Brasileirão Série A

Separados por um Dorival: contratação do técnico mudou rumos de São Paulo e Corinthians em 2023

Quando o São Paulo estava perto de fechar com Dorival, Corinthians teve chance de atravessar negociação, mas acabou em ciclo de técnicos até chegar em Mano Menezes

O presidente Julio Casares deixa a casa de Dorival Júnior, em Florianópolis, acertado com o técnico para assumir o São Paulo, e instantes depois o telefone do treinador toca com um chamado de um intermediário ligado ao Corinthians… Mas já era tarde demais. Foi assim, por alguns poucos minutos de diferença, que foram traçados os destinos dos dois rivais que se enfrentam no Majestoso deste sábado (30), às 18h30 (horário de Brasília), no Morumbi, pela 25ª rodada do Brasileirão.

Os relatos sobre o episódio são difusos, com versões de parte a parte. Pessoas que participaram da negociação com o Tricolor contam que o chamado partiu de um representante do Corinthians. Do outro lado, o Alvinegro atesta que o técnico que teria sido oferecido ao clube, e não o contrário.

O fato é que o treinador assumiu o São Paulo para comandar uma reviravolta na temporada do clube. Dorival pegou um elenco desacreditado e o levou ao título inédito da Copa do Brasil. Já o Corinthians fracassou com Cuca, e não foi lá muito bem com Vanderlei Luxemburgo, os técnicos que assumiram o clube após a saída de Fernando Lázaro – e agora, Mano Menezes vem aí. A Trivela resgata toda essa história abaixo.

Dorival muda os rumos do São Paulo

Dorival assumiu o São Paulo um dia depois da reunião em Florianópolis com Julio Casares. Encontrou no CT da Barra Funda um clube e um elenco que certamente se contentariam em evitar o que seria o primeiro rebaixamento da história no restante do ano. A queda para o Água Santa nas quartas de final do Paulistão e o ambiente pesado pela relação desgastada entre jogadores e Rogério Ceni ditavam o tom de jogadores desacreditados nas próprias forças. Tudo isso mudou a partir da troca de comando.

De imediato, Dorival reuniu todos os atletas no vestiário para dizer – ou profetizar – que o São Paulo brigaria por coisas grandes ainda em 2023. A incredulidade com que todos receberam aquelas palavras virou fôlego novo para iniciar um trabalho em meio à temporada. O Tricolor engatou 12 jogos seguidos de invencibilidade, naquela que é a maior arrancada de um técnico pelo clube no século 21. Mas a equipe oscilou, especialmente no Brasileirão, em que ficou oito jogos sem vencer até a vitória sobre o Coritiba, na última quarta-feira (27).

É que com Dorival, o São Paulo virou o time das copas e deixou o Campeonato Brasileiro em terceiro plano – até a Sul-Americana, em que o clube amargou uma eliminação para a LDU, estava na frente. Mas tudo valeu a pena com o título inédito da Copa do Brasil, com um roteiro dos sonhos, que parecia até obra do destino. Para chegar à final, o Tricolor passou pelos rivais Palmeiras e Corinthians. E deu a Dorival uma chance de vencer o Flamengo, seu ex-clube, na grande final.

– Poucas pessoas têm noção do que foi feito no São Paulo. Do trabalho, do comprometimento, de poder resgatar um grupo magoado, mas que entendeu o recado. Passou a acreditar no que foi proposto. Para chegar a um momento que talvez seja inigualável nos últimos anos de história do clube. Um grupo que foi questionado, que foi humilhado no Paulista e que meses depois conseguem dar resposta tirando dois dos maiores adversários no São Paulo. E o campeão da América e o campeão da Copa do Brasil. Isso não tem preço. E o principal talvez nem seja a Copa do Brasil. Mas o resgate do amor do torcedor – afirma Dorival.

Clube já pensa em renovação

A parceria deu tão certo, que a diretoria do São Paulo já pensa em renovar o contrato com Dorival Júnior, mesmo que o vínculo seja longo, até o fim de 2024. O clube pretende que o treinador seja o comandante de um projeto a longo prazo que começou ainda em 2023. O título da Copa do Brasil muda o patamar do Tricolor para a próxima temporada, especialmente em sua postura no mercado

No ano que vem, o São Paulo volta a disputar a Libertadores, e para isso, Dorival conta com a manutenção do elenco e a chegada de três peças de nível semelhante aos dois reforços para o segundo semestre – Lucas Moura e James Rodríguez. A premiação de R$ 88,7 milhões pela Copa do Brasil permite ao clube só vender jogadores em caso de propostas irrecusáveis, por cifras que permitam ao Tricolor ter fôlego para buscar peças de reposição à altura.

