Argentina

O que explica crise do Boca Juniors em meio a rescisões, mudança interna e pressão em Riquelme

Pressionado, ex-jogador destituiu membros do conselho e busca mudar os rumos de um gigante afundado em uma crise sem precedentes

— Não tivemos os resultados que esperávamos, temos que mudar — essa foi a frase dita por Juan Román Riquelme, presidente do Boca Juniors, logo após dissolver o conselho de futebol do clube, que era composto por Maurício Serna, Raúl Cascini e Marcelo Delgado. Os dois primeiros deixaram seus cargos no clube, e o último seguirá como braço direito de Riquelme.

A dissolução do conselho é mais um capítulo da crise interna e externa que vive o Boca Juniors. O clube não vence há onze jogos, foi eliminado dos principais torneios que disputa, teve problemas que culminaram na rescisão de atletas, viu a pressão crescer em direção ao presidente Riquelme, e agora assiste ao desmonte dos profissionais que cuidavam do futebol do clube.

Segundo a mídia argentina, ainda não se sabe quais serão os próximos passos do clube em relação aos membros da diretoria. Alguns meios, como a ‘TyC Sports’, acredita que um ‘manager’, ou seja, uma pessoa externa será a responsável por cuidar dos interesses do clube, enquanto o presidente Riquelme se aproxima ainda mais das decisões envolvendo a equipe.

Riquelme no comando do Boca: de amado a criticado

Era 2019 quando o ídolo xeneize Juan Román Riquelme teve seu nome ligado pela primeira vez a diretoria da equipe de Buenos Aires. Ocupando o cargo de segundo vice-presidente na chapa que tinha Jorge Amor Ameal, o ex-jogador passou a fazer parte da equipe que comandava o clube.

Em 2023, já com laços bastante estabelecidos na política xeneize, Riquelme decidiu se candidatar a presidência do Boca Juniors. Tendo como oposição a chapa Maurício Macri, ex-presidente da Argentina, e Hugo Ibarra, o ex-jogador recebeu mais de 46 mil votos, um recorde na história do futebol argentino, e o segundo maior pleito no mundo, atrás apenas da eleição de Sandro Rosell no Barcelona em 2010, que teve 57 mil votos, e foi eleito presidente.

Jorge Ameal permaneceu na chapa, mas trocou de cargo, passando a ser vice. Após vencer a eleição, Riquelme seguiu com os responsáveis pelo conselho do clube, mantendo Maurício Serna, Raúl Cascini e Marcelo Delgado, trio que iniciou os trabalhos no Xeneize em 2019.

É fato que quando o ex-jogador assumiu o comando da equipe, o Boca Juniors já não vivia um bom momento. A equipe tinha acabado de perder a final da Libertadores para o Fluminense, vinha de um ano bastante complexo, e a chegada do ídolo no maior cargo do clube foi vista com muita expectativa e promessa de melhoria, ou seja, o resgate de um clube vencedor.

Juan Román Riquelme, presidente do Boca Juniors
Juan Román Riquelme, presidente do Boca Juniors (Foto: Imago)

No entanto, é possível dizer que a situação do clube apenas piorou. Logo no primeiro ano de Riquelme a frente da presidência, o Boca ficou de fora da Libertadores, um banho de água fria para quem é um dos maiores campeões do torneio. Depois, o clube seguiu colecionando eliminações, o que começou a por em cheque o apoio irrestrito que o ex-jogador, inicialmente, possuía no cargo.

O ano de 2025 foi visto com muita expectativa para o torcedor. Riquelme já havia completado um ano no cargo, já estava mais adaptado e via a situação mais controlada. Na reta final de 2024, buscando uma nova direção, o clube optou por mudar o treinador, demitindo Diego Martinez e contratando Fernando Gago, também ex-jogador do clube. Além disso, investiu bastante em novas contratações como Ander Herrera, ex-PSG, formando um elenco apelidado de “Super Boca Juniors”.

Mesmo assim, o desempenho em campo Boca Juniors nunca evoluiu. Eliminado nas quartas de final do Campeonato Argentino, fora da Libertadores, mais uma vez, após perder para o Alianza Lima na fase prévia, o clube acumulou fracassos também em jogos considerados importantes, principalmente contra o rival River Plate. A partir daí, a paciência de parte da torcida com Riquelme começou a se esgotar.

