O México de 1986: a única vez que El Tri chegou ao quinto jogo na Copa do Mundo
Na segunda vez que sediou a Copa do Mundo, o México conseguiu chegar ao seu melhor resultado, as quartas de final. Desde então, El Tri tenta chegar ao esperado quinto jogo
Perto de receber partidas de Copa do Mundo por uma inédita terceira vez na história, o México realizou suas melhores campanhas em Mundiais justamente quando foi sede, em 1970 e 1986, alcançando as quartas de final em ambas. A segunda, contudo, foi mais expressiva: sob o comando do iugoslavo Bora Milutinović, El Tri terminou na liderança de seu grupo, precisou superar uma fase de mata-mata a mais e foi eliminada sem perder nenhum jogo, além de ter marcado um dos gols mais bonitos do torneio. Aquela foi ainda a única ocasião na história das Copas em que o México superou a barreira das oitavas e fez a quinta partida.
Em busca da autoestima perdida
Principal força histórica da Concacaf, o México levou tempo para mostrar seu poderio no cenário mundial. Participante habitual das Copas do Mundo desde a primeira edição, só conseguiu, no entanto, pontuar pela primeira vez na Suécia, em 1958, ao arrancar o empate em 1 a 1 com Gales graças ao gol de Jaime Belmonte no último minuto. Já a primeira vitória viria no Mundial seguinte, no Chile, com um 3 a 1 de virada sobre a Tchecoslováquia – curiosamente após sofrer o gol mais rápido das Copas até ali, de Václav Mašek aos 16 segundos.
Assim, quando El Tri chegou ao Mundial o qual o país sediaria, em 1970, apresentava cartel ainda modesto no torneio: 17 jogos, uma vitória, três empates e 13 derrotas. Mas, com o apoio de sua fanática torcida que lotou o Estádio Azteca, inaugurado quatro anos antes, a seleção conseguiu a inédita classificação à fase seguinte após empatar com a União Soviética (0 a 0), golear El Salvador (4 a 0) e bater a Bélgica (1 a 0) com um pênalti um tanto duvidoso. Mas a perda do primeiro lugar do grupo para os soviéticos obrigou a seleção a se deslocar.
Em Toluca, nas quartas de final, o México acabaria eliminado com goleada por 4 a 1 por uma Itália que só havia marcado um gol na fase de grupos. Embora o resultado expusesse certas fragilidades do time sob o comando de Raúl Cárdenas, a campanha foi considerada positiva e aparentemente pavimentava um caminho evolutivo para a seleção. Mas não foi o que aconteceu pela década que se seguiu. O México conseguiu não se classificar para duas das três Copas seguintes (1974 e 1982) e teve desempenho bisonho em 1978, na Argentina.
No torneio classificatório para o Mundial da Alemanha Ocidental, os mexicanos já chegaram sem chances à última rodada do turno final disputado em Porto Príncipe (Haiti), depois de sofrerem goleada vexatória de 4 a 0 para Trinidad & Tobago. Já nas Eliminatórias para a Copa da Espanha, em outro hexagonal decisivo, agora realizado em Tegucigalpa (Honduras), a seleção da casa logo disparou e pegou a primeira vaga. A segunda, disputada entre México, Canadá e El Salvador, foi definida na rodada decisiva em favor dos salvadorenhos.
Quando conseguiu se classificar, para a Copa de 1978, a seleção fez campanha para esquecer. Na estreia, contra a debutante Tunísia, permitiu aos africanos conquistarem a primeira vitória de uma equipe do continente na história da competição: 3 a 1. Em seguida, perderia por acachapantes 6 a 0 para uma Alemanha Ocidental que faria um torneio decepcionante, vencendo apenas aquela partida. Na despedida, outra derrota por 3 a 1, desta vez para a Polônia, encerraria a participação mexicana com zero ponto e 12 gols sofridos em três partidas.
Com moral baixíssima no início da década seguinte após todos esses papelões, a seleção mexicana não entrou em campo nenhuma vez ao longo do ano de 1982. Mas no fim daquele ano, no dia 25 de outubro, um fato desencadearia uma profunda mudança na rota do futebol asteca: escolhida pela Fifa em junho de 1974 como sede do Mundial a ser realizado em 1986, a Colômbia anunciava oficialmente sua desistência de receber a competição, confirmando especulações que vinham de algum tempo. Um caso inédito na história das Copas do Mundo.
As justificativas do país sul-americano eram econômicas, mas também estruturais: quando havia recebido o sinal verde da Fifa, a Colômbia trabalhava – amparada em uma promessa da entidade – na organização de um torneio com 16 seleções. Mas quando a federação internacional voltou atrás e confirmou a Copa de 1986 com 24 equipes, os colombianos se viram incapazes de cumprir o caderno de encargos e abriram mão de sediar a competição. Diante desse cenário, abriu-se nova disputa, restrita a países das Américas, para receber o Mundial.
Um dos países que, inicialmente, despontou como candidato foi o Brasil. Em setembro de 1981, quando a Copa na Colômbia já ganhava ares incertos, a revista Placar publicou matéria mostrando que, com investimentos pontuais em infraestrutura, o Brasil estaria apto a cumprir as exigências da Fifa e receber o Mundial. Em dezembro de 1982, Giulite Coutinho, presidente da CBF, enviou telegrama à entidade mundial confirmando a candidatura do país. Mas em 10 de março de 1983, o governo Figueiredo se pronunciou vetando a ideia.
