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O Vissel Kobe confiou nos veteranos da seleção e conquistou o almejado título inédito da J-League

O Vissel Kobe fugiu do rebaixamento na temporada passada e ainda perdeu Iniesta nessa, mas cresceu demais num trabalho protagonizado por antigos nomes da seleção japonesa

O Vissel Kobe é o clube japonês que mais chamou atenção do restante do mundo nos últimos anos. Os Ushi tantas vezes foram coadjuvantes da J-League, diante do duopólio de Kawasaki Frontale e Yokohama F. Marinos a partir de 2017. No entanto, em termos de estrelas internacionais, o time de propriedade da Rakuten atraiu os holofotes. Nomes como Andrés Iniesta, David Villa e Lukas Podolski passaram por Kobe. Don Andrés não conseguiu levar a taça do Campeonato Japonês, mas capitaneou o Vissel a seu primeiro título de elite, a Copa do Imperador de 2019. Já neste sábado, a ambição de conquistar a J-League finalmente se cumpriu. O Vissel Kobe dominou o topo da tabela desde o primeiro turno e, apesar da concorrência mais apertada no segundo, confirmou o título inédito na penúltima rodada. A vitória por 2 a 1 sobre o Nagoya Grampus coroou os grenás.

Curiosamente, a conquista do Vissel Kobe acontece num momento em que até parecia improvável. Os grenás correram sérios riscos de rebaixamento na temporada passada, se safando apenas com uma arrancada na reta final. Além disso, o elenco perdeu Iniesta em julho, com a decisão do veterano de não renovar seu contrato pela falta de minutos em campo. O técnico Takayuki Yoshida, no entanto, moldou um time que sonhou com a J-League desde as primeiras rodadas de 2023. Já dentro de campo, os veteranos da seleção Yuya Osako e Yoshinori Muto formaram uma parceria infernal no ataque, que fez muita diferença para a conquista. O volante Hotaru Yamaguchi se consagrou como o capitão do novo feito, tendo auxílio mais atrás do lateral Gotoku Sakai, outro antigo nome dos Samurais Azuis que liderou a campanha.

A ascensão do Vissel Kobe

Nos tempos amadores do Campeonato Japonês, o Vissel Kobe se chamava Kawasaki Steel Soccer, ligado à indústria siderúrgica. Chegou a disputar a primeira divisão da liga nacional na virada dos anos 1980 para os 1990, mas não se tornou profissional de imediato quando a J-League foi fundada. A criação do Vissel Kobe em si aconteceu em 1995, com um nome que remetia tanto à palavra “vitória” quanto a “vessel”, uma referência aos navios da cidade portuária. Já o mascote escolhido, a vaquinha, se relaciona com o renomado “Kobe Beef”, carne de alto padrão produzida na região.

Os primórdios do Vissel Kobe não foram muito lineares. A equipe conquistou o acesso para a J-League pela primeira vez em 1997. Trazido do Real Madrid para uma breve passagem, Michael Laudrup era a estrela dos Ushi neste momento de ascensão. Todavia, os grenás não emplacaram na elite. Era um time que frequentava a metade inferior da tabela do Campeonato Japonês, sem passar do décimo lugar. Correu o risco até de quebrar por problemas financeiros em 2003 e dependeu da chegada de novos investidores. Foi quando começou o envolvimento de Hiroshi Mikitani, bilionário nascido em Kobe e fundador da Rakuten, gigante ligada especialmente ao setor de tecnologia e de comércio eletrônico.

Neste primeiro momento, o Vissel Kobe era administrado pelo Grupo Crimson, outra empresa pertencente a Mikitani. Os investimentos nos grenás não eram tão fortes, num período de botar ordem da casa. Tanto é que a realidade na tabela não mudou. Os Ushi passaram brevemente pela segunda divisão em 2006, antes de retornarem à elite e seguirem na metade inferior da tabela. Também tiveram outro descenso em 2012, com a volta imediata em 2013. Mas não era exatamente um clube que chamasse tanta atenção no contexto japonês. A partir de 2014, a Rakuten assumiu diretamente o controle do Vissel. A ascensão se tornou mais clara.

