Tim Vickery: A divergência dos clubes brasileiros nas Copas Libertadores e Sul-Americana
Segunda maior competição da Conmebol expõe desinteresse e planejamento alternativo das equipes nacionais
Seis times brasileiros na Libertadores, cinco jogando fora na primeira semana e, coletivamente, levaram somente um gol — e aquele com traços de infelicidade, um pênalti contra o Palmeiras num lance onde não houve grande perigo.
Na Sul-Americana, porém, uma história bem diferente. Sete brasileiros e somente uma vitória (do São Paulo), quatro derrotas e dois empates, um deles em casa contra o Caracas (e, por sinal, que semana por futebol venezuelano, com o Universidad Central o único time na Libertadores a marcar três gols).
A diferença entre Libertadores e Sul-Americana
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Como explicar a divergência no desempenho brasileiro nas duas taças continentais?
Em parte, é muito fácil. Os representantes na Libertadores são bem melhores. Com tantos times classificados para essas competições, inevitavelmente alguns na Sul-Americana não estão no seu melhor momento. Mas, de uma certa maneira, a mesma coisa se aplica aos adversários. Verdade, fora do Brasil e Argentina, os outros países têm menos vagas nessas taças. Mas, pelo menos em teoria, os mais fortes vão para a Libertadores.
Mas existe um outro aspecto que talvez seja mais determinante — a questão do enfoque.
A Libertadores é prioridade. A Sul-Americana, por quase todos os brasileiros, não. Isso fica bem claro nas escalações da semana passada — vários times mistos e, no caso do Vasco, um técnico que nem viajou para o jogo.
A abordagem geral dos brasileiros para a Sul-Americana parece o seguinte: não vamos levar isso como prioridade dentro do nosso planejamento, vamos ir testando e, se por acaso a gente estiver lá ainda na reta final, aí vamos fazer um esforço para levantar o troféu.
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É um pouco parecido com a maneira que os europeus disputaram o Mundial de Clubes no ano passado. Como um aparte, estou curioso para ver como vai ser na próxima vez. Os europeus ficaram impressionados com a quantidade de dinheiro na mesa, que com certeza tem o poder de mudar pensamentos.
Mas a grana veio do Oriente Médio — ou, como aprendi ultimamente, a Ásia Ocidental, uma expressão menos colonial. E se tiver uma incerteza em como chamar a região, bem maior é a incerteza sobre o que vai acontecer por lá, e como tantas outras áreas de atividade humana, o futebol vai sentir as consequências.
De qualquer maneira, a nossa tese segue intacta. O calendário atual do futebol, e não somente no Brasil, exige a escolha de prioridades. Em outros esportes, isso é normal. Um atleta olímpico planeja a sua temporada com o objetivo de estar no auge no momento dos Jogos, ou de um campeonato mundial. Mas no futebol tem três pontos em jogo duas vezes por semana, com uma torcida apaixonada exigindo esforço máximo cada vez.
Mas na prática, como estamos vendo, hoje em dia virou uma necessidade escolher as batalhas — ou seja, determinar os três pontos quando vale a pena gastar munição pesada, e quais três pontos podem ser vistos como um extra.
Um exemplo claro disso vem dos confrontos entre Chelsea e Paris Saint Germain. Julho passado, na final do Mundial de Clubes, deu Chelsea 3 a 0. Mês passado, mata-mata na Champions League, o placar agregado dos dois jogos ficou em 8 a 2 a favor dos franceses.
Qual é a medida mais fiel das duas forças relativas? O segundo, claro. É verdade que no primeiro teve um título em jogo. Mas a Liga dos Campeões é a prioridade, a fase mata-mata é onde os times estão se preparando para atingir o seu melhor desempenho.
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A ciência de escolher batalhas
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Eu estava conversando na semana passada com um especialista português em futebol europeu que explicou que a preparação física dos gigantes desenvolveu bastante nos últimos anos com o objetivo de alcançar o auge justamente agora, na fase decisiva da Liga dos Campeões.
Imagino que isso seja uma dinâmica que favorece o Paris Saint Germain que, num campeonato doméstico um pouco menos competitivo, deveria achar mais fácil ir dosando os esforços durante a temporada. Certamente, depois de golear o Chelsea, o PSG foi muito melhor que Liverpool no jogo de ida semana passada, e mais uma atuação sólida na terça-feira vai selar o seu lugar nas semifinais.
Enquanto isso, por aqui os clubes brasileiros vão tratar de acumular mais pontos na Libertadores essa semana — a exigência da escolha de prioridades — e aqueles na Sul-Americana podem comemorar os seus gols sem chorar eventuais tropeços.