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Os laterais mudaram completamente de função no futebol e te explicamos os motivos

Esqueça a imagem dos laterais se limitando a correr de uma linha de fundo a outra, o futebol moderno exigiu uma adaptação da posição

A vida é feita de evolução, e com o futebol, isso não é diferente. A gente pode não perceber, mas o esporte que amamos traz alguma mudança – mesmo que imperceptível – a cada dia que passa. Talvez a grande transformação dos últimos anos tenha sido a função dos laterais. Esqueça a imagem deles se limitando a correr de uma linha de fundo à outra. Isso já é passado.

Com características diferentes de nomes históricos como Nilton Santos, Carlos Alberto Torres, Cafu, Roberto Carlos — e tantos outros brasileiros e estrangeiros –, os laterais atuais precisaram se adaptar às mudanças do jogo. Hoje, eles desempenham um papel fundamental para as equipes do futebol de elite. E não só pelas tarefas defensivas e ofensivas, mas, principalmente, na construção de cada time.

Para isso, primeiro precisamos entender a posição de lateral desde sua concepção, passando por suas modificações ao longo do tempo até chegarmos ao que vemos hoje. Ao final desse texto, sua admiração por Alexander-Arnold, Walker, Robertson, Theo Hernández, etc. deve crescer. Entenda porque a posição mudou completamente de função no futebol.

Por que os laterais mudaram tanto no futebol?

O que era

Até para não estender muito essa análise, o princípio do esporte, lá no início do século XX, baseava suas equipes no esquema 2-3-5. Sim, sem os laterais, os únicos dois nomes da defesa eram os zagueiros. Com o passar do tempo, os treinadores começaram a povoar mais seus sistemas defensivos – até porque os adversários jogavam com muitos jogadores na frente.

A formação mais comum deixou de ser 2-3-5 e virou um 3-4-3. Depois um 3-3-4. Na sequência, um 4-2-4. Então, um 4-4-2. E assim por diante. O ponto principal é o seguinte: a primeira linha de defesa ganhou mais suporte, um lateral-esquerdo e um lateral-direito. No começo, eles eram responsáveis por compactar a defesa. Entretanto, com o passar dos anos, ganharam um destaque no ataque.

Isso só foi possível graças a zagueiros históricos do futebol. Como o poder de marcação gerou defesas cada vez mais sólidas, os laterais tinham a liberdade de apoiar pelos flancos até chegar à linha de fundo adversária. Uma vez lá, a ordem era cruzar para a área. Por isso, a posição se tornou tão atlética, pois os jogadores precisavam de velocidade, fôlego, poder de marcação, habilidade técnica, entre tantas outras coisas para ajudar seus clubes.

Ponto de virada

A ideia dos laterais correndo de uma ponta a outro do gramado durou (mais ou menos) até a década passada. Para não sofrer gols através de jogadas construídas por esses atletas, os técnicos de futebol rearranjaram suas defesas para inibir o peso dos alas. Como? Bom, puxando um jogador da segunda linha (também conhecida como meio-campo) para fechar espaços nos lados de campo.

Com os flancos congestionados, isso criava em um cenário perfeito para um contra-ataque caso conseguisse tirar a bola dos laterais, que, perto da grande área rival, tinham que percorrer todo o caminho de volta para sua defesa. Então, o ponto de virada foi que os lados de campo estavam mais protegidos, o que (consequentemente) abriu entrelinhas no setor central de campo.

Ou seja, era mais fácil avançar ao ataque pelo meio do que insistir nas laterais. E nesse exato momento, a posição necessitava de um respiro para voltar a fazer a diferença para os times. Um dos principais responsáveis por essa transformação foi Pep Guardiola, que adotou a função do “lateral invertido” no seu Bayern de Munique para dar uma nova cara a esses jogadores.

Philipp Lahm, por exemplo, deixava o lado direito para subir uma linha e ser opção pelo centro de campo, ao lado do volante. Esse simples movimento cria superioridade numérica no meio. O que isso significa? Bom, se um time tem mais jogadores que o adversário em um setor do gramado, na teoria é mais fácil sair trocando passes para sair da defesa e chegar até o ataque.