Sobraram então três candidatos da América do Norte: Canadá, Estados Unidos e México, cada um com seu trunfo. Enquanto o primeiro apostava na neutralidade, o segundo recorria a figuras que iam dos ex-secretários de Estado Harry Kissinger e Cyrus Vance a astros do esporte como Pelé e Franz Beckenbauer em defesa de sua candidatura. Os dois países também apresentavam vistosos e minuciosos projetos para a organização. Nenhum deles, porém, sensibilizou a Fifa, que desde o começo daquela disputa já parecia ter se decidido.
No congresso da entidade realizado em Estocolmo (Suécia) em 20 de maio de 1983, a candidatura do México foi a escolhida. Nem tanto pela falta de tradição no futebol dos outros concorrentes. Nem tanto pela estrutura herdada do torneio de 1970, modesta se comparada com o que agora se passara a exigir para uma competição com 24 seleções. Muito menos ainda pela apresentação breve e pelo folheto de seis páginas impresso em papel almaço entregue pelos mexicanos aos cartolas da Fifa à guisa de relatório de sua candidatura.
O que – ou quem – fez a diferença para a escolha foram dois executivos influentes que integravam o círculo de amizades do presidente da Fifa, João Havelange. Um era Emilio Azcárraga, empresário que administrava o Grupo Televisa, uma das principais emissoras de televisão do mundo. O outro era Guillermo Cañedo, dirigente de futebol que, em sua escalada, chefiaria a organização da Copa de 1970 no país e, quatro anos depois, a convite do recém-eleito Havelange, passaria a ocupar o cargo de vice-presidente do Comitê Executivo da Fifa.
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O novo comandante
O México, aliás, já se encontrava na iminência de sediar o Mundial de Juniores (atual Mundial Sub-20) no mês seguinte, para o qual seriam utilizados sete dos 12 estádios programados para receber jogos da Copa de 1986 – e apenas um desses 12, o Estádio La Corregidora, em Querétaro, ainda estava por ser construído ao longo do ciclo, com os demais sendo apenas reformados. O próximo ponto a ser trabalhado era a formação de uma seleção principal capaz de representar dignamente o país na competição mais importante, dali a três anos.
Essa missão havia sido outorgada ainda no fim de 1982 a um iugoslavo: Velibor “Bora” Milutinović. Nascido em 7 de setembro de 1944 na cidade sérvia de Bajina Bašta e oriundo de uma família de futebolistas (seus irmãos mais velhos Miloš e Milorad haviam integrado o elenco dos Plavi na Copa de 1958), Bora atuou como volante no OFK e no Partizan, ambos de Belgrado, antes de deixar o país com 22 anos para jogar no exterior. Passou por Suíça (Winterthur) e França (Monaco, Nice e Rouen) até receber um convite para cruzar o Atlântico.
Foi então em 1972, ao assinar com o Pumas UNAM, que teve início o vínculo daquele trotamundos com o futebol mexicano. Bora se juntaria a um esquadrão que, dali a três anos, em julho de 1975, levantaria os primeiros títulos da história do clube ao vencer, no intervalo de uma semana, a Copa México, num quadrangular final em turno e returno, e o troféu Campeón de Campeones, espécie de supercopa nacional, ao bater o Toluca por 1 a 0. Ao fim da temporada seguinte (1975/76), Bora penduraria as chuteiras pouco antes de completar 32 anos.
Sua carreira de técnico se iniciaria logo depois, no próprio Pumas, a partir da temporada 1977/78, quando o clube havia acabado de levantar seu primeiro título também no Campeonato Mexicano. Bora herdaria um time de primeira linha, que incluía os brasileiros Cabinho, Spencer e Cândido, o peruano Juan José Muñante e vários nomes da seleção do México. Entre eles, uma joia ainda a ser burilada: o atacante Hugo Sánchez, de apenas 19 anos e que havia participado do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Montreal com El Tri em 1976.
Aos poucos Bora reformularia a equipe, lançando outros jovens com os quais trabalharia também na seleção mais adiante. E levantaria outros títulos: mais um Campeonato Mexicano em 1980/81, duas Copas dos Campeões da Concacaf em 1980 e 1982 e a Copa Interamericana em 1981, contra o Nacional de Montevidéu. Em fevereiro de 1982, ele receberia o prêmio Citlalli como o melhor técnico do campeonato referente à temporada 1980/81, na qual o Pumas, além de campeão, teve também o ataque mais positivo. Seu prestígio estava em alta.
Nesse panorama, era natural que fosse um dos favoritos a assumir o comando da seleção no lugar do veterano Raúl Cárdenas, que voltara ao cargo em 1979, mas falhara em classificar o México para o Mundial de 1982. E ao ser indicado para a vaga, Bora se tornava o primeiro estrangeiro a dirigir El Tri desde a breve passagem do húngaro Árpád Fekete (apenas três jogos) em 1963. Seu início seria tímido, com um time “B” enfrentando o Vasas, da Hungria, e as seleções da Costa Rica (duas vezes) e da Guatemala entre janeiro e abril de 1983.
