Enquanto o Rangers tenta hoje voltar a se estabelecer como um clube expressivo no cenário europeu (foi, entre outros feitos, campeão da Recopa e finalista em outras duas ocasiões), seus torcedores nunca esquecem a grande campanha do time na Copa dos Campeões de 1992/93, vinda bem no meio de uma longa hegemonia nacional. Vencendo uma batalha britânica no caminho e ombreando com as potências da época, o clube esteve muito perto da final, ainda que a vaga tenha sido perdida em circunstâncias suspeitas.

Maior campeão escocês, o Rangers viveu período complicado na primeira metade dos anos 80. Em meio à ascensão de Aberdeen e Dundee United (que formavam a chamada “New Firm”) não apenas no cenário nacional como também no europeu, o clube de Ibrox passou nove anos sem conquistar a Premier Division escocesa, entre 1978 e 1987. Chegou inclusive a não se classificar para nenhuma das copas europeias da temporada 1980/81.

A REVOLUÇÃO SOUNESS

A reação só veio quando o clube contratou o meia Graeme Souness para acumular as funções de jogador e técnico no início da temporada 1986/87. Embora escocês, e com três Copas do Mundo disputadas pelo Tartan Army, Souness nunca havia defendido um clube local até aportar nos Gers, vindo da Sampdoria em maio de 1986. Iniciara a carreira no Tottenham, indo em seguida para o Middlesbrough até chegar ao Liverpool, onde se consagraria e se tornaria ídolo. 

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Talvez até por essa pouca familiaridade com o cenário clubístico de seu país, o novo treinador tratou de reforçar o elenco tomando medida inusitada e bastante polêmica na Escócia: contratar ingleses. Ao longo das cinco temporadas em que esteve à frente do clube, Souness trouxe nada menos que 18 jogadores daquela nacionalidade, entre reforços baratos pescados em times pequenos e jogadores de seleção trazidos de clubes da Europa continental.

O influxo de ingleses chegou ao ponto de, na Copa do Mundo de 1990, na Itália, o Rangers ser o clube que mais cedeu jogadores para a seleção da Inglaterra – eram quatro: o goleiro reserva Chris Woods, o lateral-direito Gary Stevens, o zagueiro e capitão Terry Butcher e o meia-direita Trevor Steven. Também pesava a favor nessa migração o fato de os times escoceses jogarem as copas europeias, em tempos de banimento dos ingleses pela Uefa após Heysel.

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Em casa, Souness e seus ingleses obtiveram grande sucesso. Após tirarem o clube da fila em 1987, recuperaram-se da perda do título para o Celtic no ano seguinte iniciando uma histórica série de conquistas na liga local em 1989. O treinador, porém, não ficaria por muito tempo. Em abril de 1991, ele atenderia ao chamado do Liverpool para ocupar o lugar deixado vago em fevereiro por Kenny Dalglish, seu ex-colega de clube e também ídolo histórico em Anfield.

Quando Souness deixou Ibrox, o campeonato escocês de 1990/91 ainda estava a quatro rodadas de terminar, e com os Gers ameaçados de perderem a liderança para o Aberdeen. A missão caiu então no colo do auxiliar, Walter Smith, que a cumpriu com êxito, embora não sem sofrimento: o time chegou a ser superado na ponta e precisou vencer o confronto direto com os Dons na última rodada. O atacante Mark Hateley, outro inglês, fez os gols do título.

Na temporada seguinte, o quarto título escocês consecutivo veio com folga, nove pontos à frente do Hearts. E mais uma vez colocou o Rangers na Copa dos Campeões da Europa, que naquele mesmo momento passava por mudanças. A Uefa havia decidido suprimir as fases de quartas de final e semifinal no sistema de mata-mata instituindo no lugar dois grupos de quatro equipes que se enfrentavam em ida e volta para apontar os finalistas. 

VONTADE DE BRILHAR NA EUROPA

Instituída naquela temporada 1991/92, esta nova fase de grupos recebeu o nome de Liga dos Campeões. Na primeira edição, o Rangers não chegou a se classificar, eliminado ainda na primeira fase pelo Sparta Praga após ser derrotado na então Tchecoslováquia por 1 a 0 e vencer por 2 a 1 em Glasgow, caindo nos gols fora de casa. A saída precoce do torneio também lembrava ao clube que há tempos ele andava devendo uma grande campanha europeia.

