Champions League

Implacável, Real Madrid martela único erro do Liverpool e fica com sua 14ª taça da Champions

Vinícius Júnior apareceu para decidir a final em Paris com gol de puro oportunismo nas costas de Alexander-Arnold

Não adiantaram as dezenas de finalizações, a agressividade e a fome de se vingar por 2018: o Real Madrid fez o jogo que todos esperavam, teve paciência para aguardar uma brecha e venceu o Liverpool mais uma vez para ficar com o título desta edição da Liga dos Campeões. Com gol solitário de Vinícius Júnior, os merengues levaram a melhor por 1 a 0, neste sábado (28), no Stade de France, em Saint-Denis.

O lado mental incomparável

As batalhas vencidas pelo Real Madrid ao longo da competição deram a casca necessária para chegar na final com o lado psicológico afiado. E não é como se estivéssemos falando de um time que desconhece decisões continentais. Maior campeão com ampla distância para os demais, o esquadrão de Carlo Ancelotti desafiou a lógica até mesmo nos 90 minutos derradeiros da campanha, suportando uma pressão absurda e marcando em uma de suas poucas chances criadas. O Liverpool, que conquistou duas taças na temporada, também estava bastante familiarizado com decisões, mas talvez tenha faltado um pouco mais de fôlego para pressionar nos minutos finais.

O futebol que conhecemos diz muito pouco sobre justiça ou merecimento. Talvez em pontos corridos, essa lógica se aplique, mas na terra do jogo único, o que conta é a bola na rede. Em um dia comum, o Liverpool teria goleado, passado o carro no adversário, mas simplesmente não era para ser. A resposta, porém, não é mística ou sobrenatural, ela tem um nome: Thibaut Courtois. Crucial para evitar todos os chutes que foram na sua meta, o belga barrou quem quer que inventasse de arrematar ao gol. E isso facilitou o caminho madridista na construção do placar.

Em que outro confronto, o time que chuta 24 vezes perde por 1 a 0 do que chuta apenas 4? O colosso Real Madrid se faz também na versatilidade, sabendo defender muito bem, e mesmo quando o destino parecia querer uma virada dos Reds, lá estava Courtois, implacável, crescendo na frente de Sadio Mané e Mohamed Salah, principais artífices do ataque inglês.

Paredão das nove defesas

Courtois foi o homem do jogo por ter aparecido bem em todas as vezes que foi acionado: as incríveis nove defesas tiveram espalmadas, reflexo de goleiro de futsal e até um pouco de sorte, como foi num lance de Salah junto à trave, na segunda etapa. É impossível contar a história desse título sem o arqueiro, que vive seu grande momento e já tinha feito atuações gigantescas nas fases anteriores.

A abstração necessária para ignorar o placar nos mostra que o contexto do jogo foi bastante semelhante à classificação dramática diante do Manchester City. A diferença é que não havia desvantagem no marcador e que o gol salvador não ocorreu no apagar das luzes. Quando surgiu o espaço para a jogada do gol de Vinícius Júnior, ele teve de sair no único dos erros incontestáveis do Liverpool.

Poucos e imperdoáveis erros

Mas antes, voltemos aos instantes que antecederam o intervalo: Karim Benzema recebeu uma bola na direita da área dos Reds, tinha Alisson e Ibrahima Konaté em sua frente. O goleador hesitou, tentou dar um passe para o meio, mas Alisson e Konaté se enrolaram, com o zagueiro perdendo a chance de dar um chutão para afastar o perigo. Benzema contou com a sorte e um toque estranho para sair na cara do gol, livre, e marcar. No entanto, a arbitragem analisou a jogada com certa demora e constatou impedimento do francês. A decisão foi controversa por conta de um toque de Fabinho, mas o critério se encaixou por ser considerado desvio do volante brasileiro, não algo intencional. Assim, portanto, desfez-se a chance da abertura de placar para o Real.

O Liverpool acordou da falha e, verdade seja dita, controlou bem o jogo para não sofrer tanto mais até o fim. Antes da partida, muitos dos prognósticos previam que a grande chance do Real para superar a formação de Jürgen Klopp era colocar Vinícius Jr; nas costas de Trent Alexander-Arnold, que tem alguma deficiência na marcação e em seu posicionamento defensivo. Era claro que Ancelotti usaria essa informação de alguma maneira.

E foi batata: descida pela direita do Real, toda a zaga do Liverpool apertou o cerco da marcação para isolar o ataque até a linha de fundo. Federico Valverde, que veio conduzindo a bola desde o meio-campo, acionou Vinícius, que estava completamente livre nas costas de Alexander-Arnold, para marcar. Nem Alisson estava no gol. Vinícius fez uma leitura excepcional da jogada por aproveitar a sua melhor opção, e sobretudo por se posicionar perfeitamente para finalizar sem margem de erro. Arnold preferiu ver o gol de camarote, focou demais na bola e largou seu posto de trabalho, que era, pasme, colar no atacante brasileiro.

O protagonismo, no fim das contas, foi de Courtois, Valverde e Vinícius, diferente do que se esperava, com um desfecho dominado por Benzema. Do lado do Liverpool, que fez uma partida bastante elogiável e de acordo com sua capacidade, Mané e Salah buscaram jogo e tiveram sede, mas não puderam competir com um elástico e onipresente Courtois debaixo da trave. Durante toda a segunda etapa, ficou evidente a postura ofensiva dos Reds de Klopp. Em 2018, o problema de Klopp foi o seu próprio goleiro, Loris Karius. Nesta ocasião, foi o goleiro do outro lado a razão da dor de cabeça.

Quando lembramos do caminho de cada um dos finalistas, a equação da final talvez fique um pouco mais clara. A montanha do Liverpool chegava hoje ao topo, depois de superar Internazionale, Benfica e Villarreal, com alguma tranquilidade. O Real, infartante, soube reverter jogos adversos contra Paris Saint-Germain, Chelsea e Manchester City, sempre usando o expediente da resiliência como arma, mesmo quando o placar era bastante desfavorável. Não foi, hoje, o jogo mais difícil que o Real enfrentou na sua caminhada ao título, e isso não é jamais um demérito do Liverpool, muito pelo contrário. O nível de insanidade que os comandados de Klopp ofereceram a Ancelotti não foi minimamente comparável à emoção das semifinais, por exemplo. O Real parecia confortável no jogo único, mesmo sendo massacrado nos números e nas bolas chutadas ao seu gol.

O 14º título madridista coroa uma geração que parecia acabada e voltou a vencer. Enaltece a temporada estupenda de Vinícius e Benzema, e tão importante quanto, reforça o acerto na contratação de Courtois, que pode até ter sido considerado como luxo excessivo para quem tinha Keylor Navas, mas que hoje provou sua importância para mais uma taça memorável.

Por último, e não menos relevante, está o único homem a vencer as cinco grandes ligas europeias. O treinador que se isolou no topo da lista dos maiores vencedores da Liga dos Campeões: Carlo Ancelotti. Houve quem duvidasse que o italiano poderia chegar nesse estágio novamente. Saboreando mais um sucesso, o veterano entregou poucos sorrisos e muita tranquilidade para a cabeça de cada um de seus pupilos. O resultado não poderia ser outro.

Foto de Felipe Portes

Felipe Portes

Felipe Portes é zagueiro ocasional, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes
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