Após a escolha do México para sede do próximo Mundial, no entanto, o trabalho se intensificaria. Do fim de outubro de 1983 até maio de 1986, pouco antes da estreia na Copa, seriam nada menos que 65 partidas internacionais contra seleções e clubes, com quase uma centena de jogadores sendo submetidos à observação do treinador. Era uma forma de tentar compensar a falta de jogos competitivos (já que, por serem os anfitriões, os astecas não disputariam as Eliminatórias ao longo daquele ciclo) e também de preparar aos poucos uma base.
Garimpando um novo time
O ano de 1983, aliás, seria aquele em que seriam lançadas as fundações da renovação de elenco na seleção mexicana. Dos 22 jogadores que figurariam na lista de convocados de Bora Milutinović para a Copa do Mundo de 1986, exatos dez fariam nele sua estreia por El Tri. Somados aos quatro que debutariam na equipe nos três anos posteriores, seriam, portanto, quase dois terços do grupo do Mundial formados por nomes incorporados à seleção naquele ciclo. Mas o nome mais famoso do futebol do país no exterior teria participação limitada nele.
Negociado pelo Pumas com o Atlético de Madrid em agosto de 1981, Hugo Sánchez se tornava o primeiro mexicano a atuar pela liga espanhola desde 1945. E não tardou a se firmar como um dos artilheiros mais letais em atividade no futebol ibérico. Por outro lado, o atacante chegava à Europa num tempo em que, por falta de regulamentação, os clubes do continente muitas vezes se viam desobrigados de liberarem seus jogadores para seleções, principalmente de outras partes do globo, exceto, é claro, durante as férias entre as temporadas.
Diante disso, Bora Milutinović só pôde contar com seu principal nome do ataque em apenas três amistosos no ciclo pré-Copa: contra a Fiorentina em março de 1985 e a seleção “B” do Chile e a Bulgária em agosto do mesmo ano – bem na época em que, numa turbulenta transferência, o atacante trocava o Atlético pelo rival Real Madrid, onde se consagraria como lenda. Curiosamente, ele jogaria contra a seleção pelo Atleti num amistoso em dezembro de 1983, marcando um gol no empate em 2 a 2 no Memorial Coliseum, de Los Angeles.
Mas mesmo sem Hugo, o México até obteve bons resultados durante aquele ciclo. No primeiro ano com Bora, por exemplo, uma vitória de 2 a 0 sobre a Suécia em Morelia, em 22 de novembro, estendeu a sete o número de vitórias consecutivas no início do trabalho do treinador. O primeiro revés só viria em fevereiro de 1984, quando a equipe enfim atuou fora da área de abrangência da Concacaf: derrota pesada de 5 a 0 para uma Itália que, embora campeã mundial, vinha de fazer campanha desastrosa nas Eliminatórias da Eurocopa.
Após uma pausa para correção de rota que duraria alguns meses e levaria o treinador a descartar de vez vários jogadores do grupo, a seleção intensificaria o ritmo de amistosos a partir do segundo semestre de 1984. No mês de agosto, entre os dias 8 e 25, realizaria sua primeira grande excursão daquele ciclo, com seis partidas em solo europeu, enfrentando a Irlanda em Dublin, a Alemanha Oriental em Berlim, a Finlândia em Helsinque, a União Soviética em Leningrado, a Suécia em Malmö e fechando contra a Hungria em Budapeste.
Antes, porém, um incidente levou ao afastamento de um nome importante: o experiente zagueiro Alfredo Tena, capitão do América e da seleção, remanescente da equipe que disputou a Copa de 1978. Em 1º de julho, data da apresentação dos atletas para treinos visando à excursão, Tena não apareceu, o que só veio a fazer no dia seguinte, alegando problemas de deslocamento devido às fortes chuvas que caíam sobre a região. Entretanto, acabou cortado ao ser reprovado nos exames médicos. Mas aquele não seria o último capítulo do caso.
Tempos depois, o zagueiro acabaria excluído de vez do grupo da Copa por um motivo ainda mais prosaico: o novo contrato de fornecimento de material esportivo celebrado entre a Federação Mexicana e a Adidas – que desde o início de 1983 voltara a se associar à seleção asteca – exigia que os jogadores utilizassem inclusive chuteiras da marca alemã sempre que atuassem por El Tri. Tena, porém, possuía contrato próprio de patrocínio com a Puma e se negou terminantemente a aceitar essa cláusula, sendo limado de futuras convocações.
Com jogos, a equipe forma a sua base
Na Europa, apesar das baixas de Tena e de Hugo Sánchez, o México teve desempenho bastante aceitável. Empatou com a Irlanda na estreia (0 a 0) e também com a Alemanha Oriental no jogo seguinte (1 a 1). Na Finlândia, obteve a primeira vitória: 3 a 0. Mas logo em seguida, e pelo mesmo placar, veio a única derrota da excursão, diante da União Soviética. Um bom empate com a Suécia em 1 a 1 antecedeu a grande exibição da turnê: a histórica vitória por 2 a 0 sobre a Hungria, com direito a um belo gol do novo capitão, o meia Tomás Boy.
Na volta, mais resultados interessantes nos últimos meses de 1984: o empate em 1 a 1 com uma forte Argentina em Monterrey; as vitórias de 1 a 0 sobre Colômbia e El Salvador que valeram a conquista da Columbus Cup, em Los Angeles; e o triunfo por 2 a 1 sobre os vizinhos Estados Unidos em Nezahualcóyotl antecederam outra excursão, desta vez à América do Sul. Nela, a equipe voltou a empatar com a Argentina (1 a 1), perdeu apertado para o Chile (1 a 0), empatou com o Uruguai (1 a 1) e derrotou o Palmeiras no Pacaembu por 2 a 0.
