Enquanto Boca e River ‘somem’ do cenário argentino, clubes fora do eixo ganham destaque
Enquanto River e Boca Juniors colecionam fracassos, equipes de menor expressão brilham nas competições e ganham força no cenário nacional
A vitória do Central Córdoba diante do Flamengo por 2 a 1 na Copa Libertadores deste ano, em pleno Maracanã, surpreendeu. Considerada um dos grandes azarões do torneio, a equipe que fazia sua estreia na maior competição continental não se intimidou e mostrou algo que, ao menos na Argentina, todos já sabiam: os clubes “fora do eixo” vem ganhando cada vez mais força.
Enquanto o time de Santiago del Estero mostrava todo o seu poder e fazia uma campanha chamativa na Libertadores, o modesto Platense fazia uma campanha histórica no Apertura Argentino, eliminando gigantes, e conquistava o primeiro título em 120 anos de história, em uma final eletrizante diante do Huracán. Muitos torcedores idosos tiveram a oportunidade de comemorar pela primeira vez um troféu da sua equipe. Já na Sul-Americana, o tradicional Racing despachou o Cruzeiro na grande final e voltou a ser campeão continental após 37 anos.
Antes disso, em 2024, Vélez, Huracán, Talleres e Racing brigaram até a última rodada pelo tão sonhado troféu do Campeonato Argentino, que acabou terminando nas mãos do clube de Liniers. Já a Copa da Argentina o campeão foi o Estudiantes de La Plata.

Boca Juniors e River Plate ‘somem’ do cenário
Cavani, uma das contratações mais badaladas do Boca Juniors dos últimos tempos, até balançou as redes já nos acréscimos do jogo contra o Atlético Tucumán, na última quarta-feira (24), mas não foi o suficiente para classificar os Xeneizes, que já perdiam de 2 a 0 na Copa Argentina.
O adeus precoce da equipe Azul y Oro, apenas na segunda fase do torneio, confirma que o Boca Juniors passa por problemas. A eliminação em Santiago Del Estero foi a quarta dos Xeneizes em um período de sete meses. Desde janeiro de 2025, a equipe deu adeus à Libertadores, na fase pré, ao Apertura Argentino, nas quartas de final, e ao Mundial de Clubes, na fase de grupos.
Enquanto isso, equipes do interior ou de menor expressão conquistavam as vagas deixadas pelos gigantes da capital e brigavam por títulos, faziam campanhas históricas e iam marcando cada vez mais sua força. Assim como o Boca, o principal rival River Plate também “desaparecia”, principalmente no cenário nacional.
O último título dos Xeneizes aconteceu em 2022, quando conquistou o Campeonato Argentino, a Supercopa Argentina e a Copa da Liga Argentina. Já o River Plate ergueu seu último troféu em 2023, sendo campeão da Supercopa Argentina, do Trofeo de Campeones e também foi campeão nacional.
No período de 2024 e início de 2025, as duas maiores potências argentinas deixaram de figurar nos podiós e viraram assunto pelas campanhas pífias e vergonhosas que apresentaram.
— O River teve alguns altos e baixos nos últimos anos. Sofreu com a troca de treinador, e o trabalho era diferente. O atual técnico teve que reorganizar algumas peças, não apenas no aspecto futebolístico, mas também institucional. Por outro lado, o Boca esteve perto de ganhar uma Libertadores há dois anos, mas, em termos de desempenho, não convence. Vários treinadores passaram pelo clube e foram contratados jogadores de renome internacional como Cavani e Paredes — explica o jornalista Franco Abatino, da “ESPN Argentina”.

