Sul-Americana

Explicamos o sucesso do Montevideo Torque, primo pobre do City, que mira inédita final de Sul-Americana

Montevideo City Torque, da mesma rede multiclubes dos Citizens, enfrenta o Atlético Mineiro na semifinal da Sula

Há um quarto elemento nas semifinais da Copa Sul-Americana que foge à tradição dos restantes. De um lado da chave, o hexacampeão da Libertadores Boca Juniors enfrenta o gigante Vasco da Gama. Do outro, o também enorme clube brasileiro Atlético Mineiro duela com o modesto Montevideo City Torque, a primeira “filial” do Manchester City na América do Sul.

A equipe da capital uruguaia nunca conquistou um título internacional ou, ao menos, de primeira divisão em seu país. Acabou de entrar na maioridade: fundado apenas em dezembro de 2007, profissional desde 2012 e só virou parte do Grupo City a partir de 2017. Muito antes do Bolívar, parceiro desde 2021, e do Bahia, adquirido em 2023.

Foi há quase uma década que os Ciudadanos, como são conhecidos, iniciaram sua revolução, que os coloca a dois jogos de uma final continental. Foi um longo processo, com momentos de baixa e dúvidas sobre o futuro, mas que pode, no final deste ano, terminar com quatro taças.

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A ascensão nada linear do primo pobre do Manchester City

É natural imaginar que, a partir de 2017, tudo ficou fácil para o Torque. Subiu de divisão, consolidou-se na elite, ganhou muito dinheiro com venda de jogadores e virou uma potência local. A realidade, porém, é muito diferente.

Primeiro, sim, houve um acesso logo de cara, com título da segunda divisão sob o comando de Paulo Pezzolano, ex-técnico de Cruzeiro e Internacional. O time, porém, caiu em seguida, em 2019.

Poderia ser momento de duvidar do projeto, assim como em outro rebaixamento que sofreria em 2023, mas nada mudou e eles retomaram seu espaço na elite ao mesmo tempo que adaptaram seu escudo e o nome ao grupo — antes chamava-se Club Atlético Torque. Aos poucos, o Montevideo foi se consolidando e atingindo feitos.

  • Em 2021, disputou a Sul-Americana, sua primeira competição internacional, e fez sua melhor campanha na tabela atual do Campeonato Uruguaio (quarto lugar);
  • Em 2022, chegou à fase prévia da Libertadores e caiu para o Barcelona, do Equador, nos pênaltis;
  • Em 2023, mesmo sendo rebaixado novamente no Campeonato Uruguaio, foi vice-campeão da Copa do Uruguai para o Defensor Sporting em outro revés nas penalidades.

Todo esse crescimento em resultado, obviamente, veio com muito investimento do grupo do Manchester City. Mas não só em jogadores, que representaram apenas 13 milhões de dólares em gastos desde o começo do projeto.

Até hoje, as três maiores contratações do time ocorreram até 2021: Santiago Rodríguez, comprado por 5 milhões de dólares, Renzo Orihuela, por 2 milhões, ambos em 2020, e, no ano seguinte, Nicolás Siri, por 3,5 milhões. A outra parte do dinheiro foi para tornar o Montevideo City Torque em uma das melhores infraestruturas do futebol uruguaio.

Montevideo City Torque virou potência na base graças à estrutura

Em plena pandemia, em 2021, o clube da capital inaugurou um centro de treinamento do nível do gigante Nacional, tricampeão da Libertadores, e da seleção do Uruguai.

A nova instalação, com sete campos, dois deles de piso sintético, um edifício multifuncional, um vestiário para o time principal, escritórios administrativos, instalações de treinamento e espaço para o time feminino, custou quase 5 milhões de dólares.

O investimento fazia parte do projeto do City na aquisição, em 2017, que previa 25 milhões de dólares gastos em cinco anos. O goleiro Franco Torgnascioli, no Montevideo City Torque desde o ano passado, impressionou-se com o CT do time.

— Eu acho que os clubes começam a crescer a partir da infraestrutura. Tomara que isso seja uma referência, e tomara que todos os jogadores do futebol uruguaio tenham a possibilidade de contar com essas instalações, com essa maneira de trabalhar. Todo jogador de futebol, para poder se desenvolver, precisa de boas condições — disse ao jornal “El Observador”.

Isso permitiu que o clube virasse também uma das principais bases do país. Junto dos gigantes Nacional e Peñarol, tornou-se um dos times que mais abastecem as seleções juvenis do Uruguai.

Em 2026, tinha seis jogadores somados nas seleções sub-16 e sub-17, segundo levantamento do “El Observador”, e dois de seus jovens, Benjamín García e Facundo Martínez, viajaram para ajudar a seleção principal na Copa do Mundo de 2026 em treinamentos.

Em julho, na primeira convocação de Diego Fórlan na Celeste sub-20, foram chamados seis jogadores do Torque, de longe o clube com mais representação.