No apagar das luzes de 1984 ainda houve outras duas vitórias sobre Trinidad e Tobago em Port of Spain (2 a 0) e Equador em Los Angeles (um movimentado 3 a 2). Pela frente haveria um ano de 1985 intenso: seriam nada menos do que 27 partidas, sete delas contra clubes ou combinados locais. Algumas válidas por uma miríade de torneios preparatórios que os anfitriões organizaram para medir força com rivais de outros continentes. Além de mais uma longa excursão internacional que passaria pelo Norte da África e pelo Oriente Médio.
Com as obras nos estádios perto do fim, a seleção também participaria em campo dos festejos de abertura ou reabertura. Foi o caso do La Corregidora, de Querétaro, onde ela fez suas primeiras partidas de 1985 em um quadrangular com Polônia, Suíça e Bulgária. Em 5 de fevereiro, o escrete “A” goleou os poloneses por 5 a 0. No dia seguinte, o escrete “B” perdeu dos suíços (2 a 1). Ainda naquele mês, o time “B” venceu a Finlândia em Acapulco (2 a 1). Já em março, com Hugo Sánchez, o México bateu a Fiorentina em Los Angeles por 1 a 0.
Em junho, os confrontos foram mais ambiciosos: Itália, Inglaterra e Alemanha Ocidental vieram ao país para dois torneios triangulares: a Copa Cidade do México (contra italianos e ingleses) e a Copa Azteca 2000 (contra ingleses e alemães). Os resultados foram encorajadores: empate em 1 a 1 com a Itália após sair na frente no placar; vitória de 1 a 0 sobre a Inglaterra (em jogo que valeu pelos dois torneios); e vitória de 2 a 0 sobre a Alemanha Ocidental, com Tomás Boy ainda tendo um pênalti defendido pelo goleiro Ulrich “Uli” Stein.
Nesse ponto, a seleção já tinha praticamente formado – à exceção de Hugo Sánchez – o time-base que iniciaria o Mundial no ano seguinte. No gol, Pablo Larios se firmava como titular, tendo em Olaf Heredia seu reserva imediato. Nas laterais, o veterano Mario Trejo era o dono da posição no lado direito, enquanto Rafael Amador ganhava naquele ano a concorrência do ascendente Raúl Servín pela esquerda. Já no miolo de zaga, três nomes disputavam as duas vagas: Armando Manzo, Félix Cruz e Fernando Quirarte – este, ótimo no jogo aéreo.
O meio-campo contava com um volante do tipo “cão de guarda” à frente da zaga, posição que era disputada por Carlos Muñoz e Carlos de los Cobos. Havia ainda o auxílio pelos lados dos dinâmicos Miguel España (pela direita) e Javier Aguirre (pela esquerda), que se desdobravam entre o apoio e a cobertura. Tudo para que o cérebro do setor, o experiente armador Tomás Boy, jogasse com plena liberdade para criar. Já na frente, na ausência de Hugo Sánchez, a dupla formada por Manuel Negrete e Luis “Lucho” Flores se movimentava bastante.
Vale mencionar também o esquema de compensações pelos flancos: do lado direito, Trejo tinha perfil mais ofensivo, fazendo com que España se concentrasse mais na marcação. Já na esquerda, em que os laterais eram mais contidos, Aguirre dispunha de maior liberdade para apoiar até como um ponta, caso fosse necessário. Eram situações que entortavam ligeiramente o formato inicial de losango do quarteto de meio-campo mexicano. Além disso, Negrete também costumava voltar do ataque para compor o meio e ajudar na criação de jogadas.
A tragédia do terremoto
De agosto para setembro, o México faria outra leva de partidas, incluindo o empate em 1 a 1 com o Corinthians num amistoso em San José (Califórnia) e a participação na Copa Camel das Nações em Los Angeles, rara ocasião em que Bora Milutinović pôde dispor de Hugo Sánchez. Até que na manhã de quinta-feira, 19 de setembro de 1985, o futuro da Copa no país foi colocado em dúvida devido a um terremoto de 8,1 graus na escala Richter que abalou a Cidade do México. O sismo foi seguido por uma réplica de 7,3 graus cerca de 36 horas depois.
O tremor, que reverberou até em países próximos, levou à destruição total de 412 construções e danos parciais em outras 3.124 somente na capital, entre elas o edifício-sede da Televisa, prédios do Governo, hospitais e escolas. O número de vítimas foi calculado em 9,5 mil (com alguns dados aumentando para até 35 mil) e o de feridos em 30 mil, além de cerca de 100 mil desalojados. O prejuízo total ficou na casa de US$ 4 bilhões. Faltavam pouco mais de oito meses para o pontapé inicial do Mundial, marcado para 31 de maio de 1986.
Era a segunda vez que um país organizador de Copa do Mundo tinha de se reconstruir após um terremoto quando em via de sediar o torneio. Em maio de 1960, o Chile foi afetado por um sismo a dois anos do início de seu Mundial. No México, entretanto, a estrutura dos estádios permaneceu milagrosamente intacta, o que foi constatado pelo próprio presidente da Fifa, João Havelange, em visita ao país. Dias após os tremores, Guillermo Cañedo, chefe do Comitê Organizador, declararia à imprensa: “O México segue vivo. Faremos o Mundial”.
