Alemanha

O adeus de quem ficará para sempre: 10 motivos pelos quais Lahm fará falta ao futebol

Vai ser difícil de se acostumar com o Bayern de Munique nos próximos meses. Você poderá procurar nas duas laterais e no meio de campo que ele não estará lá. Não enxergará o baixinho incansável e extremamente técnico, que tratava a bola com cortesia. O dono da braçadeira de capitão, que ergueu tantas taças nos últimos anos, pelo clube e também pela seleção alemã. O craque (sim, um craque da lateral) que será lembrado por muito e por muito tempo como um dos melhores de seu ofício. Philipp Lahm parou.

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O adeus de Lahm suscita aquele pensamento que por vezes surge em nossa cabeça, mas se reserva apenas aos realmente grandes: que honra foi ter visto ele jogar. Afinal, te desafio contar nos dedos (de uma mão?) os laterais tão bons quanto ele que você já presenciou. Talvez só os mais antigos, que tiveram a honra de apreciar várias lendas. Nas últimas décadas, são raríssimos os que se aproximam. Tão completos, talvez nenhum.

Com pesar, a gente se despede de Lahm. Mas bem cientes do prazer que foi acompanhar a sua carreira, da eclosão à consagração. E não apenas por aquilo que fez com a bola, mas também por aquilo que representou além das quatro linhas. Daqueles que honram toda a paixão que envolvem o futebol.

Abaixo, listamos 10 motivos pelos quais Lahm fará falta. Confira:

Porque poucos viveram o clube como ele

O Estádio Olímpico de Munique era praticamente o quintal de Philipp Lahm. O garoto nasceu em Munique e cresceu na região de Gern, vizinha à antiga casa do Bayern. Assim, não demorou para que começasse a vestir a camisa dos bávaros. Descoberto aos 11 anos em uma pequena equipe local, logo foi levado às categorias de base. E era tratado como uma pérola por seu talento. Por duas décadas, o capitão viveu a realidade do clube. Conheceu diversos jogadores, técnicos, funcionários. Personificou o próprio ideal de trabalho, combinando seriedade e talento. Apesar da desconfiança de alguns, a braçadeira era uma herança natural por toda a identificação. Pela liderança forjada desde cedo, sem precisar ser enérgica ou feroz para conquistar o respeito.

Porque transformou sua breve saída em uma grande oportunidade

E se o trabalho silencioso sempre foi uma das virtudes de Lahm, isso se escancarou logo no início de sua carreira profissional. O empréstimo para o Stuttgart poderia fazer muitos jogadores ficarem de bico. Porém, a promessa agarrou a oportunidade. Passou dois anos com os suábios, mostrando o seu valor e gastando a bola. O empenho valeu muito mais do que o retorno ao Bayern cheio de moral. O novato logo se transformou em um dos melhores laterais da liga. Mais além, ganhou suas primeiras chances na seleção. A passagem pela Mercedes-Benz Arena acabou sendo fundamental para sua participação na Copa do Mundo em 2006.

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Porque marcou o início de um grande orgulho alemão

Para quem assistiu à Copa de 2006, a lembrança é imediata. Aos 22 anos, Lahm inaugurou a competição com um verdadeiro golaço. Acertou um belíssimo chute, para abrir a vitória da Alemanha sobre a Costa Rica na estreia do Mundial. O cartão de visitas de uma nova estrela, para quem ainda não o conhecia da Bundesliga. E também a primeira explosão de alegria em uma competição que serviu como marco para o povo alemão, resgatando o seu orgulho. Se a realização do torneio promoveu uma união ainda maior da população e sua hospitalidade ao resto do planeta, o futebol exibido pelo Nationalelf ajudou a motivar. A equipe não conseguiu conquistar a taça, mas terminou aplaudida. O jovem lateral, ao lado de outros novatos, se colocava como um dos protagonistas para o futuro promissor.

Porque primou em todas as funções que lhe foram dadas

Durante os primórdios nas categorias de base, tamanha era a técnica, Lahm começou como meia. As características, porém, o recuaram aos poucos. Passou também pelo meio de campo até chegar à lateral. E as sucessivas adaptações ajudaram o jovem a se tornar um jogador completo. O estilo incansável, a capacidade na marcação e o perigo constante nas subidas ao ataque permitiram que fosse um dos melhores laterais da história, mantendo os seus predicados tanto na esquerda quanto na direita. Se preciso, em algumas partidas era também um competente meia. Já sob as ordens de Pep Guardiola, referendou-se como novo motor dos bávaros, na cabeça de área. Em comum ao longo de todos esses períodos, estavam a inteligência na leitura do jogo, a obstinação, a intensidade e a qualidade nos fundamentos.