Mas havia ainda o Mundial de Clubes, o torneio que ainda dava uma fagulha de esperança ao torcedor Xeneize, que esperava uma reviravolta. Recalculando a rota novamente, Gago foi demitido e um treinador velho conhecido do clube foi contratado: Miguel Ángel Russo, o responsável pelo título da Libertadores de 2007.

A nova mudança voltou a não surtir efeito no clube, que fez um Mundial bem abaixo do esperado, empatou com o modesto Auckland, atropelado pelos outros adversários do grupo, e acabou eliminado ainda na fase inicial. Além disso, uma discussão envolvendo a comissão técnica e Marcos Rojo também fez o clima estremecer.

As críticas a Riquelme aumentavam e a Copa da Argentina e o Clausura seriam a chance do clube apaziguar sua situação, ao menos no cenário doméstico. No último dia 23, cerca de um mês após a eliminação Xeneize do Mundial, o Boca enfrentou o Atlético Tucumán pela segunda fase da Copa Argentina.

Uma partida que poderia ser considerada simples para o clube ‘Azul y Oro’ acabou por desatar a crise de vez. Uma nova eliminação aconteceu com o clube do interior vencendo por 2 a 1. A partir daí, ninguém foi poupado, inclusive os nomes de peso do elenco como Edison Cavani, que há tempos não apresenta seu melhor futebol argentino.

Após a eliminação, o Boca ainda perderia para o Huracán no Clausura, chegando ao 11ª jogo seguido sem vitória. Essa foi a gota d’água para que Riquelme se tornasse ainda mais pressionado no cargo. Preocupado com a reação negativa da torcida, o presidente começou a agir nos bastidores para promover mudanças, rescisões com atletas e até a dissolução do conselho de futebol, composto por seus próprios aliados.

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Problema com jogadores aumenta crise no Boca

Antes de que membros da diretoria fossem destituídos dos cargos, um grande problema envolvia jogadores do atual elenco. Ainda em Miami, após a disputa do Mundial de Clubes, Russo tomou a decisão de afastar o trio formado por Marcos Rojo, Marcelo Saracchi e Cristian Lema. O treinador teria informado que considerava não contar com os três durante sua passagem pelo clube, o que gerou um mal estar.

Logo após a derrota do Xeneize para o Huracán, no Campeonato Argentino, Russo teria chamado seus atletas para uma conversa com o intuito de realizar uma autoavaliação. Posteriormente, ele afastou os atletas que não tinham atuado no confronto. A decisão irritou Marcos Rojo, que teria protagonizado uma discussão acalorada com o técnico.

Marcos Rojo no banco de reservas do Mundial de Clubes. Foto: Imago

Logo após a discussão, o treinador informou que os atletas afastados não iriam mais participar do grupo e treinariam separadamente, sem sequer poder entrar no vestiário com os companheiros.

Segundo a “TyC Sports”, a situação teria ficado ainda pior, visto que a informação do afastamento não teria partido do treinador, e sim dos próprios companheiros que avisaram que o trio precisaria utilizar outro vestiário. Somente depois disso membros do Conselho de Futebol teriam ido comunicar os atletas afetados.

Os motivos que teriam causado a dissolução do conselho

Essa situação envolvendo os jogadores foi apenas a ponta do iceberg que culminou na saída dos membros do conselho. Outros fatores teriam deixado Riquelme insatisfeito, o que fez o presidente optar por destituir os membros que já estavam em seus respectivos cargos desde 2019.

A “TyC Sports” listou ao menos seis motivos que fizeram a situação chegar a esse ponto.

1 – A demora para registrar reforços na Sul-Americana em 2024

Fora da Libertadores em 2024, restou ao Boca Juniors disputar a Sul-Americana, o primeiro torneio continental sob a direção de Riquelme. Após a fase de grupos, os Xeneizes terminaram na segunda posição do grupo, e enfrentariam o Independiente del Valle nos playoffs, buscando a vaga nas oitavas de final.

O clube poderia inscrever novos jogadores e eram esperados que os reforços contratados fossem colocados à disposição. No entanto, a lista enviada pelo Boca Juniors com os novos nomes chegou após o prazo estipulado pela Conmebol e eles não puderam ser inscritos. A justificativa da diretoria do clube foi o fuso horário da Argentina e do Paraguai, sede da entidade.