Na época dos tremores, a seleção estava nos Estados Unidos, prestes a fazer dois amistosos com o Peru, um em Los Angeles (empate em 0 a 0) e outro em San José (vitória por 1 a 0). No fim do mês, voltaria a jogar em solo mexicano, mas em Irapuato, cidade incluída posteriormente entre as sedes substituindo Morelia, retirada do programa após ter sido detectado um problema nas fundações do estádio que seria construído na cidade para a Copa. O adversário era mais uma vez um clube, o Cruz Azul, que derrotou a seleção por 2 a 1.
Na primeira quinzena de outubro a equipe de Bora Milutinović embarcaria para outra excursão, desta vez passando pelo Norte da África e Oriente Médio. Os resultados, porém, foram aquém do esperado, precipitando certas críticas ao trabalho. Apenas uma vitória: 2 a 0 no antigo Iêmen do Norte em Saná; empates com os combinados de Amã (Jordânia) em 0 a 0 e de Sharjah (Emirados Árabes Unidos) em 2 a 2 e com a seleção do Kuwait (0 a 0); e derrotas para Líbia em Bengazi (3 a 1 na estreia da turnê), e para o Egito no Cairo (2 a 1).
Nos últimos jogos do ano, entretanto, a confiança no time retornou: dois empates encorajadores com a Argentina reforçada por Diego Maradona (1 a 1 em Los Angeles e em Puebla, na reabertura do Estádio Cuauhtemoc) antecederam uma vitória por 2 a 1 contra a Coreia do Sul, classificada para o Mundial. Em dezembro mais um torneio preparatório fechava o ano, a Copa México 85, em que El Tri bateu três times que estariam no Mundial: Argélia (2 a 0 no Azteca), Coreia do Sul outra vez (2 a 1 no Jalisco) e Hungria (2 a 0 em Toluca).
No ano do Mundial
Após uma pausa de dois meses, os trabalhos foram retomados em fevereiro de 1986. Mais uma vez o México alternava jogos contra seleções e contra clubes e partidas em território nacional e na Costa Oeste dos Estados Unidos. E depois de iniciar o ano da Copa com uma derrota diante da Alemanha Oriental por 2 a 1 em San José (Califórnia), a seleção abriu uma boa sequência invicta que chegaria quase até o Mundial derrotando a forte União Soviética por 1 a 0, gol do meia Javier Aguirre, num Estádio Azteca com 40 mil torcedores.
Nessa série, também seriam batidas as seleções do Uruguai (1 a 0) e do Canadá (3 a 0), o Nacional de Montevidéu (1 a 0), o Argentinos Juniors campeão da Libertadores no ano anterior (5 a 1), a Universidad do Chile (duas vezes: 2 a 1 e 1 a 0) e o Hamburgo (2 a 0), registrando-se empates com as equipes “B” e sub-21 da Dinamarca (1 a 1 nos dois jogos, disputados no mesmo dia) e com o Santos (0 a 0 também em San José, em 23 de março). A sequência positiva foi encerrada com a derrota por 3 a 0 diante da Inglaterra em Los Angeles.
Nessa fase da preparação, a lista de convocados já estava praticamente fechada. A única novidade acrescentada naquele ano era o atacante Francisco Javier “Abuelo” Cruz, que, com apenas 19 anos (completaria 20 às vésperas do início do Mundial), havia se destacado na conquista do Monterrey no Torneio Mexico 1986 – um dos certames que substituíram o Campeonato Mexicano naquela temporada pré-Copa – terminando como artilheiro da competição com 14 gols. A seleção chegava com uma base pronta e grandes expectativas para a Copa.
“O clima, a altitude e o público serão nossos maiores aliados”, apostava Bora Milutinović. A Copa seria disputada no tórrido verão mexicano, em cidades situadas muitos metros acima do nível do mar, e a equipe da casa teria o apoio da torcida que prometia lotar os mais de 100 mil lugares do Estádio Azteca. E, na primeira fase, o Grupo B definido no sorteio realizado em 16 de dezembro de 1985 era tido como acessível: “Se pudéssemos escolher nossos adversários, acho que não teríamos escolhido melhor”, declarou Guillermo Cañedo.
E esses adversários eram a Bélgica, que contava com uma equipe experiente, mas ainda um tanto imprevisível; o Paraguai, que embora contasse com o talento do meia Romerito, não disputava um Mundial desde 1958; e o estreante Iraque, que desde sua classificação já havia trocado duas vezes de treinador – e sempre entre brasileiros: Jorge Vieira saiu para a entrada de Edu Antunes Coimbra, que cedeu o posto às vésperas da Copa a Evaristo de Macedo. A passagem do México em primeiro lugar era não só possível como provável.
A abertura do grupo viria no dia 3 de junho no duelo entre os anfitriões e os belgas, para o qual Bora pôde contar com a escalação considerada até ali a ideal. No gol, o ágil Pablo Larios, revelado pelo pequeno Zacatepec, o qual trocara pelo Cruz Azul em 1984. Era apelidado de “O Goleiro da Selva”, por sua origem na região quente e úmida de Morelos. Pelas laterais, o experiente Mario Trejo (América), na seleção desde 1980, atuava quase como ala direito, enquanto o jovem Raúl Servín (Pumas UNAM) continha-se mais pela esquerda.
