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Ele não é bagre: explicamos como Corinthians não está sabendo aproveitar Yuri Alberto (que também é culpado)

Que o Yuri Alberto não vive bom momento, todos já sabem, mas ele está longe de ser a raiz do problema (por mais que também faça parte dele)

O Corinthians não está bem, e isso não é de hoje. A primeira derrota para o São Paulo na Neo Química Arena, que aconteceu na última terça-feira (30), por 2 x 1, pela 4ª rodada do Campeonato Paulista, serviu para piorar ainda mais o clima no início da temporada. Entre os culpados apontados pela torcida (e pela imprensa) está Yuri Alberto, que também está longe de apresentar seu melhor futebol.

O domínio de barriga do centroavante no meio-campo virou um dos memes após o Majestoso. Aliás, o camisa 9 do Timão tem virado motivo de piada há alguns meses, seja por perder gols inacreditáveis, por amassar a pelota ou até mesmo ser chamado de “burro” pelo próprio técnico Mano Menezes, para todo mundo ouvir. Em meio a esse cenário, as pessoas desenvolveram uma opinião de que Yuri Alberto é grosso, ruim de bola.

Contudo, adianto que ele não é bagre. Como não sou advogado do atleta, também não vou dizer que ele é um gênio incompreendido. Mas a verdade é que o Corinthians não está sabendo aproveitar o centroavante que tem. Ele não é a raiz do problema (por mais que faça parte dele), e a Trivela vai explicar o que tem causado a queda de rendimento do camisa 9 alvinegro, que também tem sua parcela de culpa.

O que está acontecendo com Yuri Alberto no Corinthians?

Primeiro de tudo, é preciso explicar quem é Yuri Alberto e suas características dentro de campo. Formado pelo Santos, o atacante deixou a Vila Belmiro para assinar com o Internacional em 2020. E não demorou muito para ele se destacar no Beira-Rio. Ao todo, foram 31 gols em 85 jogos pelo Colorado, que o vendeu para o Zenit em janeiro de 2022 por € 25 milhões (cerca de R$ 149 milhões à época).

Sem muito sucesso na Rússia, Yuri Alberto chegou ao Corinthians por empréstimo em junho do mesmo ano. Mais uma vez em pouco tempo, ele impressionou por sua qualidade ofensiva. Não à toa, o Timão fez uma mega operação para contratar o centroavante em definitivo no início da última temporada, quando envolveu vários jogadores para adquirir os direitos econômicos do camisa 9.

O problema é que, principalmente do meio de 2023 para cá, Yuri Alberto não apresentou as mesmas atuações de sua primeira temporada no Parque São Jorge. Se antes o atacante fazia muitos gols e era uma ótima opção lá na frente, agora ele é conhecido por perder lances fáceis, além de um controle de bola que se tornou duvidoso. Um spoiler: a falta de confiança contribui para tudo isso.

Então, a pergunta que fica é: o que está acontecendo com Yuri Alberto no Corinthians? Isso é o que tentamos responder.

Corinthians minou suas características

Analisamos os 31 gols de Yuri Alberto no Internacional e os 26 pelo Corinthians. Trago dados interessantes: pelo Colorado, a maioria deles (para não dizer todos) aconteceram dentro da área. Majoritariamente (20), ele recebeu a bola já dentro da área, seja através de cruzamento pelo alto, passe por baixo, rebotes ou jogadas de contra-ataque. Em seis deles, o atacante saiu em velocidade com a bola no pé para marcar.

Os outros estão divididos em pênalti, aproveitando erro da defesa adversária ou receber um passe (geralmente na entrada da área) para dominar e bater. Pelo Timão, foram incríveis 21 gols dentro da área, seja de cabeça, completando com o pé, de rebote, ou entrando na área para chutar. Os demais foram chutes de fora da área ou pênalti. Notou um padrão?

Yuri Alberto tem como característica apelar mais à grande área. Ora bolas, se ele é o centroavante, é lógico que ele prefere jogar mais perto do goleiro. Mas aí eu te pergunto: com que frequência o camisa 9 do Corinthians tem recebido passes, cruzamentos, rebotes nesse setor nos últimos jogos? Pouquíssimas vezes. Por conta disso, o jogador se vê obrigado a se aproximar mais do meio-campo ou das laterais para ter a posse.

