apple e Adidas integram um ecossistema que depende dele como figura global, e que constituem a fortuna de Lionel Messi. Sua presença move audiências, assinantes e acordos de marketing em toda a América do Norte. Por isso, qualquer saída temporária exige a aprovação de múltiplos atores.
Algo que deve ser levado em conta para um caso assim é a “cláusula Beckham“, um detalhe de seu contrato que lhe permite ser cedido durante o recesso entre temporadas da liga americana. O que acontece é que historicamente essas janelas foram usadas para transferências a clubes europeus, não sul-americanos (aconteceu com o próprio David entre 2009 e 2010, quando foi para o Milan). Ou seja, embora tecnicamente houvesse uma saída mediante aquela cláusula, seria mais provável que se buscasse um salto ao Velho Continente.

A outra variável é pessoal. Messi não apenas encontrou estabilidade esportiva em Miami, mas também um ambiente familiar que não teve em Paris. Seus filhos já estão integrados em escolas da cidade, sua esposa se sente instalada e ele parece mais do que estabelecido na América do Norte. Isso explica por que, mesmo quando no início de 2025 surgiram rumores sobre uma cessão curta, a opção se diluiu rapidamente. E após sua renovação até 2028, essa possibilidade passou de improvável a praticamente nula.
A relação de amor de Messi com o Barcelona
Depois de blindar seu futuro em Miami, o outro grande eixo emocional da carreira de Messi aparece a milhares de quilômetros de Rosário. Sua visita relâmpago ao Camp Nou em novembro de 2025 deixou isso claro.
Percorreu em silêncio o estádio em obras e escreveu nas redes: “Ontem à noite voltei a um lugar que sinto falta com a alma… Tomara que algum dia possa voltar, e não apenas para me despedir como jogador”. O Barcelona respondeu: “Sempre bem-vindo à sua casa, Leo”.
Essa cena não foi isolada. Dias depois, o Camp Nou remodelado voltou a corear seu nome no minuto 10, mesmo em plena ascensão de Lamine Yamal. E, de Miami, Messi recebeu o prêmio de “jogador mais querido da história do Barcelona” e definiu o clube como “minha casa, meu lugar, minha gente”. Enquanto o Newell’s fica ligado à infância e à origem, o Barcelona aparece, cada vez mais, como sua verdadeira identidade futebolística adulta.
Se o Barcelona é o lugar onde Messi se tornou lenda, o Newell’s é o ponto de partida que o marcou para sempre. Em Rosário viveu suas primeiras tardes com a camisa rubro-negra, fez 234 gols em 176 partidas nas categorias de base e teve formadores que ainda se emocionam ao lembrá-lo. Quique Domínguez, em uma matéria para o “Infobae”, o definiu como “um Dalí, um Beethoven… nascem diferentes”.
O vínculo da infância de Messi com o Newell’s
Seu vínculo com o Newell’s também está atravessado pela história familiar e pela arquibancada. Messi contou em uma entrevista com Jorge Valdano que ia ao Coloso quando criança, com seu pai, seu tio e seus irmãos, e que admirava jogadores como Manso ou “Terremoto” Cejas. No início de 2025, reencontrou seus companheiros da categoria 87, em uma foto que explodiu em Rosário. Tudo isso reforça sua condição de torcedor leproso, mas também deixa claro que esse laço vive, sobretudo, na lembrança.
Com o tempo, esse vínculo foi mudando. De seu sonho de criança de jogar no Newell’s, passou a um presente em que quase não menciona o clube e concentra sua nostalgia no Barcelona. As decisões familiares, o tratamento hormonal que a Lepra não cobriu e o salto definitivo ao Barça terminaram de moldar seu caminho. Hoje, mais do que um destino pendente, o Newell’s parece ser sua origem afetiva, o lugar onde tudo começou, mas ao qual dificilmente retornará como profissional.
Um vínculo afetivo que ganhou mais força quando, em uma de suas primeiras entrevistas, lá pelo ano de 2004 no programa Sportscenter, disse a frase que marcou um antes e um depois em sua vida: “Eu sou torcedor do Newell’s, tomara que algum dia possa voltar e jogar lá”. Uma frase que impactou em cheio o torcedor leproso e há 21 anos alimenta o anseio pelo retorno do capitão da Seleção Argentina.
O que pensa o torcedor do Newell’s sobre o possível retorno de Messi
Embora bem se poderia dizer que esse anseio é coisa do passado, já que com o passar do tempo, a realidade de Messi foi colidindo com a ilusão do torcedor. Um dos momentos em que seus caminhos poderiam ter se alinhado foi após a Copa do Mundo, já que Messi ficava livre do PSG e, em vez de fazer suas malas com destino a Rosário, chegou ao Inter Miami. Uma decisão que começou a desgastar sua relação com o povo leproso.

