O Swansea de 1981/82: um cometa galês, da quarta divisão inglesa ao topo da primeira
Com um ex-craque do Liverpool no comando, Swansea escalou as divisões até chegar à elite, mas sua vertiginosa queda quase o levou à falência
A extensa galeria das grandes fábulas do futebol inglês reserva lugar especial para a trajetória do Swansea City na virada dos anos 1970 para os 1980. Pelas mãos de John Toshack, destacado ex-jogador em sua primeira experiência como técnico, a equipe galesa viveu ascensão meteórica: da quarta divisão em 1977/78, os Cisnes alcançariam a elite pela primeira vez em sua história na temporada 1981/82. E fariam mais: ombreando com os gigantes da época, ocupariam o topo da classificação em várias ocasiões, terminando num honroso sexto lugar. O declínio, no entanto, seria tão rápido quando sua escalada dentro da Football League.
Os galeses e suas peculiaridades
O futebol galês foi marcado por mais de um século pela ausência de uma liga nacional profissional. Antes da instituição da League of Wales, que ocorreria apenas em 1992, só havia a copa galesa, disputada desde 1877. Essa falta de uma estrutura de campeonatos fez com que, ainda nas primeiras décadas do século XX, os clubes locais se filiassem a ligas regionais da vizinha Inglaterra, em especial a Southern League, associação que existia em paralelo à mais poderosa e prestigiosa Football League, pioneira no formato no país e no mundo.
Com a volta das atividades futebolísticas após o fim da Primeira Guerra Mundial, a Football League se expandiu absorvendo dezenas de clubes vindos da Southern League, o que levaria inclusive à criação de uma terceira divisão naquela entidade. Entre esses clubes admitidos, seis eram galeses: Cardiff City, Merthyr Town, Newport County e Swansea Town foram aceitos em 1920, enquanto o Aberdare Athletic e o Wrexham seriam incorporados no ano seguinte. Cada um dos seis, porém, escreveria uma trajetória distinta dentro da associação.
O Cardiff, que entrou na segunda divisão, foi quem obteve sucesso mais rapidamente. Conquistou o acesso à elite logo na temporada de estreia e se tornaria uma potência por boa parte daquela década: chegaria incrivelmente perto do título inglês em 1923/24 (perdeu o caneco de maneira anedótica para o Huddersfield por uma exígua diferença de 0,02 no desempate pelo goal average) e alcançaria duas vezes a decisão da FA Cup, sendo derrotado pelo Sheffield United em 1925 e sagrando-se campeão ao vencer o Arsenal em 1927.
Já o Aberdare e o Merthyr teriam vida curta, excluídos da liga em 1927 e 1930 e encerrando suas atividades em 1928 e 1934, respectivamente. O segundo seria refundado como Merthyr Tydfil em 1945. O Newport também chegou a ser excluído em 1931, mas foi readmitido um ano depois e se manteve até 1988, antes de ter sua falência decretada em fevereiro de 1989. Também seria refundado e voltaria à liga em 2013. O Wrexham, por sua vez, ficaria até 2008, quando desceu à Conference (atual National League), onde estava até subir nesta temporada, graças ao aporte de dinheiro dos atores Ryan Reynolds e Rob McElhenney.
Fundado em 1912, o Swansea Town não teve o mesmo êxito inicial do Cardiff, mas não demoraria a se estabilizar. Ainda no mesmo ano da fundação, entrou para a Southern League disputando a segunda divisão. Subiria para a elite daquela associação em 1919, com a volta do futebol após o fim da Primeira Guerra Mundial. Um ano depois, porém, seria aceito na Football League, entrando na terceira divisão desta, que, após nova expansão na temporada seguinte, seria dividida em dois grandes grupos, Norte e Sul. O Swansea seria incluído na Sul.
O acesso à segunda divisão aconteceria em 1925. Seria nesta categoria que o clube se estabilizaria ao longo das décadas até 1965, exceto por suas temporadas na Terceira Divisão Sul em 1947/48 e 1948/49. Nesse período, o Swansea Town também alcançaria por duas vezes a semifinal da FA Cup em 1926 e 1964, eliminado por Bolton e Preston North End, respectivamente. Nesta segunda campanha, o grande feito foi a eliminação do Liverpool de Bill Shankly, futuro campeão da liga, com vitória em Anfield por 2 a 1 pelas quartas de final.
Enquanto isso, o clube também escrevia sua história em Gales: havia conquistado a copa galesa cinco vezes até o fim da década, em 1913, 1932, 1950, 1961 e 1966. E tivera seus representantes na seleção dos Dragões que disputaram a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, inclusive cruzando o caminho do Brasil nas quartas de final: o versátil Mel Charles, capitão da equipe, e os irmãos atacantes Len e Ivor Allchurch eram jogadores dos Cisnes, que também haviam revelado outros nomes daquele elenco, mas já defendendo outros clubes.
