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A Conmebol perdeu de vez os pudores de colocar seus interesses acima de tudo e realizar seus jogos a qualquer custo

Por conta dos protestos na Colômbia, compromissos dos clubes do país foram transferidos em cima da hora

Na temporada passada, a Conmebol não teve muitos pudores para fazer um arranjo e mudar o local da semifinal da Copa Sul-Americana. Com os casos de COVID-19 no elenco do Defensa y Justicia, não haveria permissão para que o duelo com o Coquimbo Unido ocorresse a tempo no Chile, por conta dos protocolos locais. Sem grandes freios, a confederação mudou o confronto para o Paraguai e, apesar dos protestos dos chilenos, ignorou os critérios de competitividade. O mesmo ocorreu nesta Libertadores, com Independiente del Valle x Grêmio em Assunção. E esta semana comprovou como a entidade perdeu seu filtro de vez. Agora o entrave não é mais a pandemia, mas os protestos contra a reforma tributária realizados na Colômbia. Todos os jogos que aconteceriam no país acabaram remarcados para Equador, Peru ou sobretudo Paraguai.

Que a Conmebol não está se importando muito com o desgaste dos jogadores pela maratona de jogos ou com a situação ainda grave da pandemia no continente, ficou claro há tempos. As fases de grupos da Libertadores e da Copa Sul-Americana acontecem em apenas seis semanas, sem margem às manobras e exigindo ainda mais dos elencos. Desde a temporada passada a entidade continental já indicou que, mesmo com protocolos falhos, as responsabilidades por qualquer problema são dos clubes e ela não rearranjará seu calendário nem mesmo por surtos de COVID-19. Mas, neste 2021, a Conmebol decidiu de vez passar por cima de qualquer entrave – mesmo que isso prejudique os princípios das competições e gere mais dificuldades logísticas.

O caso da Colômbia é emblemático. O povo está nas ruas em protesto contra o governo e as manifestações, além de paralisarem o país, são marcadas por violência e abusos das forças policiais. Os mortos chegam a 24, com centenas de feridos. Entre os movimentos contra as reformas, há uma ampla participação de grupos de torcedores organizados das mais diferentes equipes do país – como explica o ótimo Copa além da Copa. Era óbvio que, se tentassem jogar, as partidas seriam bloqueadas. A Conmebol, então, deu seu jeito e ordenou a transferência da maioria dos duelos com mandantes colombianos para esta quinta. Vai rolar também um Deportes Tolima x Emelec na sexta, em Lima – cidade escolhida para não fazer os equatorianos atuarem em Guayaquil ou não obrigar uma viagem mais longa a Assunção.

Não é que a situação seja inédita ao futebol da Colômbia, ainda que o precedente tenha um contexto bastante distinto. No início dos anos 1990, por conta da violência do narcotráfico, jogos dos clubes locais na Libertadores foram transferidos para Chile, Venezuela e até mesmo aos Estados Unidos – como relembrou recentemente o blog Latinoamérica Fútbol Club. O estopim foram as ameaças ao árbitro no Atlético Nacional x Vasco de 1990, provocando uma punição na Libertadores de 1991.

Mesmo no Campeonato Colombiano, por conta dos atuais protestos, a medida de organizar partidas em campo neutro foi adotada. Por exemplo, no final de semana, Millonarios x América de Cali foi transferido de Bogotá para Ibagué, enquanto Independiente Santa Fe x Junior de Barranquilla saiu da capital para a cidade de Armênia. Deportivo Cali x Tolima não aconteceu por conta dos protestos. O caso na Libertadores, ainda assim, é mais extremo, quando parece de bom senso remarcar os compromissos.

