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Entenda por que a Fifa estuda mudar sua sede da Suíça para os Estados Unidos

Ganhos comerciais, melhora da imagem e se livrar de velhos esqueletos: a Fifa quer deixar Zurique e procura sede nos Estados Unidos

A Fifa é uma das organizações que mais se beneficia de uma relação profunda com a Suíça. O país é sede da entidade desde 1932 quando ela se mudou de Paris para lá. Isso, porém, pode mudar. Segundo o NY Times, a Fifa considera transferir a sua sede para uma grande cidade dos Estados Unidos. A ação seria uma forma de aumentar a arrecadação comercial, assim como melhorar a sua imagem, muito abalada desde o escândalo Fifagate, em 2015. Naquele escândalo, os Estados Unidos tiveram um papel fundamental e explicamos aqui como isso aconteceu.

LEIA MAIS: Como começou o Fifagate, maior escândalo da história da Fifa

A Suíça é sede de muitos órgãos internacionais do esporte e não é por acaso. O governo suíço tem uma abordagem de pouca interferência, pouca regulação, pouca fiscalização e um regime fiscal bastante favorável a quem se estabelece no país. É uma espécie de paraíso fiscal no centro da Europa. Assim, muitas entidades do esporte decidem fazer suas sedes por lá.

A Uefa, por exemplo, fica em Nyon. Na mesma cidade, fica a sede da European Club Association (ECA), principal organismo de clubes europeus. A Federação Internacional de Motociclismo (FIM) reside em Mies, também na Suíça. A Federação Internacional de Basquete (FIBA), em Genebra. A Federação Internacional de Handebol (IHF), em Basel, e a Federação Internacional de Hóquei no Gelo, em Zurique, mesma cidade da Fifa.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) é sediado em Lausanne. A cidade, aliás, se autointitula o “Vale do Silício dos esportes”. É por lá também que ficam a Corte Arbitral do Esporte (CAS) e a Federação Internacional de Voleibol (FIVB). É também na cidade que ficam federações internacionais de beisebol, boxe, ginástica, canoagem, esgrima, remo, tiro ao arco, entre outras. Deu para entender o tamanho das vantagens oferecidas pelos suíços, certo?

Um lugar onde há menos fiscalização, em todos os sentidos, onde o governo exige menos transparência e em um país onde a própria natureza bancária é separada do resto da Europa, já que não é parte da União Europeia: tudo isso cria um ambiente favorável para quem quer estabelecer uma entidade e não ter muita fiscalização.

Uma organização que fez um movimento similar foi a Agência Mundial Anti-Doping (WADA), que faz a gestão de questões de doping no esporte. Em 1999, quando foi fundada, a entidade estabeleceu sede em Lausanne, mas se mudou para Montreal, no Canadá, em 2002. Lausanne se tornou o escritório regional da Europa da entidade.

Em busca de talentos

Segundo a reportagem do NY Times, a Fifa analisa a possibilidade, que inclui a adequação dos locais em ambas as costas do país. Duas das principais cidades dos Estados Unidos ficam nas duas costas: Nova York, na costa leste, e Los Angeles, na costa oeste. A sede da MLS, por exemplo, fica em Nova York. A Concacaf, por sua vez, fica em Miami, também no leste. Já a US Soccer, apelido da Federação Norte-Americana de Futebol (USSF), fica em Chicago, no estado de Illinois.

Algo importante para o estabelecimento da Fifa nos Estados Unidos é também a facilidade de conseguir vistos de trabalho para funcionários estrangeiros, assim como quais serão as regras de impostos – um ponto que a Fifa tem imensa benesse do governo suíço, que tem essa característica histórica. A Suíça exige que uma parte dos funcionários dessas entidades seja suíço, algo que a Fifa não deve ter nos Estados Unidos.

Isso é considerado importante pela Fifa porque a entidade tem dificuldades em atrair grandes talentos, executivos muito bem remunerados e com mercado para trabalhar na Suíça. Estar em um a grande cidade americana se tornaria mais atraente para esses profissionais, e a Fifa considera que pode atraí-los com mais facilidade – e mantê-los, claro, porque uma vez contratados, alguns executivos deixam a Fifa para posições mais lucrativas no mercado. A ideia é que a Fifa seja um desses lugares.