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Os Cisnes no limbo
O declínio começaria em 1965, com o descenso para a terceira divisão, seguido dois anos depois pelo rebaixamento à quarta (criada no fim da década anterior) pela primeira vez em sua história. O clube retornaria à terceira em 1970, já com o nome atual, Swansea City, adotado em fevereiro daquele ano após a elevação da localidade à categoria de cidade pelo governo britânico. Porém, uma nova queda à quarta divisão, em 1973, iniciaria o período mais crítico da história dos Cisnes, tendo seu limiar na desastrosa temporada 1974/75.
Uma derrota para o Rochdale por 1 a 0 no último dia da temporada levou o Swansea a terminar a campanha na 22ª posição entre 24 clubes na categoria mais baixa da Football League. Naquele tempo não havia descenso direto para a chamada non-league, mas os quatro últimos colocados da quarta divisão eram submetidos a uma votação entre os clubes da liga sobre seu futuro na entidade, disputando a permanência com agremiações das categorias regionais candidatas a um lugar na associação. No voto, o Swansea ganhou a sobrevida.

De todo modo, havia muito trabalho a ser realizado pelo presidente Malcolm Struel e pelo técnico Harry Griffiths, que assumira o cargo durante a temporada. Em crise financeira, o Swansea teve de vender o estádio de Vetch Field à administração local, tornando-se em inquilino no próprio campo. Além disso, o elenco fraco, formado por jogadores inexperientes, e a péssima campanha haviam afugentado a torcida, que precisava ser reconquistada. Porém, aos poucos a situação se estabilizou, e em 1976/77 o Swansea já lutava pelo acesso.
Após um começo irregular, com o clube ocupando apenas a 17ª posição na metade de novembro de 1976, o Swansea arrancou enfileirando sequências de vitórias, especialmente a partir de março do ano seguinte, quando somou 12 triunfos em 16 jogos, entrando na zona de acesso. Um revés no penúltimo jogo – uma goleada de 4 a 1 em casa para o Watford – acabou frustrando os planos. Na rodada decisiva, mesmo vencendo o Cambridge United fora de casa por 3 a 2, a combinação de resultados necessária não veio, para decepção geral.
Aquele era um time desequilibrado: teve de longe o melhor ataque do campeonato, com 92 gols anotados em 46 jogos. Mas também a sexta pior defesa entre os 24 clubes, com 68 sofridos. Na temporada seguinte, desanimado e sentindo que a equipe não teria o mesmo estado de espírito para tomar um novo impulso e brigar outra vez pelo acesso, o técnico Harry Griffiths considerava entregar o cargo, caso o clube encontrasse um nome capaz de revigorar os ânimos e tirar os Cisnes do limbo. O Swansea vivia a iminência de uma reviravolta.
Da área para a beira do campo
John Benjamin Toshack era um centroavante alto, forte e de presença inteligente na área revelado pelo Cardiff City em meados dos anos 1960. Com os Bluebirds, participou de grandes momentos na Recopa europeia, como a campanha que levou o clube às semifinais na temporada 1967/68 e a goleada de 5 a 1 sobre o Nantes em 1970, pouco antes de ser negociado com o Liverpool de Bill Shankly, em novembro daquele ano, pelo valor recorde pago pelos Reds por um jogador até então. Um ano antes, havia estreado pela seleção galesa.
Em Anfield, Toshack formou dupla de eficiência impressionante – dizia-se “telepática” – com Kevin Keegan, levantando três ligas, uma FA Cup, uma Copa dos Campeões e duas Copas da Uefa. Mas a partir de 1977, com a reformulação no time após a venda de Keegan e uma série de lesões, seu espaço na equipe agora dirigida por Bob Paisley foi sendo reduzido. Após receber propostas de Norwich e Newcastle e quase acertar com o Anderlecht (foi reprovado no exame médico), ele rescindiu com o Liverpool no início de 1978 e ficou livre.
Interessado em seguir carreira de treinador, procurou seu ex-clube, o Cardiff, oferecendo-se para um posto na comissão técnica, mas foi recusado sob o argumento de falta de qualificação mínima para o cargo. Até receber um telefonema de Malcolm Struel, chamando-o para uma conversa no Swansea City. O papo rendeu e, em 1º de março de 1978, com os Cisnes ocupando o sétimo lugar na quarta divisão, a contratação de Toshack como jogador-técnico era anunciada. Harry Griffiths, o ex-comandante, permaneceria no clube como seu auxiliar.
