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Dinizismo na Seleção brasileira já é realidade: veja o que funcionou e o que precisa melhorar

Fernando Diniz sai 100% de primeira Data Fifa e começa a enraizar estilo na Seleção brasileira

Dois jogos, duas vitórias. Seis gols marcados, um gol sofrido. 100% de aproveitamento… São números positivos a perder de vista e que indicam uma equipe quase perfeita montada por Fernando Diniz para sua estreia como técnico da Seleção. Mas o treinador, como bom psicólogo de formação, sabe que o futebol não é uma ciência exata e que há pontos a corrigir para que o Dinizismo funcione em essência, a pleno vapor, no Brasil para a sequência das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026.

O comandante, aliás, sequer esperava que a seleção brasileira jogasse fielmente ao seu estilo nestes primeiros dois compromissos – a goleada por 5 a 1 sobre a Bolívia, em Belém, e o 1 a 0 sobre o Peru, na última terça-feira (12), em Lima. Isso seria impossível em uma Data Fifa com apenas cinco treinos para implementar conceitos. Especialmente, com uma filosofia de jogo e metodologia de trabalhos tão única, que causou espanto a jogadores experientes como Neymar, Danilo e Casemiro.

“O Diniz faz um trabalho completamente diferente de tudo o que eu presenciei. É um outro tipo de futebol. Tem mentalidade muito diferente. A maioria dos treinadores faziam quase as mesmas coisas. O Diniz, não”. (Neymar)

Uma frase autoexplicativa, dita por Neymar na véspera do jogo em que ele superou Pelé para se isolar como maior artilheiro da história da seleção brasileira. Ela serve para dizer muitas coisas: como os jogadores aprovaram o trabalho do treinador, como a implementação desta nova filosofia é desafiadora… E por aí vai.

Ainda antes da vitória sobre o Peru, Diniz já havia dito que todos os jogadores estavam aprovados. Após a partida, ele garantiu que sai de Lima satisfeito com o que viu.

– Eu fico satisfeito com o que a gente apresentou. Na soma dos dois jogos, foi muito positivo. Jogar aqui era atmosfera totalmente diferente de jogar em Belém. A equipe fez três gols e valeu um. Deve ter ficado na margem mínima do mínimo. A gente não teve tanta fluência. O gramado é muito diferente daquilo que os jogadores estão habituados. Tiveram mais erros da parte técnica do que do normal. Um pouco do campo, um pouco de jogar de maneira acelerada. Mas o saldo é positivo – garantiu o técnico.

Dinizismo dá certo em primeiros testes

Em sua primeira conversa com o elenco, o técnico afirmou que o objetivo era devolver a alegria do brasileiro de assistir à Seleção. Diniz falou aos atletas que os dois lados – time e comissão técnica – precisavam ceder para que o trabalho desse certo. Ele fez referência à necessidade de implantar seu estilo de jogo em uma equipe acostumada por anos com o trabalho anterior, de Tite. Nesta busca incessante pelo meio-termo, as coisas funcionaram.

Em Belém, na goleada por 5 a 1 sobre a Bolívia, nem se fala. O time “apenas” bateu o recorde histórico de posse de bola da Seleção. O sorriso de Fernando Diniz ao ser perguntado sobre esta estatística na entrevista coletiva após a partida mostra bem o orgulho do técnico com o feito.

– Representa para mim. Todo mundo sabe que eu tenho um apreço muito grande de ficar com a bola. Mais do que isso, ser agressivo, criativo e criar muita chance de gol. Foi o cenário ideal de ter uma posse de bola eficiente. É o que a gente pretende fazer. É o início apenas – disse o técnico.

Contra o Peru, a Seleção teve momentos de aproximação e toques rápidos em que ficou mais de um minuto com a bola. Inclusive, a construção do gol anulado de Richarlison foi exatamente assim. A equipe trocou passes e mais passes e rodou até encontrar uma brecha nas linhas da defesa do Peru. A jogada foi anulada por um impedimento milimétrico.

Neymar livre vira até zagueiro

O ponto alto deste princípio de Dinizismo na Seleção é Neymar. Não apenas pelos gols e pelo recorde. O atacante atua com total liberdade de movimentação. Percorre todo o campo e vira até “zagueiro” em alguns momentos. Diniz o tem como grande protagonista do time e quer que o camisa 10 seja o fio condutor das jogadas da equipe. A lógica é simples: quanto mais um jogador diferenciado tiver a bola, melhor para a equipe.

– Jogadores que têm a qualidade acima da média, quanto mais vezes pegar na bola, melhor. Ele vai ter essa liberdade, porque qualquer lugar que ele pegar, sempre que a gente puder entregar a bola com qualidade, ele vai ter essa liberdade de flutuação – analisa o técnico.

Time precisa de mais “paciência”

Diniz também diagnosticou um “erro” da equipe dentro de sua filosofia na partida contra a Bolívia. O termo vem entre aspas, porque o próprio treinador contemporizou, ao lembrar que o Brasil ainda está acostumado com o estilo de jogo de Tite.

Na avaliação do treinador, a Seleção por vezes acelerou as jogadas antes da hora para tentar furar o bloqueio da defesa peruana. Algo bastante mecanizado no trabalho anterior e que Diniz garante querer potencializar. Mas o técnico também entende que a equipe poderia rodar mais a bola com agressividade para encontrar espaços antes de acelerar o ataque.

– Eu acho que a gente estava acelerando muito. A gente errou boa parte dos passes por tentar verticalizar demais, porque é a característica do time. Eu não quero tirar isso. Quero potencializar. Mas às vezes, é preciso ter um pouco mais de uma paciência agressiva. Aproveitar as características de jogadores hábeis – analisa.

Busca por um camisa 9

A grande missão para a próxima Data Fifa passa pela camisa 9. Diniz deu um voto de confiança a Richarlison, titular nas duas partidas, muito porque Gabriel Jesus ainda não está 100%. O atacante vive momento conturbado dentro e fora de campo, como o desabafo feito em Lima pode provar. Ele ainda precisa encontrar a regularidade para corresponder à altura. A tendência para a próxima Data Fifa é que o centroavante do Arsenal seja o titular. Vitor Roque também deve ser chamado. 

A Seleção soma seis pontos nas duas primeiras rodadas e fica confortável na liderança, com seis pontos. A Argentina é a outra seleção que tem 100% de aproveitamento. O Brasil volta a campo apenas na próxima Data Fifa, em 12 de outubro, às 21h30 (horário de Brasília), para enfrentar a Venezuela na Arena Pantanal. Depois, o adversário será o Uruguai em Montevidéu.

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Eduardo Deconto nasceu em Porto Alegre (RS) e se formou em Jornalismo na PUCRS. Antes de escrever para a Trivela, passou por ge.globo e RBS TV.
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