Brasil

Semana foi pesada, mas Brasil, organizado, respira na estrela de Endrick

Após semana de discussão sobre casos de Daniel Alves e Robinho, Seleção respira com Endrick e nova turma

É inevitável falar de Daniel Alves e de Robinho, ainda mais diante da péssima abordagem do técnico Dorival Júnior na véspera, em pleno sábado de Inglaterra x Brasil em Wembley, um jogo mítico desde sempre. O pré-jogo foi pesado, a camisa amarelinha (às vezes azul) anda tão maltratada, mas é simbólico em dias de mudança, de ruptura geracional em sentidos mais importantes do que a bola rolando em campo, ver surgir o gol da vitória por 1 a 0 em rebote de Endrick após jogada de Vinicius Jr., numa nova turma que, espera-se, ganhe jogos e seja mais responsável com o papel de mega estrela do futebol.

Endrick, um furacão de 17 anos, botou para dentro depois de oitenta minutos em que o time conseguiu competir em todos os momentos, não passou sufoco e criou (e perdeu) as melhores chances do duelo. E ainda que o desempenho já fosse satisfatório diante das circunstâncias de tantas estreias e de um ano passado que terminou sendo um borrão, ganhar na Europa, de uma campeã do mundo, com gol de garoto, é um respiro de alto astral após dias ruins por conta de velhos ídolos, aqueles que não estão livres para assistir um futebolzinho no bar de sábado à tarde.

O Brasil não ganha a Copa há vinte e dois anos, e se fôssemos montar uma seleção desse período de seca o lateral-direito e o segundo atacante estariam presos por estupro. Dois personagens que nos principais clubes do mundo e também no time nacional conseguiram juntar resultado e encanto, vitórias e dancinhas de comemoração. A alegria, aquela referência de futebol sorridente para tantas e tantos ao redor do mundo, sucumbiu em homens agressores, violentos, misóginos e, pior, que nem sob o risco de punição deixaram de debochar de quem é vítima. É inevitável que seja um sinal marcante sobre o que o ambiente não pode mais ser.

Há uma clara mudança no perfil dos futebolistas de elite. O despojamento foi, à marra, sendo trocado pelo profissionalismo, e isso tem reflexos dentro e fora de campo. Os meninos ainda pegam seus talentos e, dedicados à rotina do esporte desde muito novos, rumam ao caminho do sucesso. De repente, são super-heróis, milionários e donos do mundo com tudo às mãos e uma certeza: nada pode me derrubar. “Não vai acontecer nada”, disse Robinho, num áudio asqueroso. Aconteceu. Primeiro com as mulheres agredidas, claro, em coragem de denúncia e um trauma para levar por toda a vida; segundo com os ídolos de uma geração. O Pedalada, finalmente conduzido a cumprir no Brasil a pena firmada na Itália, e o Good Crazy, ainda sob a possibilidade de liberdade provisória sob pagamento de fiança, duas enormes referências do campo e do pagode, estão na cadeia.

E se a punição, o cárcere e as decisões da justiça não são necessariamente educativas – que o diga Bruno, covarde e sádico feminicida, anos e anos atrás das grades para jamais assumir o crime e, pior, sem nunca ter deixado de receber propostas de trabalho como goleiro, mesmo quando sob regime fechado –, que ao menos ter uma dupla de tantos gols, dribles, convocações, assistências e participações em Mundiais condenados sirva como uma tomada de consciência pelo susto.

Tudo isso sem ignorar que o caminho de reflexão ainda é longo, já que para muitos, tal qual o treinador da seleção Dorival Júnior, ainda estamos nos primeiros passos de uma longa maratona. A postura e as palavras do novo técnico do time nacional na véspera do jogo em Londres foi constrangedora. Amizade, pessoa fantástica? A camaradagem masculina, esse status quo intransponível, pelo menos chacoalhou com a presença de Leila Pereira como chefe da delegação. A presidente do Palmeiras, à parte os evidentes conflitos de interesse e a postura antidemocrática no clube, é uma ótima notícia nesse caminho de arejar a resenha não só masculina, mas masculinizante, alienada. Foi firme em falar do tema antes dos machões da CBF.

