Argentina

Entre parrillas e fernet: Conhecemos as deliciosas tradições culinárias da Argentina em dia de jogo

Choripan, sanduíches e Fernet com Coca são as principais pedidas dos torcedores que acompanham jogos de futebol no país hermano

BUENOS AIRES – Foi só a reportagem da Trivela se aproximar da esquina da Calle Brandsen com Del Valle Iberlucea, em pleno coração de La Boca, em Buenos Aires, na Argentina, que o cheiro de carne assando tomou conta do ambiente. Mais alguns passos e já foi possível encontrar as primeiras parrillas — churrasqueiras, em português — tomando conta das calçadas próximas ao estádio do Boca Juniors.

As parrillas davam um ar especial para o bairro que respira futebol e em meio à fumaça e um cheiro que daria fome em qualquer um, era possível ver as paredes azuis y oro do estádio Alberto J. Armando, popularmente conhecido como La Bombonera.

Ainda que não seja dia de jogo, as parrillas seguem tomando os arredores do estádio. Quase como uma mística, as chapas e carvão estão por todos os lados, sempre acompanhadas do rapaz que prepara as carnes, e volta e meia de algum cachorro esfomeado que passa pela rua, esperando que caia uma migalha ou farelo.

E não é só na Bombonera que essa mística acontece. Nas proximidades dos outros estádios argentinos, também sempre será possível encontrar uma parrilla cheia de carnes em cima. Choripan (o famoso pão com linguiça), bondiola (um sanduíche de carne de porco), pancho (o famoso cachorro-quente), hambúrguer (dispensa apresentações), e claro, sempre acompanhado das famosas salsas — ou molhos, em português.

O relógio marcava quase 12h30, as parrillas estavam a todo vapor. Quase sempre com um sorriso no rosto, os próprios assadores, ou algum garçom, me parava para oferecer um dos alimentos mais populares para quem frequenta estádio na Argentina.

Se o Brasil, há diferentes tipos de comida a depender da região, na Argentina é diferente, com menos opções, mas que agradam os fãs de futebol, seja em dia de jogo ou até mesmo em um dia comum, como quando a reportagem foi até La Boca para contar essa história.

Parrilla Argentina
Diego era o rapaz responsável por assar as carnes. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

Um choripan completo, por favor!

Apesar dos sanduíches serem febre na porta do estádio, eles estão espalhados por todas as ruas próximas. E algumas quadras de La Bombonera encontrei o Café Bar de Los Artistas.

Logo de cara fui muito bem recebida pelo asador Diego, que ficou bastante animado ao perceber a presença da reportagem no local.

— Aqui você encontra os melhores sanduíches — disse o rapaz com um grande sorriso no rosto. Na sequência, me apresentou aos seus ajudantes, Ezequiel e Edson.

O segundo, inclusive, fez questão de contar, com orgulho, que seu nome foi em homenagem a Pelé.

— Meu pai queria me batizar de Edson Arantes, mas aqui na Argentina não podia colocar nome e sobrenome de famosos. Como não autorizaram, ele colocou apenas Edson — contou o rapaz.

Por estar localizado em uma esquina bastante movimentada na região de La Boca, o Café Bar de Los Artistas recebe um grande fluxo de pessoas. Por isso, me sentei em uma mesa próxima à churrasqueira, pedi um choripan — carro-chefe da casa, e comecei a observar.

Um rádio tocava alto músicas latinas. Salsa, reggaeton, cumbia e merengue embalavam quem se aproximava para comer o famoso sanduíche de “cancha”. Turistas passavam e tiravam fotos da churrasqueira no meio da rua, com muitas carnes expostas.

Choripan é um dos sanduíches mais populares nas canchas argentinas. (Foto: Gabriella Brizotti/Trivela)

— Com salsa criola e chimichurri? — questionou Ezequiel, me perguntando se eu gostaria dos molhos que acompanhavam o sanduíche. O primeiro, uma espécie de vinagrete com tomate, cebola e vinagre. Já o segundo, um tempero um pouco apimentado, mas bastante saboroso. Ambos são comuns e servem como acompanhamento para os sanduíches.

Normalmente, o choripan ou qualquer outra comida de cancha na Argentina é acompanhado das tradicionais bebidas que os hermanos amam tomar. Fernet, uma bebida feita a base de ervas, e que normalmente se toma com coca-cola, cerveja ou a mistura de vinho com suco de pomelo. Como era hora do almoço, optei por um refrigerante, no entanto, para a experiência completa, uma das bebidas deveria ser tomada.

As primeiras mordidas no famoso sanduíche foram normais, parecia nada mais que um simples pão com linguiça. No entanto, depois que você começa a entender o contexto e viver o que o ambiente te propõe, tudo fica diferenciado.

Você pode comer um choripan em qualquer lugar, mas comer próximo a uma cancha é uma experiência única. O clima parece que muda. É a mesma coisa de comer um sanduíche de pernil em qualquer lugar que não o estádio do futebol. Há algo na mística que altera o sabor e a sua percepção.

Fernet
Sanduíches e Fernet na porta do estádio do Racing. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

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Uma noite de Copa

As ruas próximas ao estádio Presidente Peron, em Avellaneda, casa do Racing, estavam repletas de churrasqueiras, fumaça e ambulantes oferecendo copos de Fernet com coca ou cerveja na prévia do duelo contra o Flamengo, válido pela semifinal da Copa Libertadores de América.

Além das tradicionais churrasqueiras, também havia mulheres oferecendo sanduíches com queijo, salame e alface. Cada lanche era vendido por aproximadamente 4 mil pesos (R$ 15 na cotação atual), e era montado na hora.

Uma das vendedoras, muito gentilmente, ofereceu “por conta da casa” alguns cortes de salame e queijo para a reportagem, e contou que as vendas estavam sendo um sucesso. Além dela, outras tantas mulheres também vendiam sanduíches parecidos em outras regiões próximas ao estádio.

Mas de “natural” apenas o sanduíche, visto que quase sempre, ao lado da barraca do lanche, estavam também garrafas de Fernet, cerveja e vinho. Como em uma espécie de ritual, essas bebidas fazem parte totalmente do universo das canchas argentinas.

Sanduíche e Fernet
Sanduíches e Fernet na porta do estádio do Racing. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

Após o fim do jogo, as churrasqueiras seguiam nos mesmos lugares, agora oferecendo sanduíches e bebidas aos esfomeados após a partida. Vendedores com garrafas de Fernet também se misturavam aos torcedores gritando alto ‘hay Fernet com Coca, hay Cerveza’ (tem Fernet com Coca, tem cerveja). Alguns até mesmo se arriscavam no português e com um sotaque bastante portenho avisavam que estavam vendendo “cervejinha”.

Mais do que simples refeições de rua, as parrillas e os sanduíches das canchas argentinas contam histórias. São parte de uma tradição que vai além do futebol, unindo pessoas, sabores e paixões em torno de uma cultura que se vive com intensidade.

O cheiro da carne, a música alta, o ambiente e o barulho das torcidas formam uma cena que revela um dos verdadeiros espíritos do país: um lugar onde o futebol não se assiste apenas — ele se sente, se compartilha e, claro, também se saboreia.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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