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Hegemônico em casa, o Rangers não havia conseguido sequer chegar entre os quadrifinalistas da Copa dos Campeões: caíra para o Bayern de Munique ainda na primeira fase em 1989/90, para o futuro campeão Estrela Vermelha nas oitavas na campanha seguinte e então para o Sparta Praga. E enquanto o rival Celtic já ostentava desde 1967 a taça da competição em sua sala de troféus, os Gers só haviam chegado uma vez às semifinais, em 1959/60.

Para dificultar um pouco mais a missão, a Uefa havia decretado outra medida que atingiu em cheio os clubes britânicos naquele momento: dali em diante, e ao contrário do que acontecia antes, os jogadores de outras nações britânicas que não do país do clube em questão passariam também a contar como estrangeiros. De modo que a “colônia inglesa” do Rangers viu seu espaço bastante restrito, além de disputar espaço com forasteiros de outros países.

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Assim, no início da temporada 1992/93, o clube negociou dois de seus ingleses, o volante Nigel Spackman com o Chelsea e o atacante Paul Rideout com o Everton, enquanto trazia de volta o meia-direita Trevor Steven, vendido ao Olympique de Marselha um ano antes por fabulosos £ 5,5 milhões. O outro reforço era escocês: o defensor Dave McPherson, revelado pelo próprio clube, mas que ironicamente havia sido vendido por Graeme Souness ao Hearts em 1987.

O elenco daquela campanha contaria então com cinco ingleses (além de Trevor Steven, havia ainda os já citados Gary Stevens e Mark Hateley, mais o ponta Dale Gordon, ex-Norwich, e o armador Stephen Watson, revelado pelo próprio clube), um holandês (o ponta-esquerda Pieter Huistra, ex-Twente e com passagem pela Oranje) e dois ucranianos, o zagueiro Oleg Kuznetsov (ex-Dinamo Kiev) e o meia Alexei Mikhailichenko (ex-Sampdoria).

O contingente local também tinha bons valores: havia a espinha dorsal da seleção escocesa que havia acabado de jogar a Eurocopa de 1992 na Suécia, formada pelo goleiro Andy Goram, o zagueiro e capitão Richard Gough, o meia Stuart McCall e o atacante Ally McCoist, e ainda outros nomes com passagem pela seleção principal, como o lateral-esquerdo David Robertson, os meias Ian Durrant e Ian Ferguson e o já citado Dave McPherson.

Com tanto talento e experiência disponíveis, o clube nadou de braçadas em todas as competições domésticas. A liga foi conquistada ainda com quatro jogos por fazer, após bater o Airdrieonians por 1 a 0 fora de casa e depois de ter sustentado uma invencibilidade de 29 partidas entre agosto de 1992 e março de 1993. Nas duas copas, os títulos vieram com vitórias em todos os jogos e em triunfos sobre o Aberdeen pelo mesmo placar de 2 a 1 em ambas as decisões.

O grande objetivo da temporada, no entanto, era fazer uma boa campanha na Europa. E ela viria em grande estilo. A trajetória começaria com duas fases em mata-mata. Na primeira delas, o time enfrentaria o Lyngby, campeão dinamarquês e que contava com o zagueiro Claus Christiansen, integrante do elenco da Dinamarca que havia acabado de surpreender o continente ao vencer a Eurocopa, além do meia Henrik Risom, também com passagem pela seleção.

O TIME-BASE

O Rangers tinha uma defesa toda escocesa e experiente, a começar por Andy Goram, um dos melhores goleiros do país e se afirmava como titular da seleção. No miolo de zaga, havia Richard Gough (ex-Tottenham) e John Brown, 30 anos, no clube desde 1988. Pelos lados, enquanto David Robertson era o dono da ala esquerda, o novo contratado Dave McPherson, central de origem, adaptava-se à lateral direita como um marcador seguro e apoiador esporádico.

Os dois não-escoceses do setor acabaram nem atuando na campanha europeia: o zagueiro Oleg Kuznetsov sofreu ruptura de ligamentos pouco depois de chegar ao clube e atuou pouco em sua passagem de quatro anos por Ibrox. Já o lateral-direito Gary Stevens começou a temporada ainda se recuperando da fratura no pé direito que o levou a ser cortado da seleção inglesa às vésperas da Eurocopa na Suécia. Quando voltou, ficou de fora pelo limite de estrangeiros.