A montanha-russa das estrelas

O Vissel Kobe tem seu melhor desempenho na J-League até então em 2016, quando terminou na sétima posição do campeonato. De qualquer maneira, o ponto de virada para os grenás ocorre a partir de 2017. Lukas Podolski é a estrela que inaugura a era de craques nos Ushi. De certa maneira, a Rakuten parecia interessada em resgatar o passado de estrelas da J-League, que imperou sobretudo nos anos 1990. E a entrada da empresa como patrocinadora do Barcelona criou um elo importantíssimo. Iniesta trocou o Barça por Kobe em 2018, para se tornar um dos jogadores mais bem pagos do mundo. David Villa seria outra contratação estelar meses depois. Na esteira ainda chegaram ex-blaugranas como Thomas Vermaelen, Bojan Krkic e Sergi Samper.

Nos últimos seis anos, o Vissel Kobe se estabeleceu como o time mais estrelado do Japão. A presença dos veteranos, no entanto, não resultou numa série de conquistas. Os grenás até contavam com bons talentos locais, capazes de catapultar Kyogo Furuhashi e de repatriar Gotoku Sakai. Também desembarcaram vários brasileiros. O problema mesmo era competir com o trabalho excelente de Toru Oniki à frente do Kawasaki Frontale, cheio de jovens revelações como Kaoru Mitoma, e também do Yokohama F. Marinos dirigido por Ange Postecoglou. O Vissel oscilou bastante na tabela ao longo desta transição e tantas vezes não competiu pela taça.

O Vissel Kobe seguiu no marasmo do meio da tabela em 2017 e 2018. A temporada de 2019 se mostrava ainda mais difícil, com o time beirando a zona de rebaixamento em parte do segundo turno da J-League. A salvação veio e a temporada ainda terminou com o inédito título da Copa do Imperador. Foi uma senhora campanha, que deixou o Frontale pelo caminho, antes da vitória na final contra o Kashima Antlers. Iniesta usou a braçadeira de capitão, num time que também tinha Vermaelen, Podolski e Furuhashi entre os titulares. David Villa entrou no segundo tempo de um jogo que marcou sua despedida do futebol. Outro simbolismo daquela ocasião veio com a reinauguração do Estádio Olímpico de Tóquio, rumo às Olimpíadas de 2020.

A conquista da Copa do Imperador permitiu que o Vissel Kobe disputasse pela primeira vez a Champions Asiática. Numa temporada impactada pela pandemia, os grenás alcançaram as semifinais. Só não foram longe na J-League 2020, com o 14° lugar. Já um sinal de que o Vissel poderia sonhar com o título japonês veio em 2021. Os Ushi passaram longe de acompanhar o ritmo do campeão Frontale, mas cresceram de produção e terminaram num honroso terceiro lugar. Já era a melhor colocação da história do clube, que valeu de novo a vaga na Champions Asiática. No torneio continental de 2022, os grenás superaram o Marinos nas oitavas, mas sucumbiram nas quartas para o Jeonbuk Hyundai Motors. No entanto, a campanha na J-League 2022 quase terminou em desastre. De potencial candidato ao título, o Kobe passou 24 das 34 rodadas na zona de rebaixamento. Era o lanterna ao final do primeiro turno, dando pinta que sequer se salvaria.

A campanha do título

O Vissel Kobe campeão em 2023 começa a ser construído com a fuga do rebaixamento em 2022. E um personagem essencial nessa história é o técnico Takayuki Yoshida, que se aposentou como jogador do clube em 2015 e logo passou a fazer parte da comissão técnica. Yoshida assumiu pela primeira vez em 2017, no lugar de Nelsinho Baptista, enquanto teve uma estadia interina em meados de 2019, no lugar de Juanma Lillo. Tentaria desarmar a bomba, num clube que trocou bastante de treinador nesta era estelar. De fato, Yoshida foi um herói: a partir do início do segundo turno, conquistou nove das 11 vitórias do Vissel na J-League 2022. O 13° lugar, longe da segundona, saía de ótimo tamanho.

Takayuki Yoshida foi mantido no comando do Vissel Kobe para a J-League 2023. Contaria com a mesma base titular, com pouquíssimas adições – a exemplo de Juan Mata, que chegou badalado no meio da campanha e mal atuou. E ainda decidiu prescindir do grande craque do time, ninguém menos que Iniesta. A queda física do veterano era visível. Auxiliou no início da arrancada em 2022, mas logo ficou no estaleiro. Já para 2023, Yoshida montou o time grená tendo em Don Andrés um mero coadjuvante. Infeliz com os poucos minutos em campo, o craque resolveu não renovar o seu contrato, após cinco anos em Kobe. Em julho, no meio da campanha no Campeonato Japonês, uma grande homenagem foi realizada para se despedir de Iniesta. O espanhol foi genuinamente um ídolo da torcida, com momentos brilhantes pelos grenás, mas era hora de seguir em frente.