A jogada deu o que falar no meio futebolístico britânico e dividiu opiniões dentre os torcedores. E a desconfiança pareceu ser justificada em vista do começo um tanto tortuoso: nos três primeiros jogos, foram dois empates e uma derrota, fazendo o time descer duas posições na tabela. Mas a resposta veio logo, com oito vitórias nos nove jogos seguintes, muitas por placares elásticos como os 4 a 1 no Reading, os 4 a 2 no Torquay e os 3 a 0 no Southport, todos fora de casa, além de um avassalador 8 a 0 para cima do Hartlepool no Vetch Field.

A promoção seria confirmada no último jogo, em 29 de abril de 1978: com gols de Toshack e Alan Curtis, o time vence o Halifax Town em casa por 2 a 0 e termina em terceiro, só atrás de Watford e Southend. Desta vez, o clube teria de novo o melhor ataque do campeonato (87 gols marcados), mas também a terceira melhor defesa (47 tentos sofridos). Harry Griffiths, porém, não assistiria à concretização do acesso: aos 47 anos, morreria vitimado por um infarto antes do penúltimo jogo, vitória por 3 a 1 em casa sobre o Scunthorpe no dia 25.
O falecimento do ex-treinador levou ao cancelamento do desfile dos jogadores em comemoração ao acesso, mas rendeu tributos por parte do elenco – em grande parte revelado por Griffiths, que, diante da precariedade financeira atravessada pelos Cisnes, sempre apostou com convicção no garimpo de talentos e no desenvolvimento de jovens atletas na base. Toshack – aos 29 anos, o técnico mais jovem da Football League – declarou após o objetivo conquistado: “Esse time é de Harry, não meu. É dele o triunfo. Ele era o Swansea City”.
Batendo à porta da elite
O time, porém, começaria a ganhar as feições de Toshack a partir da temporada seguinte, quando o treinador atrairia para o clube quatro ex-companheiros de Liverpool: o zagueiro Tommy Smith, o meia Ian Callaghan e os atacantes Phil Boersma e Alan Waddle. O próprio treinador continuava jogando: foram 13 gols em 28 jogos numa campanha sólida do Swansea na terceira divisão – entre eles, o que garantiu o acesso, na vitória por 2 a 1 sobre o Chesterfield em casa na última partida, em 11 de maio de 1979. Alan Waddle marcou o outro.
Foi um acesso desenhado desde o início: sete partidas sem perder na largada e outras 12 invictas na reta final. O Swansea passou a maior parte da temporada dentro da zona de acesso (nunca esteve abaixo da quinta colocação) e terminou o campeonato mais uma vez ostentando o ataque mais positivo, 83 gols, empatado com o Watford de outro treinador ascendente, Graham Taylor. Na segunda divisão, porém, a equipe teria problemas na temporada 1979/80, e o terceiro acesso consecutivo não viria de cara: o time ficou em 12º lugar.
Na campanha seguinte, o time voltou a brigar em cima. Derrotado na visita ao Watford na estreia (2 a 1), o Swansea se recuperaria embalado por vitórias sobre o Bolton (4 a 1) e o Newcastle (2 a 1) fora de casa e sobre o Derby (3 a 1) em casa, e lá pelo fim de outubro já ocupava seu lugar na zona de acesso. Um novembro complicado levou à perda de algumas posições, mas em dezembro, quando os Cisnes venceram novamente o Newcastle (4 a 0) e deram o troco no Watford (1 a 0), a situação na tabela já parecia de novo aquietada.
Após um empate em 3 a 3 no clássico galês diante do Cardiff fora de casa, em 27 de dezembro, o Swansea terminava o ano de 1980 na segunda colocação, atrás apenas de um West Ham muito à frente na liderança. Parecia que o acesso seria um passeio no parque. Mas turbulências estavam a caminho após a virada do ano: em 3 de janeiro, o clube recebeu o Middlesbrough, da primeira divisão, pela estreia na FA Cup, e foi goleado por 5 a 0. E a sangria se transferiu para a liga: foram cinco derrotas seguidas até o dia 21 de fevereiro.
O time ensaiou a reação vencendo o Bolton (3 a 1) e o Wrexham (1 a 0) e empatando com o Bristol City (0 a 0) em três partidas consecutivas no Vetch Field. Mas a nova derrota na visita ao Grimsby (1 a 0) no fim de março, derrubou o clube para a 11ª posição com apenas oito jogos para cumprir até o encerramento da temporada. Foi quando a equipe de John Toshack disparou uma sequência invicta, iniciada com vitórias sobre o Derby fora (1 a 0) e o Blackburn em casa (2 a 0). Mais adiante, um 3 a 0 no Chelsea aproximou o time da zona de acesso.