– Não tenho receio afirmar que o São Paulo caminha a passos largos para voltar a ser a equipe que sempre foi. Se o São Paulo quiser alcançar recursos vai ser por conquistas e campeonatos, vai vender mais cara a camisa, vai trazer ao invés de 20, vai trazer 50, 60 mil todos os jogos. Temos que ter um grande time para que isso aconteça. Não podemos ficar à mercê de vendas a todo momento. Natural que tenha que vender, pode ser que aconteça, mas teremos tempo para uma reposição – ressalta Dorival.

Corinthians demorou para procurar Dorival, e sofreu muito por isso 

Voltando ao fim da temporada de 2022, quando Vitor Pereira deixou o clube para assumir o Flamengo, o Corinthians teve a oportunidade de buscar Dorival Júnior, que havia conquistado a Libertadores da América e a Copa do Brasil com o Rubro-Negro, inclusive com uma vitória sobre o próprio Timão. No entanto, a diretoria decidiu tomar outros rumos naquele momento, e quando tentou já era tarde: o São Paulo fechou com o treinador, e conquistou o título inédito da Copa do Brasil de 2023.

Sem escolher Dorival e sem nenhuma outra opção válida no mercado, uma vez que Tite, o plano A, afirmou que não pretendia trabalhar no Brasil, a diretoria optou pela efetivação de Fernando Lázaro, que na época fazia parte da comissão técnica de Tite na Seleção Brasileira. Com ele, o Corinthians foi eliminado no Paulistão pelo Ituano, e na Copa do Brasil, perdeu para o Remo fora de casa, o que resultou na demissão do profissional.

A chegada de Cuca foi, em todos os aspectos, um erro, pois quando Cuca assumiu o comando da equipe, a torcida já havia se manifestado contra a possibilidade de o treinador chegar ao Parque São Jorge. Mesmo assim, a diretoria fechou o contrato, não prevendo a quantidade de críticas e protestos que a torcida faria. É importante ressaltar que Duílio não demitiu Cuca; foi o próprio treinador que optou por encerrar o seu trabalho no Alvinegro.

Para corrigir a situação e dar um respiro, Duílio recorreu a Luxemburgo, que foi demitido na última quarta-feira, e deixou o Corinthians na 11ª posição do Campeonato Brasileiro, com 30 pontos. 

Majestoso será palco da virada de chave do Corinthians 

Sem Luxemburgo e sem iniciar negociações com Tite, a diretoria do Corinthians optou por recorrer a Mano Menezes, outro treinador conhecido da torcida, que retorna ao comando do Alvinegro após nove anos. Mano estava disponível no mercado desde julho, quando foi demitido do Internacional.

Embora tenha começado a trabalhar com o elenco na quinta-feira, a estreia do treinador no banco de reservas do Timão terá que aguardar mais alguns dias, pois Mano precisa cumprir uma suspensão devido a um terceiro cartão amarelo que recebeu enquanto era treinador do Internacional. O jogo em questão foi contra o Palmeiras, e a partida terminou em empate sem gols.

Com Mano ausente no banco, a responsabilidade de comandar a equipe no Majestoso recairá sobre os auxiliares Sidnei Lobo e Cauan de Almeida, este recém-chegado do Internacional.

Na sexta-feira (29), Mano concedeu sua primeira entrevista coletiva e abordou diversos tópicos, incluindo sua abordagem para o Majestoso e a qualidade do adversário:

– Tem um grande adversário pela frente, acabou de conquistar título (da Copa do Brasil), está empolgado, nós vamos enfrentar esse ambiente. O treinador tem que tomar cuidado com os jogadores que vai colocar lá. É fácil tirar uns e expor outros. Vamos escolher os melhores sem ter o risco de algum jogador com desgaste excessivo para terça. Vamos colocar o que puder, o jogo exige, o adversário é duríssimo – disse o treinador.

As duas últimas passagens de Mano pelo Corinthians não ocorreram em momentos tranquilos. A primeira foi quando o Corinthians estava na Série B do Brasileirão, e a segunda ocorreu em 2013/2014, quando o time passou por uma crise de renovação de elenco após a conquista da Libertadores e do Mundial.

Agora, a situação não é diferente. Além da falta de vitórias no Campeonato Brasileiro, o Alvinegro enfrenta a semifinal da Copa Sul-Americana, uma situação delicada, visto que o primeiro jogo terminou em empate em 1 a 1, e a partida de volta será realizada no Castelão.

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Jornalista pela PUCRS, é setorista de Seleção e do São Paulo na Trivela desde 2023. Antes disso, trabalhou por uma década no Grupo RBS. Foi repórter do ge.globo por seis anos e do Esporte da RBS TV, por dois. Não acredite no hype.
Foto de Jade Gimenez

Jade Gimenez

Jornalista, fascinada por esporte desde a infância e transformou a paixão em profissão. Além do futebol, se mantem por dentro de outras modalidades desde Fórmula 1 até NFL. Trabalhou como repórter em TV e rádio cobrindo partidas de futebol, futsal e basquete.
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