O meio-campo – a segunda linha de quatro no 4-4-2 de Walter Smith – baseava-se no apoio forte pelas pontas. Pela direita, Trevor Steven garantia boas jogadas de fundo, enquanto na esquerda dois nomes revezavam: o veloz e driblador Pieter Huistra e o talentoso Alexei Mikhailichenko, que se destacava pela ótima técnica e visão de jogo. Pelo meio, três nomes atuavam com frequência: o versátil Stuart McCall, o aguerrido Ian Ferguson e o talentoso Ian Durrant.

Nascido na Inglaterra, mas de origem escocesa (e por isso defendia o “Tartan Army”), McCall era o pulmão da equipe, incansável ao correr o campo todo. Ferguson era o volante “mordedor”, forte no desarme. Durrant, por sua vez, chegara a ter a carreira tida como encerrada alguns anos antes, ao sofrer entrada dura de um jogador do Aberdeen. Já recuperado, era peça importante na armação e podia também jogar mais adiantado, na ligação com o ataque.

Na frente, jogava a dupla letal formada pelo escocês Ally McCoist e pelo inglês Mark Hateley. Juntos, anotaram nada menos que 78 gols na temporada. Ídolo e torcedor do Rangers, McCoist era titular da seleção da Escócia e ótimo finalizador. Já o grandalhão Hateley, forte no jogo aéreo com seu 1,91 metro, tinha no currículo boas passagens pelo Milan e Monaco, além de 32 partidas pela Inglaterra que incluíam a Copa do Mundo de 1986.

O primeiro jogo com o Lyngby veio em 16 de setembro de 1992 em Ibrox, e o Rangers venceu fácil por 2 a 0, com um gol em cada tempo. Hateley cabeceou um cruzamento da esquerda para abrir o placar e, na etapa final, Huistra concluiu jogada nascida de roubada de bola na saída de jogo dos dinamarqueses para fechar a contagem. Na volta, um gol de Durrant a cinco minutos do fim, vencendo a linha de impedimento, deu outra vitória, agora por 1 a 0.

A BATALHA BRITÂNICA

Vieram então dois dos confrontos mais memoráveis da campanha: a chamada “Batalha Britânica” contra o Leeds, campeão inglês e que havia avançado após eliminar o Stuttgart (detentor do título da Bundesliga) graças a um descuido do adversário. Batidos por 3 a 0 na Alemanha, os Whites venceram por 4 a 1 em Elland Road e teriam sido eliminados pelos gols fora de casa. Só que naquela partida os suábios haviam utilizado um estrangeiro além do permitido.

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Diante da irregularidade, a Uefa se reuniu e declarou o Leeds vencedor do jogo de volta por 3 a 0, como mandava o regulamento. E, diante da igualdade do placar agregado, determinou um jogo extra, em campo neutro (no caso, o Camp Nou, em Barcelona) para definir quem avançaria naquele confronto. Deu Leeds 2 a 1. A vitória colocou a equipe de Yorkshire no caminho do Rangers, deixando a expectativa de dois jogos repletos de rivalidade regional.

O Leeds contava com um meio-campo fortíssimo, que reunia os escoceses Gordon Strachan e Gary McAllister, o inglês David Batty e o galês Gary Speed. Na frente, havia ainda o francês Eric Cantona, que logo trocaria os Whites pelo Manchester United. E mostrou que não estava para brincadeiras quando saiu na frente logo no primeiro minuto em Ibrox, quando McAllister apanhou rebote de um escanteio e acertou um sem-pulo no ângulo. Um golaço.

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Empurrado por seus torcedores após o choque inicial, o Rangers foi para cima e criou chances. Ally McCoist reclamou de um pênalti não marcado ao ser travado pelo zagueiro Chris Whyte na hora de finalizar. E o time acabaria encontrando o gol de empate numa falha do goleiro John Lukic. Num escanteio, ele tentou socar a bola, mas ela espirrou e acabou tomando o caminho do gol. O lateral Tony Dorigo ainda chutou para afastar, mas ela já havia entrado.

Ainda na primeira etapa, houve tempo para Ally McCoist salvar em cima da linha, junto à trave, uma cabeçada de Chris Whyte após escanteio que tinha endereço certo. E para o gol da virada do Rangers, aos 36 minutos, em mais um escanteio, agora do outro lado, e de novo com McCoist no papel de herói: após a cobrança, Dave McPherson subiu mais alto que a zaga e testou. Lukic espalmou, mas o camisa 9, sempre oportunista, apareceu para conferir.