O cenário da segunda divisão na última rodada cheia, em 2 de maio, era o seguinte: o West Ham, líder isolado, havia confirmado o acesso ainda no início de abril e o Notts County, com um jogo a menos, parecia o mais indicado à segunda vaga. Já a terceira e última era objeto de briga de foice entre Swansea e Blackburn, iguais com 48 pontos. Mais atrás, ainda com chances bem remotas, apareciam Luton e Derby. No fim, uma vitória de 3 a 1 diante do Preston North End em Deepdale assegurou o acesso inédito dos Cisnes pelo saldo de gols.
Era um conjunto de feitos históricos: o Swansea estrearia na elite da Football League, se tornaria apenas o segundo clube galês a participar da primeira divisão inglesa e o primeiro desde a última presença do Cardiff na categoria máxima, na temporada 1961/62. Além disso, a equipe levantou a Copa de Gales derrotando o Hereford United na final em ida e volta e pôs fim a um jejum de 15 anos na competição. Assim, assegurou sua presença na Recopa europeia de 1981/82, marcando sua terceira participação no torneio continental.
O time-base
Ciente de que a vida na primeira divisão seria ainda mais dura, o Swansea teve um mercado bem movimentado ao início da temporada 1981/82. Negociou nomes que tinham sido frequentes na equipe durante a(s) campanha(s) do(s) acesso(s), como os defensores David Rushbury e Leighton Phillips e o meia-atacante David Giles, e apostou em jogadores mais tarimbados e ambiciosos para formar, ao longo da competição, um núcleo forte de 16 atletas que atuariam com regularidade em pelo menos parte daquela primeira caminhada.
Esse grupo era composto por oito galeses, sendo cinco pratas da casa e seis de seleção (os outros dois debutariam pelos Dragões ainda no início de 1982), seis ingleses (dois deles com passagem pelos Three Lions) e dois iugoslavos também com experiência internacional defendendo os Plavi, o que dava à equipe um toque cosmopolita numa era em que o número de estrangeiros (no caso, atletas de nacionalidade externa à Comunidade Britânica) atuando na Inglaterra girava em torno de 20, com as importações liberadas só a partir de 1978.

Outra novidade era tática: a partir da quarta rodada, John Toshack decidiu deixar de lado o 4-3-3 e adotar de vez – e de forma pioneira no país – um sistema que havia apenas esboçado ao longo da temporada anterior: um 3-5-2 sem desfazer a vocação ofensiva carregada pela equipe, com líbero construtor de jogo, dois zagueiros, dois alas apoiadores, um volante de distribuição à frente da defesa, um meia com presença de área, um ponta caindo por ambos os flancos e dois homens de frente, sendo um mais móvel e outro fixo, de referência.
Dentro desse desenho, o time-base começava pelo goleiro William “Dai” Davies, titular da seleção galesa desde 1975, formado na base do próprio Swansea (onde chegou a jogar com o atacante italiano Giorgio Chinaglia, futuro ídolo da Lazio) no fim dos anos 1960, mas que deixou o clube para atuar por muitos anos no Everton e posteriormente no Wrexham, de onde retornou aos Cisnes antes do início da temporada 1981/82. Arqueiro ágil, elástico e muito firme, desbancou do posto de titular o escocês David Stewart, ex-Leeds.
Na ala direita, o titular era Neil Robinson, revelado pelo Everton, de onde veio para o Swansea em 1979. Na segunda metade da temporada, no entanto, ele passou a ser ocasionalmente substituído por Gary Stanley, meia adaptado à função. Revelado pelo Chelsea em meados da década de 1970, também passou pelos Toffees, sem sucesso, durante duas temporadas após uma aventura rápida na NASL norte-americana defendendo o Fort Lauderdale Strikers. Chegou ao Swansea já com a temporada em andamento, em outubro de 1981.
Já pelo outro lado, o dono da posição era um dos iugoslavos do elenco, Džemal Hadžiabdić, ala de origem bósnia que defendeu o Velež Mostar e atuou pela seleção de seu país em 20 partidas entre 1974 e 1978. Assim como Robinson, ganhou concorrência na segunda metade da temporada, com a ascensão do versátil Chris Marustik, galês filho de imigrante tcheco e revelado no próprio clube, pelo qual estreou em agosto de 1978, já com Toshack no comando. Em março de 1982, chegaria à seleção, fazendo seis partidas, todas naquele ano.