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Porque impulsionou um multicampeão

Alguns podem dizer que uma carreira tão condecorada como a de Lahm não dependeu apenas de suas capacidades, defendendo um esquadrão como o Bayern de Munique. De fato, a hegemonia dos bávaros ajuda demais. Apenas na Alemanha, são oito troféus da Bundesliga e seis da Pokal, sem contar outros feitos menores. Entretanto, a dominância interna, bem como a reviravolta que permitiu a maior conquista recente dos bávaros, dependeu muito do capitão. Primeiro, por recuperar o brio do time após perder duas finais da Champions em três anos, incluindo uma na própria Allianz Arena. A liderança do veterano valeu demais para a volta por cima em Wembley, com a Orelhuda em suas mãos. Depois, o desafio seria manter a mesma fome pelas taças, na sequência da Tríplice Coroa. Então, o camisa 21 primou pelo exemplo de quem nunca deixou de ensopar a camisa de suor, mesmo nos treinos, em busca das vitórias.

Porque nos ensinou muito em 2014

Do orgulho em 2006, a seleção alemã inflou as expectativas sobre si a partir de então. E, ao longo dos anos, Lahm ajudou a torná-las realidade, apesar das frustrações justamente nos momentos decisivos. O Nationalelf perdeu a decisão da Euro 2008 e, já com a braçadeira entregue ao lateral, caiu em duas semifinais seguidas, em 2010 e 2012. Era necessário dar um passo além. Algo que os alemães conseguiriam justamente tirando o peso da pressão, lidando com a Copa de 2014 da maneira mais leve possível. Ao lado de outros veteranos, como Klose e Schweinsteiger, Lahm teve papel essencial neste processo. Tranquilidade e confiança que se percebiam em campo, mas ensinavam muito fora dele, pela maneira como os germânicos encararam a estadia no Brasil. Foram muito mais brasileiros que a nossa Seleção, distribuindo empatia em diversos cantos do país. Terminaram triunfantes no Maracanã, com a taça merecidamente dormindo nas mãos do capitão.

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Porque poucos foram tão leais

Lahm representou o futebol pelo futebol. Nunca foi um jogador de explorar a sua imagem para se impulsionar. Nunca abusou da agressividade para vencer – e isso, nos mais diferentes aspectos. Basta notar que nunca recebeu um cartão vermelho ao longo da carreira, como raríssimas foram as polêmicas nas quais se envolveu. Exceção feita a uma ou outra história, como a mágoa de Michael Ballack por ter perdido a braçadeira de capitão, a reputação do alemão sempre foi enorme. Respeito conquistado principalmente na bola, tanto entre adversários quanto entre companheiros.

Porque engrandeceu outros grandes

Ao longo da carreira, Lahm firmou algumas parcerias célebres. Pela seleção, a dobradinha com Lukas Podolski pelo lado esquerdo do ataque causou muitas dores de cabeça em meados da década passada. Depois, se juntaria a Thomas Müller pela direita. No Bayern de Munique, as principais combinações vieram com Franck Ribéry e, especialmente, com Arjen Robben, em um lado direito para a história. E isso sem contar os anos no meio-campo, trocando passes com feras do calibre de Bastian Schweinsteiger e Xabi Alonso. Por fim, cabe ainda lembrar que os inúmeros cruzamentos precisos consagraram grandes artilheiros, como Roy Makaay, Luca Toni, Mario Gómez, Mario Mandzukic, Robert Lewandowski e Miroslav Klose.

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Porque construiu uma belíssima relação com a torcida

Embora não fosse dos jogadores mais carnais, Lahm nutriu o carinho de seus torcedores ao longo dos anos. Algo que desabrochou nos últimos meses, com o anúncio de sua aposentadoria. A partir de então, seu nome passou a ser cantado em todos os jogos – talvez uma súplica para que mudasse de ideia e ficasse. Na reta final da campanha, o veterano deixou o comedimento de lado para puxar os gritos dos ultras. Já no adeus, recebeu o tributo mais emblemático com uma coreografia especial, cheia de bandeirões para representar a idolatria. Pela última vez, ergueu a Salva de Prata diante dos bávaros.

Porque ele respeitou a própria trajetória

Sempre vai ser difícil aceitar que Lahm parou aos 33 anos. E parou jogando muita bola, seguindo como um dos melhores do Bayern na temporada. Renderia mais tempo na lateral, se quisesse, e mais ainda se fosse deslocado ao meio-campo. Todavia, através de suas palavras, fica mais fácil de entender a postura de Lahm. Na última semana, disse que não sentia o mesmo ímpeto nos treinamentos, que a rotina já pesava. Queria aproveitar mais a vida, a família, pensar no futuro, cuidar de seus projetos de caridade. Mas logo se percebe que uma intenção a mais é se poupar do ocaso, tão cruel com aqueles apaixonados por sua profissão. O veterano poderia rechear o seu currículo nos próximos anos. Prefere sair de cena e eternizar 15 anos de profissionalismo no mais alto nível, assim como já tinha feito na seleção. A grandeza de quem apareceu na seleção ideal em todas as três edições que disputou a Copa do Mundo e também nas duas da Eurocopa, em três posições diferentes. De quem se despede como um dos melhores laterais da história, e ainda vai além disso.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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