O Rangers criou chances para aumentar a vantagem no restante da primeira etapa e em todo o segundo tempo, mas o jogo terminou mesmo 2 a 1, vantagem não muito confortável para ser levada para Elland Road, já que uma vitória pelo placar mínimo daria a vaga ao Leeds. E os Whites já começariam em cima, com Andy Goram salvando uma chance de Cantona. Mas, assim como havia acontecido em Ibrox, os visitantes surpreenderam logo cedo.

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Aos dois minutos, Goram repôs a bola em jogo com um chutão que atravessou o campo. Durrant ajeitou, entregando a Hateley, que acertou um chutaço da quina da área, abrindo o placar para o Rangers. Precisando de no mínimo dois gols para pelo menos levar a decisão aos pênaltis, o Leeds pressionava, mas esbarrava em atuação inspirada de Andy Goram. E se expunha aos contra-ataques, como quando Lukic fez milagre para deter uma finalização de McCoist.

Aos 14, sofreria o segundo gol exatamente num contragolpe, puxado brilhantemente por Mark Hateley, primeiro ao deixar a bola passar para o apoio de Ian Durrant pela ala esquerda. E depois, ao receber de volta, pelo cruzamento na medida para Ally McCoist mandar de cabeça para as redes e deixar o Leeds precisando de um milagre: quatro gols em pouco mais de 40 minutos. Mas só viria o de honra, com Cantona descontando a quatro minutos do fim.

A FASE DE GRUPOS

Encerradas as etapas eliminatórias, era a vez de começar a fase de grupos, que havia recebido a nomenclatura de Liga dos Campeões. O Rangers foi sorteado no Grupo A, ao lado do CSKA Moscou, do Club Brugge e o Olympique de Marselha. O vencedor da chave avançaria direto para a decisão do torneio a ser disputada no Olympiastadion de Munique contra o campeão do Grupo B, que reunia Milan, PSV Eindhoven, Porto e IFK Gotemburgo.

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O CSKA havia sido o responsável pela grande zebra do torneio até ali, ao deixar o Barcelona de Johan Cruyff, detentor do título, de fora da fase de grupos. Após um empate em 1 a 1 em Moscou, os catalães chegaram a abrir 2 a 0 no Camp Nou, mas os russos buscaram uma virada incrível e venceram por 3 a 2. Seus destaques eram o goleiro Dimitri Kharine, os defensores Sergei Fokin, Yevgeni Bushmanov e Sergei Kolotovkin e o atacante Ilshat Fayzulin.

Dos quatro, o Club Brugge era o que menos chamava a atenção pelo momento, já que só passara nos gols fora de casa pelo Austria Viena. Mas contava com nomes experientes da seleção belga, como os versáteis Lorenzo Staelens e Franky Van Der Elst, o lateral-esquerdo Vital Borkelmans, o goleiro Dany Verlinden e o zagueiro Pascal Plovie, além do defensor húngaro Laszlo Disztl (veterano da Copa de 1986) e do atacante nigeriano Daniel Amokachi.

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O favorito destacado do grupo era o Olympique de Marselha, então um dos esquadrões mais fortes da Europa e que perseguia o título que lhe havia escapado dois anos antes ao perder nos pênaltis a decisão contra o Estrela Vermelha. Entre os nomes daquela equipe, estavam os franceses Fabien Barthez, Marcel Desailly, Didier Deschamps, Jocelyn Angloma, Franck Sauzée e Basile Boli, o alemão Rudi Völler, o croata Alen Boksic e o ganês Abedi Pelé.

E os marselheses seriam os adversários do Rangers na primeira rodada, no dia 25 de novembro de 1992, em Ibrox. No primeiro tempo, o time da casa perdeu ótima chance em chute cruzado de Mikhailichenko que percorreu toda a boca do gol, mas saiu pela linha de fundo. Os franceses responderam numa finalização de Völler, defendida por Goram. Mas o goleiro não pôde deter o chute forte de Boksic, que abriu o placar para os visitantes aos 31 minutos.

O gol abalou o Rangers, que poderia ter sofrido outros ainda na primeira etapa. E acabou levando o segundo no início da etapa final, numa falha do zagueiro reserva Steven Pressley (que entrara no lugar de Gough) aproveitada por Völler. Goram ainda salvou o time mais duas vezes antes de começar a reação, que veio aos 34, quando Mikhailichenko cruzou alto da esquerda e o atacante reserva Gary McSwegan cabeceou com estilo, colocado, no ângulo de Barthez.

