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Blatter solta o verbo: Superliga seria o fim do futebol e Copa a cada dois anos é uma estupidez

Ex-presidente da Fifa, Blatter criticou o presidente atual, Infantino, e criticou as ideias da Superliga na Europa e da Copa do Mundo a cada dois anos

O ex-presidente da Fifa, Joseph Blatter, segue dando palpites quando o assunto é futebol, mesmo que ele esteja banido até ao menos 2027 por diversas violações no código de ética. Em entrevista à Europe 1, criticou a Superliga Europeia, chamou a ideia da Copa do Mundo a cada dois anos de “uma estupidez” e sobrou também para o atual presidente da Fifa, Gianni Infantino, que ele disse ser um presidente ruim.

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Joseph Blatter é uma figura muito conhecida pelo papel que exerceu na Fifa ao longo dos anos, especialmente por ter sido presidente de 1998 até 2015, quando renunciou em meio ao escândalo do Fifagate. Ele estava na Fifa desde 1975 e passou pelos cargos de diretor técnico e secretário-geral antes de assumir a cadeira da presidência. Blatter foi punido junto com Michel Platini por um pagamento considerado indevido da Fifa ao ex-jogador francês por serviços de consultoria.

A história de Blatter na Fifa está ligada diretamente a um brasileiro: João Havelange, um homem apaixonado por poder, não futebol. O dirigente brasileiro fez o caminho do poder a partir da então CBD, antecessora da CBF, e chegou até a Fifa para mudar a entidade. Blatter foi o seu pupilo e manteve a política que fez de Havelange o mais poderoso dirigente de futebol por décadas. Foi assim que Blatter chegou à presidência, em 1998, para suceder o mentor.

Desde que saiu da Fifa, porém, Blatter tem atirado contra as políticas e o atual dono da cadeira. Desta vez, porém, seus canhões foram direcionados a algo além disso. Também questionou os valores envolvidos no futebol – o que é irônico para alguém que ajudou o futebol a se tornar o que é hoje, supervalorizando tudo, incluindo contratos relacionados à Copa do Mundo.

“O que me impressionou no ano passado foram as enormes somas que pagamos hoje. Por exemplo, a transferência de Messi para o PSG. O dinheiro não estava disponível, os contratos que são feitos para novos jogadores… Me pergunto se isso ainda é normal. Mas você não pode controlar o princípio fundamental de oferta e demanda, e então você se torna vítima da popularidade do esporte”, disse Blatter.

Blatter critica fechar estádios por episódios de violência

“É uma questão que me toca. Tentamos tudo. Antes, falamos sobre racismo. Mas não é apenas racismo, há violência que entrou nos estádios novamente. Tomamos decisões fortes, mas não as aplicamos. A responsabilidade sempre cai com o organizador, o organizador da partida, da liga ou a federação que organiza o futebol… Mas se há excessos, é inútil fechar o estádio por um ou dois jogos ou dar multas financeiras”, analisou Blatter.

“A única solução é tirar pontos. Mas você tem que tirar nove pontos, não apenas dois. Ao menos seis ou nove pontos, ou eliminar diretamente quando for um jogo eliminatório. A pirâmide do futebol não apenas deveria ser controlado por baixo, pelos clubes, por exemplo, mas também de cima, pelo órgão mais alto, a Fifa e o presidente da Fifa: eles são aqueles que precisam assumir a liderança em controlar o futebol, é de suma importância”, continuou o ex-presidente da Fifa.

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Blatter sobre Infantino: “Ele não é um bom presidente”

Blatter fez críticas a Gianni Infantino, atual presidente da Fifa, sobre ele morar no Catar e sobre a ideia de mudar a sede da Fifa. Há rumores que Infantino quer mudar a sede da entidade para os Estados Unidos. “Ele não está fazendo seu trabalho adequadamente. Quando ele chegou à presidente da Fifa por meios incompreensíveis, demitiu 80 pessoas, incluindo 30 diretores. Ele queria sair de Zurique, se mudou para o Catar. Mas Zurique é a sede da Fifa”, disse Blatter

“Se pudéssemos falar, eu o acordaria para isso. Ele diz que em Zurique não o recebemos bem. A sede está em Zurique desde 1932, viemos para Zurique depois da crise econômica, política e social nos anos 1930, viemos para a Suíça para sermos quietos e assim somos. Então por que ele quer mudar a sede agora?”, criticou.

“Organizei quatro ou cinco Copas do Mundo em diferentes países, nunca teria pensado em viver na capital do país que está organizando a Copa do Mundo. O lugar do presidente da Fifa é onde está a sede, que é na Suíça. É de lá que ele tem que liderar a Fifa, não de outro lugar. Não posso dizer que é ultrajante. Mas posso dizer que é incompreensível que ele vá se estabelecer lá com a sua família. Dá um gosto ruim”.

