A vitória de Riquelme no Boca Juniors também é uma mensagem contra a SAF no clube
Eleito com quase metade dos votos da oposição, o ídolo Riquelme é um ferrenho defensor de clubes associativos e deve manter dessa forma o Boca Juniors
Polêmicas, acusações dos dois lados e até a Justiça Argentina adiando a votação. A eleição no Boca Juniors, enfim realizada no último domingo (17), teve desdobramentos para se dar inveja na política brasileira. No fim, toda situação contraditória nem pareceu tão justa, afinal o ex-jogador Juan Román Riquelme venceu de lavada a oposição: 30.318, chegando aos 68% dos votos, contra 15.949 sócios a favor da chapa composta por Andrés Ibarra e Mauricio Macri, ex-presidente do clube e da Argentina. A eleição do ídolo dentro dos gramados também pode ser um recado de oposição a implementação de uma Sociedade Anônima nos Xeneizes.
No Brasil, para clubes que vivem com problemas financeiros, se transformar em uma SAF parece um caminho natural atualmente, seguindo o exemplo de Cruzeiro, Botafogo e Vasco. No Argentina, no entanto, mesmo com a crise financeira no país que também traz reflexos no esporte, isso não parece ser uma pauta. No último mês, os clubes vetaram de forma unanime a implementação dos modelos no futebol local em votação feita pela Federação Argentina de Futebol (AFA) – também uma resposta ao recém-eleito presidente do país argentino, Javier Milei, que defendeu publicamente a “privatização” dos clubes utilizando exemplo do futebol inglês e ainda foi vaiado e hostilizado quando foi apoiar a oposição no pleito de domingo.
Mesmo não falando isso publicamente, era esperado que a chapa Ibarra (economista de formação) e Macri pudesse mudar essa forma do Boca pensar e tentar retomar esse assunto. Riquelme sempre se posicionou contra e acusava os adversários políticos sobre uma possível venda.
– O torcedor precisa saber que estamos diante das eleições mais fáceis da história. Esses senhores, quando voltarem, vão privatizar o clube, vão dá-lo aos três amigos que têm por aqui, e não se vota nunca mais. Isso não pode acontecer. […] Essa gente não pode pisar no nosso clube nunca mais. Não são torcedores, querem usá-lo para outra coisa – acusou Riquelme, em 29 de novembro, durante coletiva de imprensa.
O Boca é um clube associativo, como os brasileiros Flamengo, Corinthians e outros. Mas ao contrário de muitos clubes do Brasil, nos Xeneizes há uma participação enorme dos sócios – algo que poderia mudar com a SAF.
Riquelme venceu a chapa Ibarra-Macri e durante a campanha uma de suas principais bandeiras foi se posicionar contra a ideia dos adversários que queriam tornar o Boca Juniors uma SAF ?
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— Trivela (@trivela) December 18, 2023
As polêmicas na eleição do Boca Juniors e a vitória histórica de Riquelme
Inicialmente, a votação estava prevista para acontecer em 3 de dezembro. Porém, a justiça acatou um pedido da oposição sobre a irregularidade de mais de 13 mil sócios de votarem no pleito. A nova data definida foi o último domingo, com os 13 mil depositando seus votos em urnas separadas. Isso ainda pode render mais controvérsias, visto que segue em andamento na justiça, e a oposição pode se aproveitar de qualquer irregularidade identificada.
O pleito entrou para história do futebol como o segundo que mais tiveram eleitores, 46,4 mil. O líder do quesito é o Barcelona, quando, em 2010, Sandro Rosell foi eleito em uma votação que contou com 57 mil votos.
Felicitaciones al Presidente más votado de la historia del fútbol argentino ??? pic.twitter.com/BHMbjjqXar
— Boca Juniors (@BocaJrsOficial) December 18, 2023
Riquelme está eleito, é fato, para um mandato até o fim de 2027. Antes, ele atuou entre 2020 e 2023 como vice de futebol no Boca Juniors. Nesse período, o clube venceu seis títulos, todos no âmbito nacional (dois Campeonatos Argentinos, duas Copas da Liga Argentina, uma Copa da Argentina e uma Supercopa Argentina). A Libertadores, que os Xeneizes já levaram seis vezes – mas não sabem o que é conquistar desde 2007 -, foi o calcanhar de aquiles da gestão, sendo a melhor campanha o vice-campeonato de 2023.
No próximo ano, o gigante argentino terá de se contentar em disputar a Copa Sul-Americana, ficando fora da Liberta após seis anos.