O miolo de zaga tinha líbero iugoslavo (também de origem bósnia) Ante Rajković, que substituía Leighton Phillips na função. Revelado pelo FK Sarajevo, onde atuou por oito anos, Rajković fez seis jogos pela seleção de seu país entre 1977 e 1978. Os outros dois postos na defesa eram ocupados por ex-atletas do Liverpool: Max Thompson (vindo do Blackpool) e Colin Irwin (por quem o clube desembolsou o valor recorde de sua história até ali: £340 mil). Na segunda metade da campanha, Thompson ganhou a concorrência de Nigel Stevenson.

Stevenson era prata da casa e estreou em 1976 sob o comando de Harry Griffiths. Na temporada 1981/82, entretanto, viu Thompson, contratado do Blackpool em setembro de 1981, ganhar a preferência quando da adoção do 3-5-2. Ao reconquistar a posição, chegou à seleção galesa em abril de 1982. Irwin, por sua vez, foi trazido ao Swansea por Toshack em agosto de 1981 para ser titular absoluto do lado esquerdo da zaga (e eventualmente na lateral) após perder espaço no Liverpool, por quem havia feito duas boas temporadas.
Na frente da defesa jogava John Mahoney, o mais veterano do elenco (completou 36 anos durante a campanha. Meia driblador no início da carreira no Crewe, transformou-se em um volante bom no desarme e ótimo nos passes, lançamentos e na distribuição de jogo quando se transferiu ao Stoke, pelo qual jogou uma década. Antes de chegar ao Swansea – onde enfim encontraria seu primo John Toshack – passou também pelo Middlesbrough. Estreou pela seleção galesa em 1967 e se firmou como titular dos Dragões entre 1973 e1983.
Apesar de suas qualidades, Mahoney seria mais um jogador a perder seu lugar no time a partir da metade da temporada, mais exatamente com a contratação de Ray Kennedy em janeiro de 1982. Meia elegante, Kennedy surgiu no Arsenal vencedor da Copa das Cidades com Feiras em 1970 e da dobradinha inglesa em 1971, antes de se juntar ao Liverpool em 1974, onde seguiu empilhando troféus. Aos 30 anos, com 17 jogos pela Inglaterra, mas sem espaço em Anfield, foi recrutado por John Toshack para acrescentar experiência ao elenco.
As outras duas vagas no setor eram preenchidas por galeses que, apesar do sobrenome comum, não tinham parentesco. Meia versátil e com faro de gol revelado no próprio Swansea em 1973, Robbie James entrou em campo 445 vezes e marcou 113 gols ao longo dos dez anos em que atuou pelo time de cima. Também defendeu a seleção galesa entre 1978 e 1988, fazendo 46 partidas e sete gols. Naquela temporada, foi o único a entrar em campo como titular em todas as partidas da liga e o goleador do time na competição, com 15 gols.
Leighton James, por sua vez, era um ponta-esquerda rápido, habilidoso e driblador revelado pelo Burnley, onde se destacou na primeira metade dos anos 1970. A seguir passou por Derby County e Queens Park Rangers, antes de retornar aos Clarets em 1978. Dois anos depois, com a queda do clube para a terceira divisão, foi comprado pelo Swansea. No time de 1981/82, tinha liberdade para criar jogadas onde encontrasse espaço, fosse pelas duas pontas ou pelo meio. Pela seleção galesa, fez 54 jogos e dez gols entre 1971 e 1983.
Por fim, a dupla de ataque era formada pelo galês Alan Curtis e o inglês Bob Latchford. O primeiro, havia sido revelado no próprio Swansea como ponta-esquerda no início dos anos 1970, mas Harry Griffiths o deslocou ao centro do ataque em 1975. Quatro anos depois, ele deixou rapidamente o clube para uma passagem frustrada pelo Leeds, mas voltou a tempo de ser figura crucial no acesso dos Cisnes à elite em 1981. Em três passagens, faria ao todo 412 jogos e 110 gols. Pela seleção galesa, foram 35 jogos e seis gols entre 1976 e 1987.

Já Bob Latchford foi a mais surpreendente aquisição do Swansea para a temporada 1981/82. Cria do Birmingham, fez história no Everton entre 1974 e 1981, sagrando-se o artilheiro do time por seis anos seguidos e do campeonato em 1977/78 com expressivos 30 gols. Considerado um dos melhores da posição no país, o que lhe rendeu 12 partidas pela seleção inglesa com cinco gols marcados entre 1977 e 1979, era o segundo maior artilheiro dos Toffees, atrás apenas do lendário William “Dixie” Dean, ao deixar Merseyside rumo a Gales.