Enfim, são dias muito tristes para quem ama essa camisa e para quem de alguma forma tem até a própria vida confundida com o futebol. A provocação de Danilo, de que a entidade precisa institucionalizar projetos sobre o assunto, e a nota tardia da Confederação são um alento, ainda tímido, de que podemos quem sabe estar começando um novo momento. Um salve também às mulheres do jornalismo esportivo que tanto apanham da audiência por falar o óbvio que, aliás, os homens com dez, vinte e trinta anos de casa às vezes dão voltas para não se aprofundar.

Bom, ao campo. Depois da rápida e meio inútil passagem de Fernando Diniz, Dorival armou em Wembley uma saída mais convencional, usando os laterais numa linha de quatro e os dois volantes buscando, fazendo parecer até um 4-2-4, a depender do balanço de Paquetá. Foi um jogo de muita organização e consistência, indispensáveis depois da loucura que foi o pós-Copa de dois interinos, dessa vez sem correr atrás do rival em momento algum. O próprio Paquetá, de volta ao time, foi o coração da seleção, se excedendo nas faltas, mas competindo e dando os tapas certos para chegar na frente. Inquieto, ofereceu um gol para Vini, bateu uma bola na trave, tirou tinta numa chapa de fora e pentelhou os ingleses o jogo todo. Fez muita falta em 2023.

Retorno de Paquetá fez diferença contra a Inglaterra (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Bruno Guimarães e João Gomes não chegaram a construir um domínio brasileiro com a bola, mas deram o gás típico de jogos da Premier League. É como se o Brasil tivesse igualado um confronto médio do futebol inglês, inclusive jogando duro e batendo legal em Jude Bellingham, adicionando o talento de Vinicius e Rodrygo na frente. Mas o ataque perdeu muitos gols, os mais evidentes com Vini, em duas das várias boas chances criadas dentro da área. Raphinha roubou uma bola esperta e também bateu mal. A movimentação sem centroavante teve momentos bonitos, Rodrygo faz bem demais esse ponta-de-lança com momentos de nove, mas faltou alguém estar numa noite de homem-gol. Para um recorte de melhores momentos, uma jornada de finalizações frustrantes.

Vieram as mudanças e o time teve naturalmente a estrutura remexida. A comissão usou as seis trocas permitidas, e na primeira dupla de substituições, ainda no início da segunda etapa, Dorival teve a estrela de gol. Andreas e Endrick substituíram dois dos melhores em campo, Paquetá e Rodrygo – o primeiro entrou esperto para roubar e lançar, e o segundo acompanhou a sobra para ir às redes depois de mais um tento perdido por Vini. Nos acréscimos, Andreas rolou para o segundo do palmeirense, que perdeu cara a cara.

A seleção, que acumulava atuações ruins contra quem viesse pela frente (Marrocos, Senegal, Uruguai, Colômbia, Argentina), subiu para o gramado em Londres sob natural desconfiança. Agora, tem o direito a sorrir um pouquinho com um jogo de visitante em que chegou tantas vezes de frente para o gol inglês. Beraldo é ótima notícia, Danilo sustentou bem na direita, Paquetá é titular do time, e João Gomes fez valer a chance de titular. Bruno, Wendel, Raphinha, todo mundo competiu demais. Rodrygo e Vini estiveram à vontade, Andreas entrou acertando bem o tempo de bola nos lances finais, e Endrick, bom, ele contou depois da partida que perdeu a concentração porque ficou lembrando do gol que fez em Wembley jogando… videogame. Não é que o adolescente tem estrela, parece ser ela própria. Que seja um bom vento para um novo momento, naquela esperança de sempre de ver a seleção sendo a graça que dela se espera.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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