O Boca Juniors, segundo maior campeão da Libertadores, foi vice do torneio em 2023, sequer participou da edição de 2024 e acabou eliminado na pré-Libertadores, para o Alianza Lima, no início do ano. Agora, eliminado precocemente da Copa Argentina, corre o risco de não se classificar para a edição 2026.
No Mundial de Clubes, empatou com o Benfica, perdeu para o Bayern de Munique, e foi o único clube do grupo que não conseguiu triunfar contra o modesto Auckland City, da Nova Zelândia, empatando o placar em 1 a 1. Com os resultados, os Xeneizes não avançaram para a fase mata-mata.
Por outro lado, o River Plate esteve presente nas últimas dez edições da Libertadores, chegou a ser campeão em 2015 e 2018, fez algumas boas campanhas em outros anos, mas em 2023 se despediu do torneio nas oitavas, perdendo para o Internacional, e em 2024 chegou até a semifinal, mas caiu para o Atlético Mineiro.
Já na competição mundial, os Millonarios venceram o Urawa Reds, empataram com o Monterrey sem gols e perderam para a Internazionale, também ficando fora da competição ainda na fase de grupos.
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O que explica esse sumiço?
O Campeonato Argentino sempre foi competitivo, ainda que Boca Juniors e River Plate dominem o cenário nacional e sejam os maiores campeões. Os Millonarios somam 38 títulos, enquanto os Xeneizes são detentores de 35 troféus.
Racing (18), Independiente (16), San Lorenzo (15) e Vélez (11) seguem o ranking de maiores campeões do torneio. Apesar da diferença de quase 20 títulos entre os dois maiores clubes do país e os demais, o Campeonato Argentino pode ser considerado bastante competitivo.
— É (competitivo), mas está muito desvalorizado. Houve muitas modificações, mudanças de regulamento durante o andamento do torneio, e, em alguns anos, não há rebaixamento. Enquanto esses formatos de torneios curtos continuarem, isso vai seguir acontecendo. Porque hoje em dia não é necessário ser regular para ser campeão. Hoje em dia você pode ser campeão nos pênaltis, não se sabe ao certo se ganhou um torneio ou uma copa. Existem torneios de anos anteriores que ainda não foram disputados, como o Troféu dos Campeões e a Supercopa Argentina entre Boca e River desde 2021 — avalia Abatino.

De fato, nos últimos anos, o Campeonato Argentino passou por diversas mudanças em seus regulamentos. Até 2011, o torneio era dividido entre Apertura e Clausura. Já em 2012, passou a se chamar Inicial e Final. Em 2014, o campeonato foi de transição, visto que em 2015 passaria a ser disputado como pontos corridos.
Em 2016, dois torneios foram disputados, um durante o primeiro semestre do ano, e outro que começou em agosto e seguiu até junho do ano seguinte, seguindo o calendário europeu.
Esse formato inspirado na Europa seguiu até 2020, quando o campeonato foi cancelado devido à pandemia de Covid-19. Ao retornar em 2021, seguiu o formato de pontos corridos, mas seguindo o calendário sul-americano, ou seja, iniciando no início do ano e finalizando em dezembro.
No entanto, em 2025 a competição outra vez foi alterada, adotando novamente o formato Apertura e Clausura e retornando com os rebaixamentos, algo que também foi muito irregular nos últimos anos.
— O futebol argentino, de forma geral, é muito irregular. Hoje em dia, com os novos formatos de torneio, sendo “curtos” e com eliminação direta, dá-se a possibilidade para que equipes consideradas “pequenas” se destaquem — destacou Abatino.
Nos últimos anos, isso vem ficando cada vez mais claro, com clubes do interior do país e de fora do eixo conquistando títulos e firmando seu nome no cenário nacional e continental.
Dentro de campo situação também é crítica
Não são apenas as mudanças nos campeonatos que fazem com que os clubes argentinos percam força. Dentro de campo, as situações de Boca Juniors e River Plate também são criticas.
Os Xeneizes ainda não conseguiram se firmar com um treinador e, em 2025, já foram comandados por Fernando Gago, Mariano Herrón (interino) e agora Miguel Ángel Russo. Sem um padrão fixo de jogo, acumulou derrotas e fracassos no ano, ainda que tenha uma equipe com jogadores de nome e tenha se reforçado no início do ano. O presidente do clube, Juan Román Riquelme, também não convence e gera críticas por parte dos torcedores e da oposição, piorando a crise que o clube vive.
Já o River Plate mantém Marcelo Gallardo, mas não consegue repetir o sucesso que o treinador teve durante a primeira passagem. O clube tem um elenco mal desenhado e não consegue extrair perfeitamente tudo o que gostaria.

O Millonario se reforçou no mercado e tem peças importantes que atuam como titulares, como os campeões do mundo Montiel, Pezzella e Acuña. No entanto, o banco de reservas não corresponde e deixa a equipe enfraquecida.
— Temos que armar o melhor elenco possível. Precisamos que nos dê a possibilidades de brigar em cima. Não só na Libertadores, que é nosso objetivo principal. Não é fácil ganhar, mas temos que brigar. Temos que competir. Precisamos pensar no que vem aí a curto e longo prazo — disse Gallardo em entrevista coletiva após a eliminação do Mundial de Clubes.