Para o delírio de Ibrox, o empate viria dois minutos depois. Mikhailichenko desarmou Abedi Pelé na ponta esquerda e a bola ficou com Ian Durrant, que tabelou, foi à linha de fundo e cruzou à meia-altura. Hateley mergulhou e desviou de cabeça para as redes de Barthez. O Rangers estava vivo. No outro jogo do grupo, o Club Brugge recebeu o CSKA e venceu por 1 a 0. Os russos agora seriam os próximos adversários dos Gers, no dia 9 de dezembro.

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Com os estádios de Moscou avaliados pela Uefa como sem condições de receberem jogos da Liga dos Campeões durante o rigoroso inverno, o CSKA foi obrigado a mandar suas três partidas na Alemanha. A primeira, em Bochum, seria vencida pelo Rangers com um gol logo aos 13 minutos, quando Hateley aproveitou saída errada do goleiro Guteev, ganhou disputa pelo alto na área e deixou a bola para Ian Ferguson, que chegou às redes num chute resvalado na zaga.

Com três pontos em dois jogos, os escoceses assumiam a ponta do grupo ao lado do Olympique de Marselha, que, no entanto, levava a melhor no saldo após ter batido o Club Brugge por 3 a 0 no Vélodrome no mesmo dia. A terceira rodada seria realizada já em 1993, no dia 3 de março, e ambas as partidas – Club Brugge x Rangers na Bélgica e CSKA Moscou x Olympique de Marselha no Olympiastadion de Berlim – terminariam empatadas em 1 a 1.

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O Brugge saiu na frente no último minuto da primeira etapa, quando um lateral cobrado para a área foi mal afastado pela defesa do Rangers, e o polonês Tomasz Dziubinski pegou o rebote e mandou para as redes. Mas os escoceses empatariam aos 27 minutos da etapa final: na confusão que se seguiu após uma cobrança de escanteio, a bola chegou ao ponta-esquerda holandês Pieter Huistra, que finalizou de pé direito para garantir um ponto.

A tabela seria invertida para a rodada seguinte, com o Rangers recebendo o Brugge e o Olympique enfrentando o CSKA na França. Em Ibrox, os escoceses abriram o placar contra os belgas a seis minutos do intervalo, com Ian Durrant recebendo um lindo passe de Trevor Steven e tocando na saída do goleiro. Mas as coisas se complicariam com a expulsão de Hateley aos 44, após acertar uma cotovelada num defensor belga. E ficariam piores.

Logo aos dez minutos da etapa final, Lorenzo Staelens recebeu passe sozinho na área e só teve o trabalho de tirar de Andy Goram para empatar o jogo. Mas o Rangers salvaria seus dois pontos graças a um gol bizarro aos 25 minutos. Marcado por dois, Trevor Steven tentou cruzar e a bola acertou o meia McCall. O zagueiro Scott Nisbet pegou a sobra e alçou de novo para a área. Mas a bola fez a curva, quicou no gramado e encobriu o goleiro do Brugge.

Foi uma vitória importante para seguir na liderança ao lado do Olympique. Após empatarem com o CSKA em Berlim, os franceses surraram os moscovitas por 6 a 0 no Vélodrome e abriram ainda mais vantagem no saldo. Mas a rodada seguinte, no dia 7 de abril, marcaria o jogo dos líderes, o verdadeiro tira-teima em Marselha. Infelizmente para o Rangers, sem Mark Hateley, fundamental no jogo de ida e suspenso após a expulsão diante do Brugge.

HORA DE DECIDIR

Embora aparentasse certo nervosismo no jogo, o Olympique saiu na frente aos 16 minutos: Sauzée recuperou uma bola na intermediária defensiva do Rangers e entregou a Völler, que desceu pela direita e cruzou rasteiro para o chute forte e seco do próprio Sauzée de fora da área. Na etapa final, os marselheses assustaram de novo com Sauzée, que acertou o travessão numa cobrança de falta. Mas aos sete minutos, os escoceses chegariam ao empate. 

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O gol nasceu de um escanteio cobrado por Trevor Steven e que Desailly afastou de cabeça para o lado da área. Mas Ian Durrant, que vinha chegando, encheu o pé num chute cruzado para fuzilar Fabien Barthez e deixar o Rangers novamente vivo na briga. Os dois times chegavam à última rodada empatados na liderança com sete pontos, contra cinco do Club Brugge (que tinha remotas chances matemáticas) e apenas um do já eliminado CSKA Moscou.