“Por que ele se coloca nos braços do organizador da Copa do Mundo? Sabemos que o Catar é um grande país no círculo árabe e que eles querem resumir o futebol em comprar clubes ou estar na organização”, continuou o suíço. O atual presidente, não reconheço sua visão. Ele não é um bom presidente da Fifa, eu tenho que dizer”.

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Copa no Catar: “Eu não conseguia acreditar”

“Só posso repetir o que já disse nos meus dois livros. Michel Platini me telefona e confirmo isso com a minha alma e consciência. Eu não inventei essa ligação de Michel Platini. Eu escrevi repetidamente para a Justiça da Suíça e duas vezes para a Justiça da França. Não posso mudar isso. Infelizmente eu não gravo minhas ligações”, contou.

“Ele me disse que foi convidado para um almoço na Champs Elisée e que encontrou com o presidente Nicolás Sarkozy e o Emir do Catar. Eles gentilmente o pediram para apoiar o Catar. Disse a ele: Como você foi forçado? Ele disse: Não, foi recomendado para mim. Ele perguntou o que eu faria se meu presidente me pedisse algo assim”.

“Não temos presidente na Suíça, então a pergunta não se sustenta. Eu fiquei surpreso. Pensei: ele está me abandonando? Eu não podia acreditar nisso. Então veio a votação. Depois da primeira rodada, nós deveríamos ter anunciado o resultado imediatamente. O resultado da segunda talvez tivesse mudado [ele se refere às duas Copas, de 2018 e 2022]. O resultado da primeira era Rússia. Se a Rússia tivesse já vencido a Inglaterra e especialmente a candidatura de Espanha e Portugal, acho que esse grupo [Espanha, Portugal e Inglaterra) não teria votado no Catar. Mas não sabemos”.

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Os problemas de fazer a Copa do Mundo no Catar

“Eu me arrependi quando anunciei. Depois, percebi que não seria fácil. Teríamos feito melhor em ler o relatório especial liderado por um chileno [relatório da Organização Internacional do Trabalho, então liderada por Juan Somavia] que dizia que não poderíamos jogar no Catar por razões climáticas e porque o país é muito pequeno”, afirmou Blatter.

“A Copa do Mundo de 32 times é difícil em um país pequeno. Eu tive a impressão que foi uma decisão ruim, mas estávamos presos a essa decisão. Trabalhamos na preparação para esta Copa, todo dia recebíamos reclamações e dedos apontando que o tratamento dos trabalhadores era difícil”.

“Mas reconsiderar a decisão do Comitê Executivo, especialmente depois que a Comissão de Ética da Fifa fez um estudo, Michael Garcia [responsável por investigar as brechas éticas na Fifa] disse que não há corrupção para esta Copa do Mundo. Nós poderíamos ter tirado a Copa do Mundo no Catar. Mas não tinha razão específica para tirar a Copa do Mundo no Catar. Depois do relatório, confirmamos a sede da Copa lá”.

Blatter diz apenas uma meia verdade quando fala que o relatório de Michael Garcia não Achou corrupção. O relatório feito pelo ex-procurador americano teve vários problemas: os dois países investigados, Rússia e Catar, não colaboraram com a investigação, não forneceram documentos fundamentais e, apesar de ser da Fifa, ele não tinha poder de polícia para investigar. E por mais que não tenha comprovado a corrupção, justamente pela falta de provas, o relatório dá indícios fortes que havia algo errado – e a Fifa poderia forçar a barra se quisesse. Michael Garcia deixaria a Fifa pouco depois justamente por entender que ele não teve condições de trabalhar.

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“Copa do Mundo a cada dois anos é uma estupidez”

“É uma imbecilidade sem nome. Eu tenho que fazer a minha mea culpa porque quando eu fui eleito presidente da Fifa, durante minha primeira sessão, eu disse que poderíamos organizar uma Copa do Mundo a cada dois anos. Mas as pessoas ao meu redor me disseram que eu estava errado”, disse Blatter.

“Mas hoje, com o calendário sobrecarregado, há algo mais. É sempre os melhores jogadores atuando, mas eles já estão sobrecarregados na sua competição continentais e nacionais. E a base da Fifa é nos clubes, não nas seleções. É uma imbecilidade. Não podemos fazer isso, é ruim para o futebol”.

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“A Superliga seria o fim do futebol”

“Se isso acontecer, mudarei meu testamento (risos). Seria o fim do futebol. Temos que evitar sacrificar o futebol que é jogado nas pequenas ligas nos clubes. Quando eu passo pelo meu Cantão de Valais, em qualquer lugar há um campo de futebol onde você joga futebol. Ligas fechadas são o modelo americano. E meu clube favorito, o Real Madrid (ele é um membro honorário do clube), está lá”.