No centro da defesa, Félix Cruz (Pumas UNAM) jogava na sobra, deixando o combate direto para Fernando Quirarte (Chivas), que também era uma arma perigosa na bola aérea ofensiva. À frente da zaga, postava-se Carlos Muñoz (Tigres), volante tecnicamente limitado, mas valente e brigador. Do meio para a frente, houve uma modificação devido à incorporação de Hugo Sánchez ao grupo, já próximo do início do Mundial. De início, o jogador sacado para a entrada do atacante foi Miguel España (Pumas UNAM), meia defensivo pela direita.
Com isso, o outro “volante auxiliar”, Javier Aguirre (Atlante) precisou não apenas inverter de lado, passando à direita, como também se concentrar mais na cobertura que no apoio. Para o posto original de Aguirre na meia-esquerda foi deslocado o habilidoso e impetuoso Manuel Negrete (Pumas UNAM). No centro da criação, porém, o veterano Tomás Boy (Tigres), 34 anos e capitão da equipe, tinha lugar cativo. Na frente, quem faria companhia, portanto, ao astro Hugo Sánchez (Real Madrid) era o rápido Luis Flores (Pumas UNAM).
Começa a Copa em casa
Antes do início da partida contra os belgas, uma cena marcante: uma falha no sistema de som fez com que os hinos nacionais não fossem executados e, após longa espera, o juiz argentino Carlos Esposito resolveu abrir mão do protocolo, determinando que os jogadores se posicionassem para o pontapé inicial. Nesse momento, porém, o estádio inteiro começou a entoar o hino mexicano. No gramado, Hugo Sánchez percebeu e rapidamente reuniu seu time, que voltou a se perfilar para cantar junto com a multidão eufórica. Era esse o clima.
Com bola rolando, a iniciativa também foi quase sempre mexicana, que buscou apertar os belgas e abrir vantagem logo de saída. E o gol viria aos 22 minutos. O toque de mão do meia belga René Vandereycken levou a uma falta na meia direita que Tomás Boy cobrou levantando para a área. Quirarte cabeceou cruzado vencendo o goleiro Jean-Marie Pfaff. O delírio no Azteca aumentaria aos 39, quando Boy bateu escanteio fechado na esquerda, Muñoz desviou na primeira trave e Hugo Sánchez apareceu do outro lado para escorar.
No último minuto da etapa inicial, no entanto, a euforia da torcida local esfriou um pouco quando Eric Gerets bateu lateral para a área, Larios saiu em falso e a zaga mexicana não conseguiu afastar. A bola sobrou para o atacante Erwin Vandenbergh tocar de cabeça para o gol vazio. O jogo foi ao intervalo com o perigoso placar de 2 a 1. E na etapa final, a blitz inicial cobraria seu preço ao time mexicano do ponto de vista físico (o que se repetiria nos outros jogos). Além disso, a equipe tinha dificuldade em reter a bola e levou certo sufoco dos belgas.
Mas os Diabos Vermelhos também estavam esgotados demais com o calor e a altitude para exibir a eficiência necessária para chegar ao empate. Ao apito final, um misto de alívio e êxtase tomou conta não só do estádio como de todo o país, enlutado desde o terremoto de oito meses antes. Quatro dias depois viria o segundo jogo, diante do Paraguai, que havia batido o Iraque por 1 a 0 na rodada de abertura. As duas equipes mantiveram as escalações da estreia, já que outra vitória garantiria por antecipação a classificação às oitavas de final.
De uniforme branco, diante do que seria o maior público daquela Copa (114.600 torcedores), o México novamente partiu para matar o jogo nos minutos iniciais. E desta vez conseguiu o gol logo aos três minutos: Servín desceu pela esquerda e centrou para “Lucho” Flores, que ajeitou e bateu na saída do goleiro Roberto “Gato” Fernández. Os guaranis marcavam duro, mas ameaçavam em chutes de fora da área, exigindo boas intervenções de Larios. Já os mexicanos reclamaram de um pênalti não marcado de Fernández em Hugo Sánchez.
Na etapa final, a exemplo do que acontecera contra os belgas, o México baixou muito o ritmo e passou a ser constantemente ameaçado pelos paraguaios. Bora Milutinović repetiu as trocas do jogo anterior (Miguel España no lugar de Tomás Boy para reforçar a pegada no meio-campo e o veloz “Abuelo” Cruz na vaga de “Lucho” Flores para manter o gás no ataque), mas o Paraguai é que seguia assustando: Trejo quase marcou contra num desvio e mais tarde Romerito acertou a trave com uma cabeçada. O empate se mostrava iminente.
E ele viria aos 40 minutos do segundo tempo após um cruzamento da direita de Adolfino Cañete que Romerito se antecipou à zaga e testou para as redes sem chance para Larios. Mesmo assim, o México ainda chegaria muito perto da vitória quando, quase de imediato, teve a seu favor um pênalti marcado pelo árbitro inglês George Courtney numa falta aparentemente fora da área em Hugo Sánchez, gerando protestos dos paraguaios. Mas o chute do camisa 9 mexicano parou nas mãos de Fernández e ainda bateu na trave antes de sair.