Na reserva figurava Jeremy Charles, centroavante (e, ocasionalmente, zagueiro) nascido em uma família de grandes jogadores do país: era filho de Mel Charles e sobrinho de John Charles, atacante que fez história na Juventus nos anos 1960 (ambos jogaram a Copa de 1958 por Gales). Revelado pelo Swansea em 1976, participou de toda a escalada do clube até a primeira divisão inglesa. Mas na temporada 1981/82 sofreu com lesões e foi submetido a duas cirurgias, fazendo com que atuasse só 13 vezes pela liga, sendo nove como titular.
O início sensacional
Animado com a perspectiva de mostrar do que era capaz contra os gigantes do país, o Swansea recebeu o Leeds na rodada de abertura do campeonato, em 29 de agosto de 1981. Observando-se o passado recente, um contraste interessante chamava a atenção: no meio da década anterior, enquanto os Cisnes ocupavam a rabeira da quarta divisão e corriam o risco de perder seu lugar na Football League, o adversário era o nada menos que o campeão da primeira e finalista da Copa dos Campeões. Em pouco tempo muita coisa mudou.
Um Vetch Field em ebulição presenciou a atuação que foi certamente uma das mais memoráveis estreias de um clube novato na primeira divisão inglesa. Aos cinco minutos, Alan Curtis centrou da esquerda e, após o corta-luz de Latchford, Jeremy Charles abriu a contagem. O Leeds empatou ainda no primeiro tempo com Derek Parlane. Mas no segundo foi difícil segurar o Swansea: num intervalo de nove minutos, Latchford anotou uma tripleta. No fim, Curtis desconcertou a zaga do adversário e fez um golaço, fechando em incríveis 5 a 1.
Pelo saldo de gols, os galeses foram imediatamente catapultados para a liderança, conservada na segunda rodada, no meio de semana, com a vitória sobre o Brighton fora de casa (2 a 1). Porém, o primeiro contratempo chegaria logo em seguida: com o meia Bryan Robson e o goleador Cyrille Regis – autor de um hat-trick – explorando a fragilidade defensiva da equipe de Toshack, o West Bromwich Albion goleou por 4 a 1 em Hawthorns. A derrota pesada logo na terceira rodada faz o treinador rever seus planos e mudar o esquema tático.
Ajustes feitos, o Swansea rapidamente se recuperaria, voltando a acumular vitórias, entre elas um 2 a 1 em casa sobre o forte Tottenham de Glenn Hoddle e Osvaldo Ardiles, campeão da FA Cup na temporada anterior e que voltaria a levantar a taça naquela campanha. Dessa forma, chegava na ponta dos cascos para um duelo marcante daquela campanha: a visita ao Liverpool em Anfield no dia 3 de outubro, cinco dias após a morte de Bill Shankly, lendário treinador que dirigira os Reds até 1974, vitimado por um infarto aos 68 anos.
O pré-jogo foi carregado de emoção e rendeu uma cena emblemática: com os jogadores dos dois clubes perfilados durante o minuto de silêncio, Toshack retirou o agasalho do Swansea revelando uma camisa do Liverpool por baixo, em sinal de respeito ao comandante que o trouxera para os Reds como jogador, e foi ovacionado pela torcida da casa. Comentava-se na época que Toshack era nome quase certo para assumir o Liverpool na iminência da aposentadoria de Bob Paisley. O próprio Shankly, antes de falecer, declarara apoio à ideia.
Quando a bola rolou, no entanto, o clima de cordialidade passou longe. Num jogo muito disputado e até nervoso, o Swansea abriu dois gols de frente com Leighton James cobrando pênalti e com o ex-Everton Bob Latchford. Mas o Liverpool chegou ao empate com dois pênaltis convertidos por Terry McDermott. No segundo, aliás, a marcação bastante contestada pelos jogadores visitantes rendeu um princípio de confusão após a conversão da cobrança entre o goleiro Dai Davies e os jogadores dos Reds. Mas o placar ficou mesmo no 2 a 2.
Após a atuação encorajadora em Anfield, o Swansea obteve uma vitória significativa ao derrotar o Arsenal por 2 a 0 no Vetch Field. E uma semana depois, outro resultado positivo – 2 a 1 de virada na visita ao Stoke – conduziu os galeses de volta à liderança da competição com sete triunfos em dez jogos. Difícil, porém, seria se sustentar nessa posição: na dezena seguinte de jogos que teria de meados de outubro até o fim daquele ano de 1981, a equipe de John Toshack continuaria a oscilar, somando cinco derrotas e apenas três vitórias.