Aí que mora um dos problemas. Yuri Alberto não é centroavante especialista em realizar o chamado “pivô”, recebendo a bola de costas para o gol, segurando o zagueiro. Um de seus principais atributos é a velocidade, e é difícil sair em disparada à grande área se ele fica buscando a bola em outros setores. A causa disso é a ineficiência na criação dos lances. Sem Renato Augusto (que vinha se lesionando demais), Matías Rojas ainda não assumiu esse papel.

Róger Guedes faz falta

Mesmo quando o Timão não tinha alguém responsável por armar as jogadas desde atrás, Yuri Alberto sabia que podia contar com Róger Guedes. O atacante é um ponta agudo, que sabe carregar a bola, driblar e tinha uma ótima finalização. E a parceria do ex-camisa 10 do Corinthians com o centroavante era ótima, já que o entrosamento da dupla geralmente terminava no fundo das redes.

Com a saída de Róger Guedes para o Qatar, Yuri Alberto ficou sozinho lá na frente. Até o momento, o Timão não encontrou alguém para ajudar o camisa 9 no ataque, para dividir a responsabilidade. Com isso, ele ganha uma pressão ainda maior quando a bola chega mais perto do gol. Errar uma vez, duas, três e assim por diante, acarreta uma pressão exponencial para o jogador, que ainda não sabe lidar com isso.

Aqui vale ressaltar a idade de Yuri Alberto, 22 anos. Como estourou cedo no futebol, a impressão que fica é que o centroavante deveria não sentir o peso da camisa 9 do Corinthians. Contudo, o fator psicológico acaba virando um empecilho para ele, que é criticado constantemente. Em alguns momentos, essas cornetas são mais do que justas, pois certos erros são realmente inadmissíveis.

Instabilidade do Corinthians

A instabilidade do Corinthians também atrapalha. Desde que retornou ao Brasil, Yuri Alberto já foi treinado por Vítor Pereira (que foi quem melhor aproveitou sua habilidade, mas saiu da forma que foi), Fernando Lázaro (em seu primeiro trabalho na área técnica), Cuca (envolvido em escândalo de abuso na Suíça, décadas atrás), Vanderlei Luxemburgo (que chegou e foi embora muito cobrado) e Mano Menezes (que também já balança).

Com cinco treinadores em menos de dois anos, fica difícil para o centroavante (e todo o Timão) desenvolver seu estilo de jogo. Se cada cabeça pensa o futebol de um jeito, a troca excessiva no comando só serve para prejudicar o time. Consequentemente, Yuri Alberto é afetado por todo bastidor instável do Corinthians, que precisa (urgentemente) viver tempos mais simples.

Yuri Alberto também é culpado

Deixo claro que isso não é um trabalho de assessoria do Yuri Alberto, que também precisa fazer sua parte para dar uma resposta à torcida. Se a época é de vacas magras na construção de jogadas, o centroavante não pode perder as poucas oportunidades que tem, principalmente aquelas em que ele erra o domínio, ou manda a bola para fora do estádio.

Mesmo com toda a turbulência que envolve a má fase, é preciso tentar ter o máximo da calma possível dentro de campo. Ir buscar a bola lá no meio-campo para falar que tem participado do jogo não é a melhor saída. Aqui cabe o trabalho do técnico, que tem que encontrar novas alternativas para a construção das jogadas. Yuri Alberto sair de sua posição para ficar falhando de forma grotesca só serve para validar as críticas que ele recebe.

Agora, existe um interesse do Wolverhampton em contratá-lo por empréstimo. Se o atacante sair, ele pode encontrar seu melhor futebol na Premier League, caso o treinador saiba aproveitar o perfil do atleta. Caso Yuri Alberto permaneça no Timão, cabe a ele fazer aquilo que está em suas mãos para voltar a jogar bem. O camisa 9 do Corinthians não é bagre, mas precisa parar de cometer erros bobos para provar isso.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

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