Os clubes colombianos, obviamente, são os mais prejudicados pela postura da Conmebol. Precisarão realizar viagens em cima da hora, em jogos que deveriam receber em casa. O mando de campo pode não ser tão vantajoso em tempos de arquibancadas vazias, mas ainda assim poupa as equipes de deslocamentos e possuem as particularidades de cada local. Em alguns casos, há uma diferença sensível, especialmente a equipes que possuem a altitude como um trunfo – a exemplo daqueles que atuam em Bogotá. Mas não que os visitantes fiquem ilesos. Alguns terão que viajar até mais, como no caso do Fluminense, que estava em Barranquilla para pegar o Junior e precisou pegar igualmente um voo de última hora rumo a Guayaquil. Sem deixar de mencionar que, em meio à pandemia, todo mundo fica um pouco mais exposto com o excesso de deslocamentos.

Segundo o Ministro dos Esportes da Colômbia, Ernesto Lucena, a proposta de mudar o local veio da própria Federação da Colombiana de Futebol e houve consenso entre os clubes. Todavia, pouco depois, diferentes dirigentes manifestaram desacordo. O presidente do Santa Fe disse que a transferência do jogo contra o River Plate para o Paraguai beneficia os argentinos, que farão uma viagem menor. Já o presidente do Atlético Nacional declarou que não receberam “sequer uma ligação protocolar” para serem consultados sobre a mudança do embate com o Argentinos Juniors, também para Assunção.

Os interesses da Conmebol, vale ressaltar, são basicamente financeiros. A entidade não pretende adiar jogos da Libertadores para não afetar o calendário da competição e, principalmente, para não impactar na Copa América em junho. A competição de seleções já não tinha muito sentido desde o princípio, quando foi marcada para um ano depois da edição de 2019. Soa ainda mais como um evento supérfluo a esta altura, após seu adiamento em um ano pela pandemia. E a incerteza segue rondando sua realização. Na Argentina, dada a situação sanitária, questiona-se bastante o país como sede. Há algumas semanas, discutia-se a possibilidade da Colômbia realizar o torneio sozinha. Mas os protestos contra o governo, se seguirem os rumos da convulsão social vista no Chile há dois anos, também podem comprometer a organização.

Na Colômbia, todavia, há uma pressão do próprio governo para que a Copa América aconteça. Ainda mais numa queda de braço com a população, descontente com a reforma tributária, o torneio continental pode servir como uma ferramenta política. Ao jornal El Tiempo, o presidente da liga colombiana, Fernando Jaramillo, já avisou que suas competições não pretendem paralisar as atividades, por mais que seja difícil garantir segurança em meio à situação geral do país. “O anúncio da Copa América por parte do presidente foi contundente: se suspendemos o campeonato, isso é dar uma pancada no governo. Vamos seguir jogando, mantendo a segurança dos jogadores, dos dirigentes e do entorno dos estádios, se for possível. Se não for, então vamos adiar, mas não vamos suspender”, comentou.

Qual a solução da Conmebol para a Copa América, caso os conflitos na Colômbia se arrastem? O Paraguai, é claro. A relações íntimas da entidade e de Alejandro Domínguez com o governo local também poderiam colocar os estádios paraguaios como sedes emergenciais, caso Argentina e Colômbia pulem fora do barco. Adiar a Copa América não está nos planos da entidade continental. Para quem está pouco se importando com os critérios de mando de campo e mesmo com as situações sanitárias específicas em cada país, não será nada surpreendente.

A “nova Conmebol” de Alejandro Domínguez não se mostra nada diferente do que se vivia com Nicolás Leoz tempos atrás. Se o Fifagate derrubou uma série de corruptos, a nova roupagem da entidade não afasta seus cartolas das mesmas politicagens. Prova disso foi a própria negociação de vacinas para a Conmebol (e para Copa América) através do governo uruguaio, algo que sequer foi conversado entre os demais países, e que pode levar, como consequência da troca de favores, a final da Libertadores ao Centenário – como detalha o blog Meia Encarnada. Os acordos comerciais estão acima de tudo. E a falta de mobilização dos clubes para discutir ao menos seus interesses, um problema que ocorre também dentro das próprias federações nacionais, os tornam submissos a esses desmandos. Ninguém está disposto a comprar briga enquanto o dinheiro continuar pingando, aparentemente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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