O Swansea perderia a liderança logo na rodada seguinte após uma derrota em Coventry (3 a 1). Mas logo conquistaria outra ótima vitória fora de casa: 3 a 2 sobre o grande time do Ipswich do técnico Bobby Robson, vice-campeão da liga e ganhador da Copa da Uefa na temporada anterior, num jogo em que nunca esteve atrás no marcador: Curtis, Latchford e, por fim, Gary Stanley (um minuto após o 2 a 2) balançaram as redes em Portman Road. Tudo isso para, no jogo seguinte, ser goleado pelo Manchester City em Maine Road: 4 a 0.
Mesmo com tanta inconstância, o time conseguiria voltar ao topo da tabela em 15 de dezembro, quando o atual campeão Aston Villa se tornou mais um a ser derrotado no Vetch Field, com Robbie James marcando ambos os gols na vitória por 2 a 1. Na última partida do ano, porém, o Swansea foi outra vez destronado da liderança ao perder na visita ao Southampton do astro Kevin Keegan, que marcou duas vezes levando os Saints a vencerem por 3 a 1 e ultrapassarem os próprios galeses na classificação, instalando-se no segundo lugar.
Pela última vez no topo
De todo modo, o Swansea fechava o ano em terceiro, só um ponto atrás do líder Manchester City. Mas os primeiros passos de 1982 seriam com o pé esquerdo: já em 2 de janeiro o time cairia no primeiro mata-mata da FA Cup, goleado pelo Liverpool por 4 a 0 em pleno Vetch Field – na Copa da Liga, os Cisnes também haviam caído na etapa em que entraram, diante do Barnsley, ainda em outubro. Pela liga, o primeiro jogo foi no dia 16 e também acabou em derrota: o Leeds teve seu troco da goleada na estreia e venceu em Elland Road: 2 a 0.
Dali por diante, porém, o Swansea embarcaria numa sequência fantástica que iria reconduzi-lo à liderança da liga em meados de março. A começar pela grande vitória de 2 a 0 sobre o Manchester United no Vetch Field, na tarde de estreia de Ray Kennedy com casa cheia: 24.115 torcedores, maior público do time em casa pela competição na temporada (abaixo, um compacto do jogo). Em seguida, como visitante, o time bateu o Notts County por 1 a 0 e arrancou o 1 a 1 diante do Middlesbrough, com Kennedy marcando seu primeiro gol pelo clube.
Em 16 de fevereiro foi a vez de o Liverpool voltar ao Vetch Field, agora pelo campeonato. Nos 15 minutos finais, Leighton James e Alan Curtis marcaram para dar a vitória aos Cisnes por 2 a 0. O time seguiu imparável, com mais duas vitórias fora de casa: foi ao norte e bateu o Sunderland por 1 a 0. Depois, desceu a Londres e derrotou o Arsenal por 2 a 0 em Highbury com o ex-Gunner Ray Kennedy abrindo o placar. De volta ao Vetch Field, outra vitória categórica, 3 a 0 no Stoke, antes do único “tropeço’ da sequência: o Coventry segurou o 0 a 0.
A próxima parada no caminho para retomar a liderança ficaria em Molineux, onde o ameaçado Wolverhampton, dentro da zona de rebaixamento, receberia o Swansea no dia 20 de março. A vitória por 1 a 0 da equipe de Toshack vem com gol do atacante Ian Walsh, contratado do Crystal Palace como último reforço antes do fechamento da janela. Assim, os Cisnes voltariam a alcançar – pela última vez – o primeiro lugar naquela temporada, somando 56 pontos em 30 jogos, um a mais que o Southampton, que tinha duas partidas a mais.
Logo atrás, no entanto, vinham três times com partidas a menos que os Cisnes: o Manchester United era o terceiro com 53 em 29, enquanto Liverpool e Ipswich fechavam o Top 5, ambos com 51 pontos em 28 partidas. Havia ainda o Tottenham, um pouco mais abaixo na sétima colocação, mas com 49 pontos em apenas 25 partidas devido ao calendário apertado pelas copas. A tabela, em tese, favorecia o Swansea: dos oito jogos seguintes, seis seriam em casa. Mas logo nos dois primeiros, o time começa a dar sinais de falta de fôlego.
O Ipswich também ganharia sua revanche da derrota em casa sofrida em novembro ao vencer no Vetch Field por 2 a 1 com um gol de Eric Gates a dois minutos do fim. Em seguida, seria a vez do West Ham retornar a Londres com os três pontos (novidade introduzida no futebol inglês naquela temporada) após bater o Swansea por 1 a 0, gol do atacante belga François Van Der Elst. Os dois maus resultados fariam o time descer ao quarto lugar, posição em que encerraria o mês de março. Mas com a chegada de abril, ganharia uma sobrevida.