O goleiro Franco Torgnascioli em ação pelo Montevideo City Torque
O goleiro Franco Torgnascioli em ação pelo Montevideo City Torque (Foto: IMAGO / Action Plus)

Trajetória do Torque até o Atlético Mineiro na semifinal da Sul-Americana

O atual estilo de jogo do Montevideo City Torque não é exatamente como a filosofia do Grupo City “manda”, rede multiclubes criada à imagem do Manchester City que foi comandado por Pep Guardiola entre 2016 e 2026 — o Bahia de Rogério Ceni, por exemplo, se assemelha mais aos ingleses.

A equipe uruguaia, desde a chegada do grupo, esteve sempre entre os times com mais gols marcados e número de posse de bola. Em 2026, o poderio ofensivo continua, mas o “amor” pela bola diminuiu, com média de apenas 51.7% nos campeonatos locais e 45.9% na Sul-Americana.

O técnico Marcelo Méndez deixou sua assinatura na filosofia do time e tem dado resultado. O Celeste está na briga pelo Clausura do Campeonato Uruguaio, a apenas um ponto da liderança, está nas oitavas de final da Copa Uruguaia e ainda tem chances de vencer a liga, disputada entre o campeão do Apertura, Clausura e o líder da tabela anual.

Três taças, além da história Sul-Americana. A campanha continental é histórica. Em um grupo com o gigante Grêmio, avançou como líder, tendo batido os gaúchos no jogo em casa. No mata-mata, eliminou o Tigre com duas vitórias e o Cienciano, após perder a ida por 2 a 0 e vencer por três a volta. Como mandante, tem 100% de aproveitamento.

— Não quero deixar passar o que estamos conseguindo, mesmo com as limitações que temos. Chegamos a um clube que já tinha uma identidade e nós tentamos acrescentar nossos matizes. Este é um clube que forma muitos jogadores e eles estão tendo oportunidades. Estamos felizes com o nosso presente — celebrou Méndez, treinador do time uruguaio desde 2025, após se classificar para as quartas de final da Sul-Americana.

Salomón Rodríguez celebra gol do Montevideo City Torque sobre o Grêmio
Salomón Rodríguez celebra gol do Montevideo City Torque sobre o Grêmio (Foto: Roberto Vinicius/AGIF/Sipa USA/Icon Sport)

Grupo City, em meio à crise, ganha um clube autossutentável

Já é um ano histórico do Montevideo City Torque. Um clube de menos de 20 anos se tornou apenas o quarto uruguaio a chegar em uma semifinal da segunda maior competição da América do Sul (Peñarol, Nacional e Boston River foram os outros) e pode ser o primeiro a jogar uma final.

É uma recompensa ao investimento do grupo City, que no ano passado renovou o acordo com o clube para continuar no comando do projeto até 2038 — inicialmente era de 2017 até 2026. E é justamente nesta temporada que a rede multiclubes tornou a SAD — SAF na realidade brasileira — autossustentável.

Não são mais necessárias receitas externas. O City Torque roda com os próprios recursos pelos 5 milhões de dólares que arrecadou neste ano, só entre direitos televisivos locais e a campanha na Sula. A quantia ainda pode aumentar com o sucesso na temporada (o campeão da Sul-Americana leva 10 milhões de dólares e o vice, 2,5).

Isso é decisivo em um momento de dúvidas sobre o futuro do Grupo City com o Manchester City, a maior fonte de receita da rede comandada por Abu Dhabi, declarado culpado de 115 violações financeiras na Premier League e com punição ainda em voga.

Há quem diga que poderão forçar uma venda do clube a outro dono pela responsabilidade do governo dos Emirados Árabes Unidos nas infrações. Com isso, duvida-se do quanto faria sentido continuar a franquia multiclubes, que registrou prejuízo de 122,2 milhões de libras na temporada 2023/24. Porém, ainda é prematuro porque o caso deve durar mais alguns anos.

Além das filiais no Brasil, Uruguai e Inglaterra, o Grupo City está como proprietário de times na Espanha (Girona), Austrália (Melbourne City), Itália (Palermo), França (Troyes), Bélgica (Lommel SK), Estados Unidos (New York City) e China (Shenzhen Peng City FC), além das parcerias na Bolívia (Bolívia) e Turquia (Istanbul Basaksehir).

As equipes do grupo já atingiram êxitos grandes antes: New York City, Melbourne, Mumbai e Yokohama F. Marinos (que fez parte do grupo entre 2015 e 2026) foram campeões nacionais, enquanto o Girona chegou a terminar La Liga na terceira posição e disputar a Champions League.

Um possível título continental do Montevideo City Torque, porém, seria inédito, pois ninguém além do Manchester City, campeão da Champions em 2023, conseguiu um feito assim.

Nesta quarta-feira (14), eles buscam a história: tentar superar o Atlético Mineiro, tricampeão brasileiro, bi da Copa do Brasil e vencedor da Libertadores de 2013. O primeiro duelo é na Arena MRV. A volta será no Estádio Centenário, em 21 de outubro. O modesto time sonha com 21 de novembro, a data da decisão, em Barranquilla, na Colômbia.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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