Brasil

Seleção é excelência, e desconfiança técnica com convocação é justa

É possível que a gente entenda por que as pessoas de forma geral olham para a lista de jogadores e não encontram o entusiasmo da excelência técnica

Toda convocação da seleção brasileira vem acompanhada do contraditório festival das pessoas que não se importam com o time nacional, mas não se importam tanto, mas tanto, com tanta força, de forma realmente tão desimportante, que elas vão até a janela gritar para todo mundo saber: quem se importa! Fazem isso uma meia dúzia de vezes por ano, porque precisam lembrar que não estão nem aí, que a amarelinha é algo menor, que já foi, que já deu, que não é possível que vocês estão mesmo ligando para isso. Como a gente não está fazendo nada para retomar essa relação de forma mais totalizante (nem CBF, nem imprensa, nem clubes, nem torcida, nem jogadores), então vamos com o que tem para hoje de forma mais direta: o campo está devendo, e desconfiar do elenco da Seleção é mais do que natural e aceitável, é justo.

Para além dessa questão estrutural e geracional – primeiro porque o ambiente do futebol não tem intenções concretas de reconectar o time nacional aos apaixonados pelo esporte, ainda mais com um cenário de maniqueísmo político, segundo porque o próprio futebol de seleções ganha outro sentido com a conjuntura do jogo e dos negócios esportivos hoje –, é possível que a gente entenda por que as pessoas de forma geral olham para a lista de jogadores que se apresentam a Dorival Júnior na Europa e não encontram o entusiasmo da excelência técnica, não enxergam ali o impacto de estarem diante de uma nata que represente quem de melhor pode tratar a bola num país em que toda criança sonha ser jogador.

De partida é preciso aceitar que a corneta sobre a seleção brasileira parte de um sentimento genuíno, de uma paixão avassaladora, de um afeto fundador de uma autoestima esportiva, cultural e artística que instituiu o futebol vivenciado e apresentado por aqui como, em muitas e muitas vezes na história, o que de melhor poderia ser jogado. Éramos reis. Não é que o Brasil acordou um dia e decidiu que o caminho era ser arrogante no futebol, é que sobravam craques aos montes, vários em cada time do campeonato, tantos ídolos sem espaço de fardar num jogo de verde e amarelo. A gente levantava a Copa com goleada e os caras estavam aqui na esquina jogando o Rio-SP. O que a gente ganha topando ser só mais um time, ao nível de Bélgica e Croácia, por exemplo, para pegar os dois algozes mais recentes?

Realmente me espanta um certo choque de normalidade que boa parte da crítica esportiva coloca diante do atual momento da seleção, como se preferir a régua lá em cima, como se ter o time brasileiro na primeira prateleira da exigência técnica, fosse mera nostalgia, projeção irreal diante dos fatos. Mas se trata do maior time de todos os tempos. A camisa amarela é aquela que, inevitavelmente, vai sempre mirar no que se tem de melhor em termos de resultado, de qualidade e de encanto. É fácil? Claro que não.

O problema é que essa caça ao saudosismo mira numa coisa e acaba acertando em outra. Depois do vexame de tomar sete gols num jogo de Copa em casa, muito se questionou uma certa prepotência do país, que não teria tido a humildade de entender que o jogo evoluiu ao seu redor. Eu discordo da origem dessa ideia porque não acho que seja preciso um banho de modéstia, mas sim que se crie um ambiente cuja confiança e identidade possam dar conta de lidar com a expectativa mais superlativa que se tem. Vale para o Real Madrid na Champions League, para o basquete dos Estados Unidos e para tantos dos grandes campeões – conviver com a grandeza e jogar com ela, não recusá-la.

E é claro que a geração atual não é uma porcaria, pelo contrário. O Brasil continua vendo brotar um talento atrás do outro e há ótimos valores surgindo a cada semestre. Acontece que se espera que o nível apresentado seja alto, o maior, que se chegue lá para puxar a fila. Foram duas Copas perdidas em completo estado de aceitação e trivialidade para duas ótimas equipes, o melhor elenco belga de todos os tempos e uma cascuda e competitiva turma croata, mas que nem chegaram na decisão (a segunda inclusive foi atropelada pela campeã) e não eram exatamente o grande rival a ser batido. Não adianta querer convencer o torcedor que é meio que isso mesmo, o esporte anda equilibrado, o resultado vem num detalhe, etc. É óbvio que é preciso mais.

É importante decifrar também o que o êxodo de jogadores no contexto atual tem oferecido de contraponto negativo à reunião do time brasileiro, porque se por um lado os meninos estão logo mais adaptados ao esporte praticado na Europa que, via de regra, é mais próximo aos torneios de seleções, por outro acabam muitas vezes sem desenvolver maiores protagonismos ou disputar os principais títulos. O país nunca debateu de fato o que é ter seus melhores jogadores jovens indo atuar na Ucrânia ou no meio da tabela do Campeonato Inglês. O que é ir para o maior torneio de todos eventualmente sem nunca ter sido referência para valer de camisa alguma. Quantos jogadores nas últimas três Copas do Mundo a gente pode cravar que viveram seus grandes momentos tecnicamente nas semanas do Mundial? Por que a Seleção não tem sido o momento do brilho máximo possível?

No meio disso tudo, Dorival Júnior estreia com oito novatos na seleção principal, quase um terço num grupo de 26, e conta nos dedos os remanescentes da última Copa: apenas Danilo, Bremer (na última hora), Bruno Guimarães, Paquetá, Raphinha, Richarlison, Rodrygo e Vini Junior. Tem tanta gente a passar pelo trote de debutante quanto alguém para contar como é enfrentar uma seleção europeia num jogo valendo, no eterno retorno à dificuldade de se criar lideranças e lastro num vestiário que se encontra, quando muito, uma vez por mês. A lista não empolga, e o mais flagrante é pensar que ninguém grita por uma grande ausência, nossa marca registrada naquela sensação que sempre foi de abundância.

No fim, a partir dessa semana o novo treinador tem uma missão complicada, porque tripla. Ele precisa entregar competição depois do inútil ano de 2023, quando nem Ramon, colocado sabe-se lá por que, nem Fernando Diniz, efêmero e sem urgência, deixaram algum legado de disputa. Precisa achar um time, já que à exceção de Vinicius Junior, o único titular absoluto do grupo, é uma convocação majoritariamente de pessoas ainda coadjuvantes. E precisa dar passos consistentes rumo ao futuro, por exemplo, confortando Rodrygo e firmando Beraldo e Endrick em posições acessíveis para que o amanhã comece agora e os meninos se formem jogadores de elite, de fato. No meio disso, nos mostrar que há, sim, um futebol digno de seleção brasileira, não importa se partindo de um sentimento projetado ou pesado demais, mas que se impõe, que está dado, e não se pode voltar atrás no país de Pelé, Mané, Zico, Ronaldo e tantos outros artistas. A ver o primeiro passinho no sábado, direto de Londres (e não custava nada se esforçar para ser aqui também).

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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