A última boa sequência do Swansea naquela campanha começaria com uma eletrizante vitória de virada nos minutos finais sobre o West Bromwich por 3 a 1. Em seguida, apenas dez dias após ter perdido em casa para o West Ham, arrancaria um empate com o mesmo adversário dentro de Upton Park: 1 a 1. Mais adiante, venceria Southampton (1 a 0) e Manchester City (2 a 0), dois ex-líderes que vinham em franca decadência. Dez pontos ganhos em 12, que fazem o Swansea subir à terceira posição, a um ponto do vice-líder Ipswich.
Mas o fôlego voltou a faltar na reta final, e o desfecho da campanha do Swansea seria melancólico: cinco derrotas nos seis últimos jogos (Birmingham, Tottenham e Aston Villa fora; Everton e o quase rebaixado Middlesbrough em casa), obtendo apenas uma honrosa vitória diante do Nottingham Forest de Brian Clough dentro do City Ground por 2 a 0, dois gols de Robbie James. A sequência ruim derrubaria o retrospecto final, e os Cisnes terminariam em sexto – uma ótima colocação, mas, por ironia, a pior que ocuparam na temporada.
O brilho antes do declínio
Mas era, sem sombra de dúvida, uma campanha para se aplaudir, a dos estreantes galeses: o Swansea terminou com 69 pontos, atrás de Liverpool (87), Ipswich (83), Manchester United (78) e dos londrinos Tottenham e Arsenal (ambos com 71). Mas derrotou cada um desses cinco pelo menos uma vez – bateu os Gunners em casa e fora. E ainda ficou à frente de equipes tradicionais ou com elencos mais caros, como o Southampton de Kevin Keegan, o Everton, o Manchester City, o Aston Villa campeão europeu e o Nottingham Forest.
Dois dias antes da última partida pela liga, contra o Villa, o Swansea havia conquistado também o tricampeonato da Copa galesa, batendo o Cardiff na final. A vitória levou a um remanejamento do clube de um torneio europeu – a Copa da Uefa, para a qual se classificara pela liga inglesa – a outro – a Recopa – na temporada seguinte. Nesta competição, o time eliminaria o Braga e aplicaria uma goleada de 12 a 0 no Sliema Wanderers, de Malta, antes de cair diante do Paris Saint Germain nas quartas – mas ali seu declínio já havia começado.

Apesar da maré favorável com as ótimas campanhas nos acessos e na estreia na elite, o Swansea não passaria incólume ao contexto de crise financeira do futebol inglês da época (num reflexo do que acontecia no Reino Unido como um todo), agravado pela escalada do hooliganismo e a queda vertiginosa das receitas de bilheteria. Já ao fim daquela temporada 1981/82, a conta chegaria aos galeses: sem conseguir pagar ao Everton pelas contratações de Bob Latchford e Gary Stanley, o Swansea foi proibido de contratar pela Football League.
Para piorar, o elenco sofreu sucessivas crises de lesões ao longo da temporada 1982/83. Sem ter como repor as peças, o time viu seu desempenho embicar para baixo, passando a brigar contra o rebaixamento, afinal decretado em 7 de maio de 1983. Com rumores dando conta das dívidas em torno de £2 milhões, o clube dispensou grande parte de seu elenco, incluindo vários titulares de 1981/82. Em outubro, o presidente Malcolm Struel se demitiu do cargo, cedendo o posto a Doug Sharpe. Teria início a queda livre do clube galês.
Toshack sairia, voltaria e sairia novamente, antes de deixar o futebol inglês e seguir para Portugal em meados de 1984, onde assumiria o comando do Sporting. Havia perdido o bonde do Liverpool no instante em que Bob Paisley mudou de ideia e, em vez de se aposentar ao fim da temporada 1981/82, decidiu ficar por mais um ano, sendo sucedido mais tarde pelo antigo auxiliar Joe Fagan. O Swansea, por sua vez, desceria à terceira divisão, conseguiria evitar nova degola em 1984/85, mas logo estaria de volta à quarta divisão em 1986.
Naquela altura, a briga não era apenas contra rebaixamentos e sim contra a falência: devendo a jogadores, clubes, moradores locais, à Polícia, ao fisco, a Deus e todo mundo e ainda precisando de dinheiro para reformas urgentes no estádio de Vetch Field, o Swansea beirava o colapso total. Até ser resgatado por um grupo de cinco dirigentes que elaboraram um pacote de salvação aceito pela Justiça britânica. Recomeçaria lá de onde se encontrava em 1977/78. Mas de qualquer forma, já era melhor do que a ameaça de fechar as portas.