Blatter foi alvo de protesto de comediante em 2015 (Getty Images / OneFootball)

Mudança de imagem

Um ponto fundamental para a mudança é que a Fifa quer se livrar da imagem que a entidade tem historicamente, piorada de forma grave pelo Fifagate. Desde que assumiu a presidência da Fifa, em 2016, Gianni Infantino, sucessor do criticado Joseph Blatter, tem buscado alguns elementos para limpar a imagem da entidade. Esta mudança para os Estados Unidos seria parte desse esforço, em meio a muitas vantagens que viriam junto.

O Fifagate explodiu em Zurique. Foi lá, no dia 27 de maio, que diversos dirigentes da Fifa foram presos, entre eles José Maria Marin, que acabou condenado em uma corte americana. Na época, fizemos um podcast especial sobre o assunto que vale a pena ouvir para se interar do que aconteceu. Então, em certo aspecto, Zurique está marcada na história da Fifa como um local onde a entidade teve exposta a sua cara mais corrupta, feia e criminosa. É também disso que a Fifa quer se livrar. O local traz diversos problemas e este é um deles.

Esse movimento rumo aos Estados Unidos seria impensável há alguns anos. Joseph Blatter sequer pisa nos Estados Unidos desde 2015, quando o Fifagate explodiu, com medo de ser preso pela Justiça do país. Se mudar para o território americano significa se estabelecer também sob as leis do país, o que seria visto como uma forma de mostrar ao Departamento de Justiça americano que a entidade está disposta a passar pelo escrutínio público, seja das leis, seja do fisco americano. Afinal, toda a operação financeira estaria sujeita às regras americanas, muito mais rígidas do que a leniente Suíça.

Há outro fator. A administração de Infantino ficou insatisfeita com a incapacidade dos investigadores suíços em conseguir acusar e punir os dirigentes envolvidos em escândalos, muitos deles derivados do Fifagate. Michael Lauber, ex-procurador suíço, deixou o seu cargo depois que se soube que ele teve diversas reuniões secretas com Infantino. Segundo cita o NY Times, havia uma insatisfação dentro da Fifa que os processos não andaram, não foram colhidas provas o bastante e pouco acabou sendo feito. Basicamente, os processos não deram em nada. Pior ainda: houve uma acusação contra Gianni Infantino, o que, dentro da Fifa, foi lido como uma represália pela cobrança do dirigente em relação às autoridades suíças.

Escritório em Paris e se livrar da velha Fifa

A sede da Fifa, em Zurique (Getty Images / OneFootball)

A Fifa foi criada em Paris em 1904, mas se mudou para Zurique, na Suíça, em 1932. A ideia, na época, era porque a Suíça fica no centro da Europa, tem uma neutralidade política e era “acessível via trem”, segundo a própria entidade. A mudança aconteceu na gestão de Jules Rimet, que foi presidente da Fifa de 1921 a 1954, em um período crucial para a entidade – quando surgiu a Copa do Mundo e a Fifa se transformou no que seria hoje.

A atual sede da Fifa em Zurique, conhecida como Fifa House, custou mais de US$ 200 milhões e tem diversos níveis subterrâneos e cheio de luxo, com pisos de mármore, e salas à prova de som onde são realizadas as reuniões. Há uma sensação que essa é a Fifa que tem que ser deixada para trás: uma entidade obscura em seus procedimentos, finanças e operação, que fica em uma luxuosa sede onde ninguém sabe o que acontece. Seria uma forma de se livrar dos esqueletos dos antecessores.

Stanley Rous, britânico, foi presidente da Fifa de 1961 a 1974 e era visto como um dirigente que só olhava para a Europa. João Havelange, seu sucessor a partir de 1974, expandiu a Fifa como nunca antes, levando capacidade de voto a todos os países do mundo e se beneficiando disso. A política de Havelange foi seguida pelo seu secretário-geral, Joseph Blatter, que dirigiu a entidade de 1998 a 2015.