Tão frustrante quanto o pênalti perdido e o empate em 1 a 1 – que, num completo anticlímax em relação à vitória da estreia, chegou a motivar um quebra-quebra pelas ruas da Cidade do México – foi o desfalque por suspensão de Hugo Sánchez para o jogo seguinte, contra o Iraque, causado por dois cartões amarelos um tanto infantis recebidos contra Bélgica (quando chutou uma bola para a galera na comemoração do primeiro gol) e Paraguai (ao se colocar na frente de Fernández para impedir a reposição de bola por parte do goleiro).
Bora chegou a cogitar a escalação do jovem atacante Carlos Hermosillo, do América, na vaga de Hugo Sánchez contra o já eliminado Iraque. Mas acabou optando por voltar à escalação da fase de preparação, com Miguel España na meia direita, Aguirre pela esquerda e Negrete voltando a fazer a ligação entre o meio e o ataque, ajudando a municiar “Lucho” Flores. Não foi, no entanto, a única mudança na equipe: Trejo e Muñoz, pendurados, deram lugar ao lateral Rafael Amador (Pumas UNAM) e ao volante Carlos de los Cobos (América).
Diante de um Iraque sem pretensões e com seis reservas, o México teve mais dificuldades do que imaginava. Logo de início goleiro suplente Nasif Jassim quase engoliu um frangaço numa cobrança de falta de Tomás Boy. Mais tarde, Flores acertou o travessão. E perto do fim da primeira etapa, o arqueiro adversário se redimiu com uma bela defesa em cabeçada de Aguirre. Mas o 0 a 0 persistiu teimoso até o intervalo, para o qual a seleção mexicana desceu sob vaias dos mais de 103 mil impacientes torcedores presentes ao Estádio Azteca.
O alívio acabou vindo aos nove minutos do segundo tempo. Negrete bateu falta da intermediária lançando para o lado direito do ataque dentro da área adversária. E quem apareceu por lá foi o zagueirão Quirarte, que dominou e, mesmo sem ângulo, acertou o chute entre o goleiro e a trave para fazer 1 a 0. Era o segundo gol do camisa 3 na Copa, tornando-se ironicamente o artilheiro da seleção até ali. E foi só. A vitória magra e protocolar diante de uma das equipes mais fracas da Copa indicava que havia muito a melhorar para as oitavas.
Um dos pontos mais discutidos era a presença de Hugo Sánchez, que passara de herói a vilão para a ala mais volúvel da torcida mexicana após a partida contra o Paraguai. Internamente, no entanto, também havia relatos de insatisfação de alguns jogadores com o tratamento diferenciado que era dispensado ao astro do Real Madrid. Enquanto isso, quem se convertia no novo xodó da torcida era “Abuelo” Cruz (o mais jovem do elenco apesar do apelido), que entrara nos três jogos e tinha sua presença entre os titulares exigida pelo público local.
Entretanto, por mais que a velocidade e o ímpeto de “Abuelo” Cruz empolgassem os torcedores, o jogo contra o Iraque havia deixado patente que sem Hugo Sánchez o ataque asteca se revelava pobre tanto em ideias quanto em contundência. O suspense quanto à escalação para a partida seguinte, contra a Bulgária, durou até a véspera do jogo, quando Bora Milutinović decidiu revelar logo que Hugo seria o titular procurando estancar as crises internas. Mas a volta do atacante do Real Madrid não seria a única mudança na equipe titular.
A boa partida de Rafael Amador contra o Iraque garantiu sua permanência na equipe no lugar de Trejo. Com sua escalação, mais fixo na lateral, Servín ficava liberado para apoiar. No meio-campo, por outro lado, Carlos de los Cobos não chegou a impressionar e voltaria à reserva de Muñoz no posto de primeiro volante. Por fim, o retorno de Hugo Sánchez não implicaria na volta de Miguel España ao banco. Em vez disso, a configuração mais encorpada do setor de meio-campo seria preservada depois que “Lucho” Flores se lesionou.
O mata-mata
A própria Copa do Mundo, aliás, também trazia uma mudança naquela etapa em relação à edição anterior. Em vez de 12 classificados – dois em cada grupo – na primeira fase divididos em quatro triangulares que apontariam os semifinalistas, agora os quatro melhores terceiros colocados também avançavam, formando 16, o que possibilitava criar novas etapas de eliminação direta, as fases de oitavas de final e quartas de final. Vencedor do Grupo B, o México enfrentaria justamente uma das repescadas, a Bulgária, terceira do Grupo A.
Os búlgaros haviam superado as próprias expectativas ao avançarem sem sequer vencer um jogo: empataram com a Itália (na abertura da Copa) e com a Coreia do Sul, ambas por 1 a 1, e perderam para a Argentina por 2 a 0. E em sua quinta participação em Mundiais, ainda buscavam a primeira vitória. “Mas não será contra nós”, brincou Bora na coletiva da véspera da partida, cutucando seu amigo Ivan Vutzov, técnico da Bulgária. No Azteca, o México seria empurrado por um público quase igual ao do jogo com o Paraguai: 114.580 torcedores.
O México teria três ótimas chances na primeira meia hora de jogo. No rebote de uma cobrança de falta, Negrete testou o goleiro Borislav Mihaylov, que mais tarde deteve duas boas finalizações de Hugo Sánchez. Mas não poderia fazer nada aos 34 minutos quando uma tabelinha sem deixar cair entre Negrete e Aguirre terminou com um maravilhoso voleio do primeiro da entrada da área. Os anfitriões saíam na frente, destravavam um jogo complicado e brindavam a multidão no Azteca com um dos gols mais bonitos da história das Copas.