No dia 21 de abril, o Rangers receberia o CSKA Moscou tendo de vencer e torcendo ainda para que o Olympique perdesse pelo menos um ponto na visita ao Brugge, já que o saldo de gols dos marselheses era bem superior. Era um cenário possível, visto que os belgas ainda não estavam de todo fora do páreo e poderiam tentar complicar. Mas o desfecho seria outro – e bastante decepcionante para os Gers.

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Na Bélgica, o Olympique de Marselha marcou logo aos dois minutos, depois que Borkelmans falhou feio e Jean-Marc Ferreri entregou a Boksic, que tocou na saída do goleiro. Já em Ibrox, o Rangers – outra vez sem Hateley – tinha pela frente um CSKA que mostrava a intenção de estragar os planos dos escoceses. O grito de gol ficou preso na garganta dos torcedores pela primeira vez quando o goleiro Plotnikov fez milagre para agarrar uma cabeçada de Gough.

Enquanto o eliminado CSKA mostrava muita aplicação e chegava até a pressionar o Rangers em certos momentos do jogo, o Club Brugge, em tese ainda no páreo e mesmo diante de sua torcida, parecia inerte contra o Olympique. Boksic, por exemplo, teve duas chances de aumentar o placar que acabaram acertando a trave. Com o empate sem gols persistindo no primeiro tempo em Glasgow, os Gers começaram a se enervar e se complicar em jogadas fáceis.

Na etapa final, o grito de gol ficaria preso nas gargantas escocesas pela segunda vez quando Trevor Steven acertou o travessão ao tentar tirar a finalização do alcance do goleiro. Jogando contra o relógio, o Rangers perdia incontáveis chances claras de gol. Plotnikov, de apenas 20 anos, também evitou em cima da linha que McPherson colocasse a bola para dentro. O domínio já era absoluto, mas o gol não saia e o desespero aumentava.

Plotnikov ainda voou para deter um chute rasteiro, queimando grama, de McCall e uma bomba cruzada de fora de área de Brown. No último lance, Durrant não conseguiu alcançar na pequena área uma bola ajeitada de cabeça por Ferguson. O apito final sacramentou a enorme frustração dos Gers, ainda que a torcida tenha reconhecido a garra do time após o fim da partida. Bem diferente de Bruges, onde o time local saiu vaiado na derrota para o Olympique.

O fato era que o Rangers estava eliminado da Copa dos Campeões sem ter sofrido nenhuma derrota desde a fase de mata-mata (ao todo, seis vitórias e quatro empates nas dez partidas). Enquanto isso, o Olympique avançaria à final em Munique no dia 26 de maio e bateria o Milan (que vinha de vencer todos os seus jogos até ali) por 1 a 0, gol do zagueiro Basile Boli, tornando-se o único time francês a conquistar a principal competição europeia de clubes.

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Meses depois, estouraria o escândalo de suborno envolvendo o presidente do Olympique, Bernard Tapie, o gerente do clube, Jean-Pierre Bernès, e quatro jogadores, sendo três do Valenciennes, aliciados para “pegar leve” no confronto contra os marselheses pela última rodada do Campeonato Francês às vésperas da decisão da Liga dos Campeões. Logo, naturalmente, uma enorme pulga começou a coçar atrás das orelhas dos torcedores do Rangers.

No processo que investigou Tapie por corrupção, em 1997, o jogo da classificação contra o Club Brugge também foi analisado, mas nada pôde ser provado. O técnico do CSKA chegou a anunciar após os 6 a 0 do Vélodrome que seus jogadores também teriam sido abordados, mas logo retirou as acusações. Mark Hateley, porém, revelou anos depois que recebeu – e recusou – uma proposta de dinheiro para não enfrentar o Olympique no jogo de volta em Marselha.

Embora o amargor das suspeitas de ter perdido a vaga na final por meios ilícitos se misture com a frustração de não ter conseguido fazer o resultado em casa no último jogo, o Rangers lembra com carinho a grande campanha europeia de 1992/93 em meio a uma temporada já excelente em casa. Até porque nunca mais nenhum outro clube escocês esteve tão perto assim da decisão da principal competição europeia de clubes. E dificilmente voltará a estar.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.