— Os jogadores Gary Medel, Tomás Belmonte, Brian Aguirre e Milton Giménez não foram inscritos devido a uma questão de diferença de fuso horário entre os dois países– comunicou o clube na época.

2 – A demissão de Battaglia

O jogador com mais títulos da história de Boca Juniors se tornou técnico do clube no período de 2021 a 2022, enquanto Riquelme era vice-presidente da equipe. Foram cerca de 11 meses de trabalho, até que a relação começou a ficar problemática. Após um período de insatisfação entre o treinador e a diretoria, foi definida a demissão do comandante. No entanto, a maneira como esse desligamento foi feito que chamou a atenção: em um posto de gasolina de Buenos Aires.

Batagglia como técnico do Boca Juniors. Foto: Imago

3 – Declaração após a eliminação na pré-Libertadores

Logo após o Boca ter sido eliminado na pré-Libertadores para o Alianza Lima, Maurício Serna, membro do conselho do clube deu algumas declarações que não agradaram os torcedores. No jogo seguinte à eliminação, a equipe foi vaiada. “Chicho” Serna resolveu então responder, deixando os torcedores furiosos.

— Eu entendo tudo, porque, infelizmente, nessa eu sou o culpado: nós os acostumamos mal. Fizemos algo que era muito difícil, na época fizemos parecer fácil, alguns anos atrás. E, bem, eles estão mal-acostumados. A quem mais doeu [a eliminação], acreditem, foi a nós, que estamos aqui no Boca todos os dias — disse à época.

4 – A briga generalizada contra o Atlético-MG

Em 2021, Boca Juniors e Atlético-MG se enfrentaram pelas oitavas de final da Libertadores. Neste duelo, disputado no Brasil, o clube Xeneize teve um gol polêmico anulado e foi eliminado nos pênaltis. Revoltados, os atletas iniciaram uma briga generalizada com membros do Galo nos vestiários.

Além dos jogadores envolvidos na confusão, dois membros da diretoria também foram flagrados brigando fisicamente com policiais no local. Marcelo Delgado e Jorge Bermúdez, que deveriam tentar apaziguar o conflito, estavam fazendo o contrário. A situação gerou sanções ao Boca Juniors, que teve de pagar multa de 30 mil dólares. A dupla de cartolas foi proibida de entrar em jogos da Conmebol por dois anos.

Boca Juniors x Atlético-MG pela Libertadores 2021. Foto: Imago

5 – Oferta de último minuto para Palacios

Em 2024, o Boca Juniors definiu que iria contratar o chileno Carlos Palacios, do Colo-Colo. O clube sondou o atleta por quase toda a janela de transferências, no entanto, a oferta só foi feita de maneira oficial quando o mercado estava quase fechado, sem dar chances para uma negociação.

A proposta chegou cerca de 45 minutos antes do fechamento da janela de transferências, e nos pediam que nos pronunciássemos sobre essa oferta. Nós convocamos uma reunião extraordinária do conselho para esse tipo de operação, temos certos procedimentos (…). Estavam nos pedindo que, em 30 minutos, aprovássemos uma operação de cinco milhões de dólares, o que não era viável — explicou Aníbal Mosa, responsável pelas negociações do Colo-Colo.

Com isso o negócio ruiu e o clube argentino precisou esperar, concretizando a chegada do jogador apenas no início de 2025.

6 – Os conflitos com jogadores do clube

Além dos casos envolvendo Marcos Rojo, Cristian Lema e Marcelo Saracchi, outros jogadores também tiveram problemas com a diretoria e conselho do clube. Durante quase seis anos nos quais o conselho atuou, conflitos envolvendo direção e atletas foram a tônica.

Alexis Mac Alister e Nahuel Molina em 2020, Carlitos Tevez e Mauro Zarate em 2021, Junior Alonso, Buffarini, Cristian Pavón, Pol Fernandez, Agustín Rossi, Agustín Almendra, dentre outros, foram alguns dos atletas que tiveram conflitos com a diretoria Xeneize. Ao todo, segundo a “TyC Sports”, foram 23 jogadores que se chocaram com membros do conselho.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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