Quando Iniesta deixou o Vissel Kobe, a equipe já era candidatíssima ao título da J-League. Os Ushi lideraram o campeonato desde as primeiras rodadas. Foram seis vitórias e um empate nas oito primeiras partidas, que logo impulsionaram os grenás. Dava para notar um time bem mais competitivo, com uma defesa que sofria poucos gols e um ataque azeitado. Os únicos poréns vieram nas derrotas em casa durante dois confrontos diretos, contra Urawa Reds e Yokohama F. Marinos. Já no final do primeiro turno, a derrota na visita ao Cerezo Osaka tirou o Vissel da dianteira. Curiosamente, o adeus a Iniesta ocorreu com o time na terceira posição, após o empate com o Hokkaido Consadole Sapporo.

O Vissel Kobe recuperou a liderança poucas rodadas depois, mas se viu em meio a uma disputa apertada com o Yokohama F. Marinos. A arrancada dos grenás começou de verdade a partir do fim de setembro. Foram cinco vitórias e um empate nas últimas seis rodadas. E isso encarando uma tabela bem difícil, com duelos diante de quatro oponentes dentro do Top-5 da tabela. O resultado mais importante veio em Yokohama, com os 2 a 0 sobre o Marinos garantido por Yuya Osako e Yoshinori Muto. Outro resultado enorme aconteceu na antepenúltima rodada, com o triunfo por 2 a 1 sobre o Urawa Reds garantido aos 51 do segundo tempo em Saitama, graças a um tento de Osako do meio do campo. Já neste sábado, o caminho se abriu na penúltima rodada. O Marinos só empatou em Yokohama contra o Albirex Niigata. Assim, bastaria ao Vissel fazer sua parte em Kobe, contra o Nagoya Grampus. Haruya Ide e Muto garantiram a vitória por 2 a 1 e o título.

O elenco campeão

Duas inegáveis estrelas na conquista do Vissel Kobe foram seus ases no ataque. O tarimbado Yuya Osako liderou a trinca ofensiva e anotou 22 gols, além de sete assistências. É o artilheiro da J-League e foi o astro que tanto os grenás buscaram nos últimos anos. Já na ponta, Yoshinori Muto não ficou atrás em simbolismo e efetividade. Contribuiu com dez gols e dez assistências, com enorme importância nesta reta final. Outro destaque no setor ofensivo foi o meia Daiju Sasaki, utilizado em diferentes posições. O brasileiro Jean Patric também foi útil dentro da rotação. Embora presentes no elenco, o astro Juan Mata e o atacante Lincoln não chegaram a ficar 20 minutos em campo ao longo de toda a campanha. Andrés Iniesta, mesmo subutilizado, até foi mais frequente.

Mais atrás, o goleiro Daiya Maekawa cresceu na temporada, a ponto de chegar à seleção japonesa. A defesa contava com grande força nas laterais, incluindo o rodado Gotoku Sakai e também o ascendente Ryo Hatsuse, este entre os líderes de assistências da liga. No miolo da zaga, o ex-flamenguista Thuler foi titular em parte significativa da campanha, embora geralmente se revezando com Tatsushi Yamakawa e Yuki Honda. Já na cabeça de área, Hotaru Yamaguchi foi uma enorme liderança. Mais um nome tarimbado da seleção, honrou a braçadeira de capitão herdada de Iniesta.

Curiosamente, o Vissel Kobe campeão da J-League se valeu do talento japonês. Apenas um jogador entre aqueles que superaram os mil minutos em campo é estrangeiro, o zagueiro Thuler, e mesmo assim foi apenas o 12° mais utilizado na campanha. Pode não ser o grupo mais renomado montado pela Rakuten, mas foi moldado ao longo dos últimos anos e confiou em antigos figurões da seleção nacional. Não se nega o sucesso na empreitada de um time que se reinventou para ser campeão, com o sucesso de Takayuki Yoshida na casamata. Fica a expectativa sobre como os anseios finalmente cumpridos podem render novos frutos.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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