Na volta do intervalo, o México praticamente resolveu a partida em uma de suas jogadas típicas naquela Copa: os escanteios fechados. Negrete cobrou na primeira trave e o lateral Servín surgiu se antecipando a Mihaylov para cabecear firme e fazer 2 a 0. A Bulgária então tentou correr atrás e obrigou Larios a praticar duas defesas difíceis. Mas do outro lado, Muñoz também assustou num chute de fora da área que carimbou o travessão. Ao apito final, os mexicanos celebraram não só a passagem como a regularidade da atuação nos 90 minutos.
Aquela seria, porém, a despedida da seleção no Estádio Azteca naquela Copa. Nas quartas de final o time se deslocaria até Monterrey, conforme indicava a tabela, para pegar a Alemanha Ocidental no Estádio Universitário. A estranha decisão do Comitê Organizador dava ainda mais o que pensar quando se observava um detalhe: o segundo colocado do Grupo B (o do México) faria todo o seu caminho até a final jogando sempre no principal palco do Mundial. Os anfitriões se dirigiam agora para um estádio inferior em capacidade e atmosfera.
Com seu principal astro, o já veterano Karl-Heinz Rummenigge, às voltas com problemas físicos, a Alemanha Ocidental até aquela altura na Copa parecia jogar para o gasto. Na primeira fase, saíra atrás em todos os jogos. Buscou o empate com o Uruguai (1 a 1), a virada sobre a Escócia (2 a 1) e aceitou a derrota para a Dinamarca (2 a 0) que a colocou em segundo no Grupo E, o chamado “grupo da morte” do Mundial. Já nas oitavas, a magra vitória sobre Marrocos (1 a 0) foi definida com um gol de falta de Lothar Matthäus a dois minutos do fim.
Contra os donos da casa, os alemães-ocidentais dirigidos por Franz Beckenbauer recorriam a um jogo cauteloso e uma escalação defensiva. O México, por sua vez, mantinha os mesmos titulares que venceram a Bulgária e iniciou o jogo atacando. Entretanto, ao tentar “igualar na pegada” em relação aos oponentes, ajudou a tornar a partida truncada, faltosa, até violenta – seriam ao todo nove cartões amarelos. Ainda no primeiro tempo, o confronto já havia superado o número total de faltas do duelo entre Brasil e França disputado mais cedo.
Dadas as poucas chances criadas, não foi surpresa a falta de gols: o jogo terminou 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação. O jogo violento tirou de campo os jogadores mais criativos de cada time: Tomás Boy foi substituído lesionado aos 32 do primeiro tempo e Rummenigge, sacado aos 14 da segunda etapa. Também houve empate nas expulsões: Thomas Berthold deu um tapa em Quirarte após sofrer falta e levou o vermelho aos 20 do segundo tempo. E na prorrogação, Aguirre parou um contra-ataque alemão e foi igualmente excluído do jogo.
Na decisão por pênaltis, as esperanças mexicanas morreram cedo. Negrete converteu o primeiro, empatando a série depois de Thomas Allofs ter colocado os alemães na frente. Mas em seguida, a pressão desabou sobre os ombros dos locais. Andreas Brehme e Lothar Matthäus acertaram seus chutes, mas Quirarte viu Harald Schumacher deter o seu com o pé, e Servín bateu fraco e permitiu ao goleiro encaixar com facilidade. A quarta cobrança alemã, do ponta Pierre Littbarski, selou a passagem da Nationalelf e o fim do sonho asteca: 4 a 1.
A eliminação pôs um ponto final na primeira passagem de Bora Milutinović à frente da seleção do México. Seria substituído por Mario Velarde, mas voltaria a ocupar o cargo de 1995 a 1997. Ali, porém, ele havia iniciado uma relação duradoura com o Mundial, participando das quatro edições seguintes, comandando seleções diferentes em cada uma delas: a Costa Rica em 1990, os também anfitriões Estados Unidos em 1994, a Nigéria em 1998 e a China em 2002. E, com exceção desta última, sempre avançando para além da primeira fase.
Hugo Sánchez, o grande personagem daquela seleção mexicana de 1986, viveria um paradoxo: na melhor fase da carreira, em que acumulou títulos, bateu recordes e escreveu seu nome na história no Real Madrid, amargou longo exílio de seu escrete nacional, como se o maior nome do futebol mexicano no âmbito internacional fosse um corpo estranho dentro de seu próprio país. Só voltaria a ser convocado para vestir a camisa de El Tri quase sete anos de pois, no início de 1993, quando já havia retornado ao México para defender o América.
Por fim, a seleção pareceu ter estancado após a grande campanha em casa. Em meados de 1988 estourou o escândalo dos “cachirules”, atletas com idade adulterada pela federação para poderem participar de competições de base, levando a Fifa a excluir El Tri das Eliminatórias para a Copa de 1990. Os astecas voltariam ao torneio dali a quatro anos, nos Estados Unidos, mas veriam nascer um trauma: por sete Copas seguidas cairiam nas oitavas. Até fazerem pior na última, no Catar em 2022, quando sucumbiram ainda na primeira fase.



