Blatter e Platini não vão convecer ninguém dizendo que são perseguidos e injustiçados
Depois de suspenderem preventivamente Joseph Blatter e Michel Platini, o comitê de ética da Fifa, um órgão independente, emitiu as sentenças finais: tanto o presidente da entidade mundial quanto o chefão da Uefa estão banidos de qualquer atividade relacionada com o futebol por oito anos. Um fim melancólico de carreira para Blatter e um gol quase mortal nas pretensões futuras de Platini, que era o favorito a suceder o suíço.
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Evidentemente, Blatter e Platini estão propensos a cair atirando. Exercem seus direitos inalienáveis de se defenderem até o fim do processo legal. O problema é que os argumentos que estão usando não são suficientes para convencer uma criança de 10 anos. Ambos adotaram a linha de que estão sendo perseguidos pelo comitê de ética da Fifa. Dois injustiçados.
Negam qualquer irregularidade em um pagamento de aproximadamente R$ 8 milhões feito por Blatter para Platini por, segundo o suíço, consultoria prestada pelo francês entre 1998 e 2002. A quantia, porém, foi depositada apenas em 2011, dias antes da eleição presidencial em que Blatter foi reeleito. Ele alega que a Fifa não tinha condições de desembolsar essa quantia na época e que havia firmado um “acordo oral de cavalheiros” com Platini.
O comitê não comprou essa história e não viu nenhuma base legal em um documento assinado pelos dois, em 1999. E como Blatter não conseguiu estabelecer nenhum outro tipo de lastro legal para o pagamento tão tardio – a lei suíça determinada um prazo máximo de cinco anos para esses casos -, o juiz alemão Hans-Joachim Eckart, líder do painel, determinou a sanção disciplinar de oito anos de afastamento do futebol.
Platini, mesmo com tanta vontade de se defender, não compareceu para apresentar seu caso ao comitê, na última sexta-feira, alegando que o painel já havia determinado a sua culpa antes mesmo do julgamento. “Foi uma decisão orquestrada para prejudicar minha reputação”, disse o francês em um comunicado. “Estou convencido que meu destino foi decidido antes da audiência de 18 de dezembro e que essa decisão é simplesmente uma manobra patética para esconder uma vontade genuína de me tirar do mundo do futebol”.
Blatter disse que o pagamento passou pelo comitê de finanças e pelo comitê executivo e que acreditava ter sido capaz de convencer o painel da sua inocência. “Eu sinto muito. Sinto muito que continuo sendo um saco de pancadas. Como presidente da Fifa, continuo sendo um saco de pancadas. Sinto muito pela Fifa. Sinto muito pelo futebol. Sinto muito por mim, por como estou sendo tratado neste mundo”, desabafou em uma entrevista coletiva, dada após a decisão.
O presidente suspenso da Fifa, que abriu mão do seu mandato alguns dias depois de ser eleito, quando começou a operação do FBI que já colocou vários dirigentes importantes e executivos de marketing atrás das grades, disse que continua sendo a autoridade máxima da entidade e citou Nelson Mandela. Mês passado, havia dito que “como bom cristão, tenho que dizer que o que o Comitê de Ética está fazendo comigo é como uma inquisição”.
“Isso não é justiça. Eu nomeei essas pessoas para o cargo que estão agora, no comitê de ética, e eles não tiveram a coragem de ouvir o secretário-geral (Jérôme Valcke, também suspenso), Platini ou eu. Esse comitê não tem o direito de contrariar o presidente da Fifa. Apenas o congresso pode remover o presidente”, reclamou. “O senhor Mandela falava de humanidade. A humanidade não precisa de outra coisa, apenas que os seres humanos sejam respeitados”. Encerrou a entrevista com uma promessa (quase uma ameaça): “Eu voltarei”.
Blatter e Platini confirmaram que vão apelar da decisão ao Tribunal Arbitral do Esporte e levarão suas teses de estarem sendo perseguidos, suas posições de injustiçados e as referências a Nelson Mandela e à inquisição espanhola para Lausanne. Resta saber se serão suficientes para vencer a apelação.