“Não sei se o torcedor do Newell’s deixou de vê-lo como possível, mas sim deixou de vê-lo como uma prioridade“, sustentou Hernán Cabrera em diálogo com o Top Mercato. Além disso, acrescentou: “como agora não há rumores de sua possível chegada, eu acho que o torcedor não se ilusiona mais”. Sobretudo pela vida que Lionel Messi tem com sua família em Miami, onde encontrou a tranquilidade e a possibilidade de viver como uma pessoa comum.
Com seu contrato recém-renovado e aproveitando seus últimos anos como profissional, o único cenário possível é um retorno simbólico, por um punhado de partidas, para cumprir aquele sonho que um dia se acendeu em seu coração, mas que, com o passar do tempo, a situação do país em diferentes momentos e a crise institucional do clube, foi se apagando.
O que significaria a volta de Messi ao Newell’s
Hoje, seu laço mais forte com Rosário não passa pelo futebol, mas por seus entes queridos. Em sua entrevista mais recente com a “ESPN”, expressou o seguinte: “O mais bonito para mim é ir em dezembro a Rosário para passar as festas com minha gente”. Sua relação com a Lepra passou para um segundo plano, já que em outro trecho da mesma mencionou: “Meu sonho de criança era jogar na Primeira Divisão do Newell’s”. Ressaltar que seu desejo foi em uma etapa em particular marca uma distância com o que sente hoje em dia.
Diferentemente de Lionel, os retornos de Ángel Di María ao Rosario Central e de Leandro Paredes ao Boca se deram em um contexto diferente, já que chegaram a instituições capazes de conter sua volta do ponto de vista esportivo e institucional. Em contrapartida, a figura de Messi opera em outra dimensão: sua presença geraria um impacto esportivo, econômico e midiático impossível de comparar, e hoje, pela crise institucional e futebolística da Lepra, o Newell’s não está em condições de sustentar um retorno assim.

Os candidatos a presidente do Newell’s e o que disseram sobre Messi
Ignacio Boero, eleito novo presidente do clube no último domingo (14), não deixou passar a oportunidade de aproveitar as declarações recentes de Messi e enviar uma mensagem aos torcedores do Newell’s. “Vamos cumprir isso para você, Leo”, comunicou em sua conta oficial no X. Ao que acrescentou: “Vamos cumprir este sonho que é o sonho de todos. Temos uma equipe de trabalho capaz e confiável para que Leo possa vir e ser feliz em sua casa”.
Além do impacto midiático de sua mensagem, as respostas dos torcedores do Newell’s à postagem foram, em sua maioria, negativas. A sensação geral é que a urgência do sócio e do simpatizante hoje passa menos por imaginar um eventual retorno de Messi e mais por exigir um projeto sério que organize a instituição. Nesse contexto, qualquer plano para seduzir o capitão da Seleção só poderia prosperar se se sustentar uma base sólida e com uma diretoria que demonstre capacidade real de gestão.
Nesse cenário, se finalmente os caminhos de Lionel Messi e Newell’s não se unirem, sua situação se torna ainda mais particular, já que se converteria no máximo emblema da Seleção Argentina que jamais jogou no futebol local. Nem Maradona, nem Passarella, nem Verón, nem Mascherano, todos capitães e símbolos em diferentes épocas, evitaram a passagem pela primeira divisão do futebol argentino.
Messi, um ídolo argentino diferente
Messi ficaria como a exceção absoluta, já que se converteu em um ícone em seu país à distância: desde Barcelona, passando por Paris e hoje desde Miami, mas nunca desde sua Rosário. Embora essa ausência não o separe do torcedor argentino, sim alimenta a ideia de um percurso irrepetível e quase impossível de comparar com qualquer outra história do futebol nacional. E esse matiz simbólico pesa na percepção coletiva porque, para muitos, a imagem de Lionel Messi encerrando sua carreira sem jogar na Argentina é difícil de assimilar porque vai contra o que todos anseiam: ver o herói voltar ao lugar onde sua lenda começou a tomar forma.

Apesar de Lionel Messi manter intacto seu laço emocional com Rosário, a passagem do tempo consolidou um cenário no qual seu retorno se tornou quase uma utopia. Seu contrato estendido até 2028, sua estabilidade familiar em Miami e o peso de um ecossistema tanto esportivo quanto comercial que gira ao seu redor constroem uma realidade impossível de ignorar.
Nesse contexto, o Newell’s ficou mais associado ao início e à lembrança do que a um futuro possível, preso entre homenagens simbólicas e a falta de um projeto capaz de sustentar sua chegada. No entanto, continuará ocupando um espaço íntimo em sua história, já não como destino, mas como a origem de um caminho que tomou outro rumo.
E assim, enquanto o torcedor aprende a aceitar essa distância, a figura de Messi se torna ainda mais particular: a do ídolo máximo que nunca jogou no futebol local, mas que igualmente uniu um país.
Este artigo é uma adaptação de um artigo publicado por nosso site parceiro Top Mercato.