Os laterais modernos

Pelo menos nos últimos 20 anos, o futebol adotou uma tendência: abandonar a construção através de bolas longas para sair tocando no pé desde o goleiro. Por quê? Simplesmente porque é uma maneira mais organizada de chegar ao ataque. Os famigerados chutões traziam mais incertezas, até porque o zagueiro adversário poderia ganhar a disputa pelo alto e retomar a posse.

Existem diversas estratégias para realizar a transição ofensiva através de uma saída curta. Existem times que apostam na paciência e não se importam de trocar muitos passes perto de sua área. Por outro lado, há equipes que preferem um estilo mais direto, com toques rápidos e verticais (para frente) para sair da defesa o quanto antes. Independentemente do método, os laterais são importantes.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - ALexander-Arnold assumindo uma função de lateral invertido no Liverpool
Foto: (Reprodução/homecrowd) – Alexander-Arnold assumindo uma função de lateral invertido no Liverpool

Um lateral invertido, por exemplo, obriga seu marcador a tomar uma decisão: acompanhá-lo ou priorizar a posição na linha defensiva? Se ele decide seguí-lo até a faixa central de campo, um buraco se abre no flanco, o que pode render um passe tranquilo para o ponta. Caso não desfaça sua linha, a superioridade numérica (como um 4 contra 3) facilita a construção pelo meio.

O lateral longe da ponta tem suas vantagens

Os laterais longe da ponta têm suas vantagens. Alexander-Arnold continuar no meio enquanto o Liverpool avança para o ataque permite uma nova opção de desafogo. Se os Reds perdem a bola no último terço, o inglês também ajuda a colocar em prática a pressão sobre a zaga adversária, dificultando a capacidade do rival em sair em um contra-ataque rápido.

E cada treinador usa o lateral invertido da maneira que acha mais benéfica para seu time. Alexander-Arnold tem a chance de ser mais criativo ao tentar ligar o jogo com lançamentos rápidos e precisos. Já no Arsenal, Zinchenko costuma a procurar passes curtos e participa da rotação da equipe para confundir a defesa adversária, numa postura mais contida.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - Gutierrez deixando a lateral esquerda para ser opção de passe ao lado de um volante no Girona
Foto: (Reprodução/homecrowd) – Gutierrez deixando a lateral esquerda para ser opção de passe ao lado de um volante no Girona

O inglês corre mais riscos de perder a bola por causa de sua ousadia, o que não é um problema, já que, em casa de acerto, a recompensa para os Reds pode ser um gol. Já o ucraniano participa de um jogo mais seguro, calculando seus movimentos. Jürgen Klopp é adepto de uma filosofia de pressão constante e ataques rápidos, enquanto Mikel Arteta é de uma escola do jogo posicional, com construção através de passes precisos.

Laterais que não se limitam a sua posição

Mais do que os laterais invertidos, também existem aqueles que não se limitam nem um pouco a sua posição de origem. As equipes aprenderam a lidar com os jogadores que deixam os flancos e se juntar a faixa central de campo. Por isso, técnicos tiveram que colocar suas cabeças pensantes em ação para bolar novos métodos de surpreender o adversário.

O espaço nas entrelinhas diminuiu, mas eles existem no lado oposto da jogada. Gutierrez (lateral-esquerdo de origem) tem carta branca para ocupar qualquer pedaço do gramado para facilitar a transição do Girona. Ele pode se aproximar do centroavante pelo meio, ou ficar à frente do zagueiro pela direita. Não importa, a ordem é criar sobrecarga onde for possível.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - Dimarco deixando a ala esquerda para dar apoio no lado direito da Internazionale
Foto: (Reprodução/homecrowd) – Dimarco deixando a ala esquerda para dar apoio no lado direito da Internazionale

Essa imprevisibilidade é difícil de marcar, já que Gutierrez pode se movimentar livremente. A Internazionale também está testando algo novo com Dimarco, ala-esquerdo que joga com três zagueiros. Se a bola cai para o lado direito, o italiano tem permissão para se deslocar de seu flanco e ser opção de passe na outra ponta. A fluidez acaba sendo a chave para o sucesso.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus Cristianini

Formado em Jornalismo pela Unesp, é apaixonado por esportes, acima de tudo futebol. Ama escrever sobre o que acontece dentro e fora de campo. Após passar por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia, se juntou à equipe da Trivela com muita vontade de continuar crescendo.
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