“Acho que está tudo errado. Porque o futebol, no seu lado educacional, tem promoção e rebaixamento. É importante, porque você não perde a esperança de vencer. Em uma liga fechada, você não perde nada mesmo que você perca tudo. A base do jogo de futebol é: você aprende a vencer e perder na esperança de ficar melhor. Então, uma liga fechada não!”.

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Entenda o que foi o Fifagte neste episódio do podcast Trivela

Blatter nega que o pagamento a Platini tenha sido irregular

Um dos pontos críticos no caso de Blatter foi o pagamento a Michel Platini por serviços de consultoria que o francês fez no primeiro mandato do suíço na presidência da Fifa. Platini depois deixaria a Fifa e se tornaria presidente da Uefa. Para Blatter, a investigação foi atropelada. Ela surgiu justamente porque Platini recebeu o dinheiro em um momento que ele era especulado para ser presidente da Fifa e concorrer contra Blatter. O pagamento, naquele momento, foi visto como uma tentativa de entrar em um acordo e deixar que Platini concorresse apenas depois – o que seria em 2015.

“Neste caso, nem Michel nem eu fizemos algo que mereça reprovação. Fizemos um contrato oral quando me tornei presidente da Fifa. Disse: ‘Preciso de você, Michel’. Ele disse: ‘Eu valho um milhão’. Eu disse a ele: ‘Tudo bem por um milhão, você irá trabalhar para mim’. Na Suíça, um contrato oral é válido”, explicou Blatter.

“Ele fez um calendário internacional que nós apresentamos e não aplicamos. Ele também foi membro da comissão das leis do jogo, ele me acompanhou na International Board. Ele se tornou conhecido ali. Michel me disse: ‘Ainda estou com você, mas não posso mais trabalhar para você’. Então paramos. Durante o período que ele estava trabalhando, fizemos um contrato de funcionário. Mas esquecemos, esqueci disso também”.

“Mas em algum momento, quando ele viu funcionários da Fifa pedindo a ele pelo dinheiro, ele telefonou para o gerente financeiro em 2010. Então foi pedido a ele para mandar uma carta. Ele mandou a carta dizendo que faltavam dois milhões dos quatro anos que ele trabalhou. Cheguei à minha casa, vi essa cobrança e passei para o pagamento. Não podemos voltar nisso… Ninguém interveio”.

“Esse pagamento foi feito de acordo com as regras. A investigação foi feita de uma forma muito direta e a testemunha que Michel Platini indicou não foi ouvida. Ninguém foi ouvido. Não sei como eu poderia continuar se o que eu estava sendo acusado de ter feito errado estava certo”.

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Blatter diz que Platini teria sido bom presidente da Fifa

Blatter acusa Infantino se estar por trás da manobra que acusou Platini. Infantino foi secretário-geral de Platini na Uefa e foi seu braço direito por anos. Atualmente, os dois estão afastados. Platini se considera traído pelo ex-subordinado. Sem o francês no páreo, foi Infantino o escolhido e ele acabou angariando apoio para se eleger.

“Por que este pagamento subitamente foi para as mãos do promotor suíço, que então abriu a investigação? Porque quando aconteceu já havia a luta pela presidência da Fifa. Quando ele diz que a Suíça o demitiu, é verdade. A Suíça me demitiu, mas foi ainda pior para ele. A Suíça me pregou na cruz. Ele está certo e estou no mesmo barco. As pessoas deveriam olhar quem teve um papel especial nessa prisão… Mas se analisarmos a situação, por que me banir? É inútil. Não era eu que queria continuar na Fifa. Mas banir Platini foi maldade. Quem quis tirar Platini era quem queria tomar o lugar dele. Gianni Infantino estava envolvido na manobra”.

“Finalmente teríamos um jogador como presidente! Ele teria feito a Fifa ser sobre o jogo, menos política. Acho que seria ótimo. Ele teria respeitado seu antecessor. Nós temos pouca relação, vimos um ao outro uma vez no tribunal na entrada, nos cumprimentamos. No seu livro, ele diz que o que contei sobre o jantar, na Elysée, não era totalmente verdade e disse algumas coisas maldosas sobre mim. Mas não o culpo”.

Ouça o episódio do podcast Trivela sobre a suspensão de Blatter

Bola de Ouro para Benzema e prêmio de consolação a Messi

Blatter ainda encontrou tempo para criticar a quebra do acordo entre Fifa e France Football pela Bola de Ouro – em 2017 a Fifa voltou a ser seu próprio prêmio, “The Best”, e a France Football continuou fazendo a Bola de Ouro. Ele culpa Infantino por isso. Além disso, ele acha que a escolha foi injusta no prêmio da revista francesa. “Poderíamos ter dado a Messi um prêmio de consolação. Benzema merecia a Bola de Ouro”.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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