Em parte, Infantino fez uso dessa forma de governo de Havelange e Blatter para expandir a Copa do Mundo de 32 para 48 participantes, algo que acontecerá a partir da Copa 2026. Também tenta usar essa idade, de um país ter um voto, para mudar a frequência da Copa de quatro para dois anos. Este, porém, é um caso mais complicado, que já tem oposição da Uefa, da Conmebol e das ligas de clubes europeus, o que deve dificultar o processo.

Infantino, porém, sabe que precisa se livrar de boa parte do que a Fifa fazia. Foi um dos defensores de se usar o VAR, acelerou os processos e colocou em prática na Copa do Mundo de 2018, dando mais celeridade a um processo que já tinha sido começado em 2010, mas que Blatter parecia postergar.

Até por isso, a Fifa criou um escritório em Paris, onde ficava a sua primeira sede. Foi uma forma de, primeiro, atrair os profissionais a trabalhar pela Fifa, mas principalmente para criar uma relação melhor com os países africanos, por exemplo. A França é uma conexão importante com os países do continente africano, até por seu histórico colonial. Grande parte da África ainda é um território de influência francesa. Com o escritório em Paris, a Fifa conseguiu estabelecer uma conexão melhor com seus membros. O escritório de Paris é justamente onde ficam os funcionários mais envolvidos com relacionamento com os membros e de projetos de desenvolvimento do futebol.

Gianni Infantino e Fatma Samoura, sua secretária-geral (Getty Images / OneFootball)

Ganhos comerciais potenciais

Um ponto muito importante para a mudança é o aspecto comercial. Seria uma chance de melhorar a operação comercial da Fifa nos Estados Unidos, um país fundamental para diversos aspectos nesse sentido da Fifa. O país tem sido o que mais manda torcedores para a Copa do Mundo, além dos direitos de transmissão do torneio no país serem os mais caros do mundo.

A Fifa tem parceiros comerciais baseados no país e a mudança para território americano tornaria mais fácil atrair essas empresas para uma entidade que opera mais à luz de fiscalização, e menos na sombra suíça, mais propícia a corrupção e escândalos que nenhuma marca quer estar associada, ainda mais pelo histórico da Fifa.

Estar perto de Wall Street e de grandes empresas americanas seria um passo importante para a Fifa, que sabe que terá que jogar pelas regras americanas se quiser ter esses parceiros. Isso poderia aumentar significativamente as receitas da Fifa. E mais receitas significa mais dinheiro a distribuir às federações. Embora isso normalmente gere desconfianças por corrupção, a função da Fifa é mesmo essa: fomentar o esporte e financiar projetos das suas associações nacionais que caminhem nesse sentido.

Mais do que dar o dinheiro, é guiar e fiscalizar, e esses são aspectos em que a entidade falha. Nos Estados Unidos, teria que operar de forma diferente, mais clara, e também mais capaz de punir quem embolsar a grana. Até porque a lei americana permite que a Justiça do país aja sempre que o dinheiro passe pelo sistema bancário americano, seja por bancos do país, ou localizados nele. Com a Fifa localizada lá, basicamente qualquer operação da entidade estaria sujeita à Justiça americana. Isso pode inibir um pouco os atos de corrupção.

Estar nos Estados Unidos, por si, não impede tudo, como vimos na Concacaf. A entidade, sediada em Miami, teve diversos dirigentes condenados por associação criminosa, conspiração e até lavagem de dinheiro. Mas isso só foi possível porque eles fizeram isso passando pelo sistema bancário americano, em uma investigação que durou alguns anos e foi tão robusta que fez com que diversos pesos pesados caíssem, incluindo o próprio Blatter.

Curiosamente, a saída da Suíça pode acontecer sob a gestão de um suíço. Gianni Infantino é nascido na Suíça, embora sua família seja da Itália. A mudança ainda beneficiaria a Fifa para supervisionar melhor a Copa 2026, a primeira que será inteiramente gerida pela Fifa, que acabou com a figura do Comitê Organizador Local, tão problemático em várias Copas seguidas, de 2006 a 2022 – que nem aconteceu ainda. Assim, a entidade quer manter as coisas mais sob o seu controle. E estando nos Estados Unidos, as coisas tendem a ter um pouco mais de transparência do que na Suíça. Resta saber quando isso vai acontecer, já que parece um movimento provável.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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