Falência da Evergrande acompanha declínio do Guangzhou no futebol chinês
Imobiliária Evergrande, que foi dona do Guangzhou por mais de uma década, teve falência decretada nesta segunda-feira (29)
Muito antes da Arábia Saudita impressionar com seus investimentos no futebol, a China marcou época na última década com contratações impressionantes e salários exorbitantes. O principal clube deste momento era o Guangzhou Evergrande, adquirido pela incorporadora imobiliária Evergrande em 2010, vencedor de oito Campeonatos Chineses em nove anos, duas copas locais e o auge com o domínio do esporte no âmbito continental, levando a AFC Champions League em duas oportunidades (2013 sob comando de Marcelo Lippi e 2015 treinado por Luiz Felipe Scolari). Inacreditável pensar que esse time supervencedor caiu para segunda divisão chinesa em 2022, permanece por lá até hoje e sofre para se manter rentável.
O declínio do Guangzhou começou com uma grave crise financeira no setor imobiliário na China nos últimos anos, potencializado pela pandemia da Covid-19, impactando diretamente a Evergrande, que hoje soma a gigantesca dívida de US$ 300 bilhões (R$ 1,475 trilhões). A empresa não detém mais o controle do clube, perdido em 2021 após venda a um grupo de investidores, mas voltou aos holofotes nesta segunda-feira (29) com uma decisão de um Tribunal de Hong Kong que decretou a falência e a liquidação da imobiliária. Isso significa que a companhia será gerida por profissionais de fora e terá os ativos vendidos para pagar os credores.
Justamente neste 29 de janeiro de 2024, quando a Evergrande foi liquidada, o Guangzhou FC (nome do clube desde 2021) publicou uma nota nas redes sociais para anunciar que conseguiu obter a licença para jogar a China League One, a segunda divisão do país. Na mensagem, o clube detalhou a crise financeira sofrida nos últimos anos e como conseguiu, pela união, ter renda para continuar.
– O Guangzhou FC obtém hoje licença de entrada em ligas profissionais na temporada de 2024 e confirma que continuará participando da China League One este ano. Afetado pela pandemia e outros motivos, o clube tem enfrentado enormes desafios de sobrevivência e operações, mas nos unimos para nos salvar e obter renda para alcançar um equilíbrio apertado. Nós agradecemos sinceramente aos atuais e ex-técnicos, jogadores e funcionários, e torcedores de todo o país e do mundo, bem como aos patrocinadores, clubes, amigos e a todos que se preocupam conosco. O clube continua empenhado em defender a história de glória do futebol de Guangzhou, em resolver a crise financeira de forma constante e em manter a nossa contribuição para o futebol chinês. Vejo vocês no estádio em breve – publicou o Guangzhou FC em sua conta oficial no Facebook.
Antes recebendo milhões e milhões em aportes da incorporadora imobiliária, o Guangzhou passou a sofrer com o corte de investimentos da Evergrande e, consequentemente, parando de vencer dentro de campo. A última conquista foi em 2019 (a oitava Superliga Chinesa) e até conseguiu um vice em 2021/22 sob comando de Fabio Cannavaro, que saiu antes de serem rebaixados à segunda divisão em 2022. Por cinco pontos não caíram para terceira no ano passado e vão disputar novamente a China League One nesse ano.

A crise não foi algo exclusivo do Guangzhou e passou por uma mudança do governo nas políticas financeiras da liga, em busca de corte de gastos, afetando todo ecossistema do futebol. Por exemplo, um clube que quisesse contratar um estrangeiro precisaria pagar uma multa de 100% do valor investido, o que cessou qualquer investimento para atletas de fora. Tudo isso resultou no encerramento das atividades de alguns clubes chineses, como o Jiangsu Suning, em 2021, logo após serem campeões nacionais, além do Tianjin Tianhai, que já contou com Axel Witsel e Alexandre Pato no elenco, e do Guangzhou City, rival do ex-clube da Evergrande.
Com Evergrande, Guangzhou saiu da segunda divisão para dominar continente
Antes da gigante imobiliária chegar, o máximo que Guangzhou tinha alcançado eram dois vices da Chinese Jia-A League, a antiga primeira divisão, na década de 90. Com os investimentos a partir de 2010, o clube saiu da segunda divisão, local que costumava ficar, para ser um protagonista no cenário doméstico e internacional.
Logo em 2011, tirou o meia Darío Conca do Fluminense e deu ao argentino o terceiro maior salário do mundo na época, atrás apenas de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. Não demorou muito para o dinheiro despejado dar resultado: a sequência de títulos nacionais já veio com a chegada de Conca, durando, em sequência, até 2018, quando o Shanghai SIPG interrompeu o domínio do time da Evergrande, que voltaria a vencer o título no outro ano.
A primeira Liga dos Campeões da Ásia veio em 2013, com Lippi, técnico campeão da Copa do Mundo com a Itália em 2006, e um elenco que tinha, além de Conca, Lucas Barrios, Muriqui e Elkeson. O último, ao lado de Paulinho, Robinho e Ricardo Goulart, foram treinados por Felipão na conquista continental de 2015.

Com os títulos da Champions Asiática, a equipe participou duas vezes do Mundial de Clubes, ficando em quarto nas duas disputas, sempre caindo na semifinal para um europeu (primeiro Bayern de Munique e depois Barcelona). Na edição de 2013, a disputa de terceiro lugar foi contra o Atlético-MG, que venceu por 3 a 2 com gols de Ronaldinho Gaúcho, Jô e Diego Tardelli. Conca e Muriqui descontaram.
Além dos citados, outros nomes pesados chegaram a defender as cores do Guangzhou, casos de Jackson Martínez e Anderson Talisca. O projeto ambicioso chegou a começar a construção de um estádio para 100 mil pessoas, depois cancelado devido aos problemas financeiros.
Vale citar que, hoje, o elenco é composto exclusivamente por jogadores chineses, mas treinados pelo técnico espanhol Salva Suay, no cargo desde junho de 2023.



