Mundial de Clubes

Do inferno ao céu: em 24 anos, Fluminense vai da Série C à estreia no Mundial de Clubes

Fluminense passa por anos de escuridão antes de se reencontrar com sua grandeza e enfileirar títulos com geração que se acostumou às grandes conquistas

No mesmo 18 de dezembro, só que em 1999, o jornal O Globo estampava em suas páginas a seguinte manchete: ‘Defesa erra de novo e Flu empata'. O pior, entretanto, vinha na linha fina: ‘Tricolor empata com Serra (2 a 2) e está em terceiro lugar no quadrangular final da Série C‘. Aquele seria o último jogo do clube antes do acesso. Com as vitórias sobre São Raimundo e Náutico, a equipe comandada por Carlos Alberto Parreira subiu o primeiro degrau para sair do fundo do poço. Exatos 24 anos depois, o Fluminense está na semifinal do Mundial de Clubes após ser campeão da Libertadores.

O técnico Fernando Diniz não gosta de clichês e estereótipos no futebol. Valoriza as pessoas — e não acredita que exista um céu e um inferno no esporte. Sua filosofia é excelente, mas só os tricolores que viveram os títulos da Série C em 1999 e da Libertadores 2023 sabem o tamanho da diferença.

Se antes brigava pela sua sobrevivência, o Tricolor agora luta por uma conquista que seria a maior de sua história e coroaria um ano inesquecível. Bem diferente do que aconteceu 24 anos antes.

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Exatos 24 anos atrás, Fluminense empatava com o Serra na Série C. Agora, disputa a semifinal do Mundial de Clubes - Foto: Reprodução/Acervo O Globo
Exatos 24 anos atrás, Fluminense empatava com o Serra na Série C. Agora, disputa a semifinal do Mundial de Clubes – Foto: Reprodução/Acervo O Globo

Neste 18 de dezembro de 2023, o Fluminense entra em campo para enfrentar o Al Ahly, do Egito, pela semifinal do Mundial de Clubes.

Fluminense
18/12/23 - 15:00

Finalizado

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Al Ahly Cairo

Fluminense - Al Ahly Cairo

FIFA Club Copa do Mundo - King Abdullah Sports City

2° Turno

O jogo no King Abdullah Stadium, a Joia da Coroa, é a estreia do Tricolor após a competição passar a ser organizada pela Fifa. Em 1952, o Flu conquistou um título que pleiteia como igual — com uma força política que não possuia há tempos. Sinal de que as coisas mudaram muito nas Laranjeiras nessa volta por cima.

O nome da retomada: ídolo, Parreira é homenageado no Fluminense

Naturalmente com problemas financeiros, o Fluminense de 1999 não era um time de grandes nomes. Dali, dois jogadores viraram ídolos do clube: Roger e Magno Alves. Roni, um xodó da época, acabou tendo carreira irregular e não se eternizou embora ainda seja bastante lembrado, assim como Paulo César, que de criticado quando jovem virou jogador de Seleção e por pouco não foi à Copa do Mundo em 2002.

Tricolor de coração, Parreira negou propostas e, campeão da Copa de 1994, voltou ao Fluminense para salvar clube da Série C - Foto: Reprodução/Twitter
Tricolor de coração, Parreira negou propostas e, campeão da Copa de 1994, voltou ao Fluminense para salvar clube da Série C – Foto: Reprodução/Twitter

O maior símbolo da retomada é um grande tricolor: Carlos Alberto Parreira. Então campeão da Copa do Mundo de 1994 pela Seleção, que conquistou o sonhado tetra após 24 anos, o treinador voltou ao clube do seu coração e onde começou sua carreira em um momento de enorme dificuldade.

Trouxe com ele a comissão técnica campeã do mundo, com o gerente Américo Faria e o preparador físico Moracy Sant'anna. Venceu a Série C e acabou demitido em 2000 em meio a uma pressão por resultados, embora o então presidente, David Fischel, fosse contrário à mudança.

Em 2022, Parreira foi homenageado e passou a dar nome ao campo 3 do CT Carlos Castilho. Emocionado, ficou em prantos com a homenagem em vida.

— Confesso que estou surpreso e emocionado com essa surpresa que o presidente me proporcionou. Não esperava nunca que isso fosse acontecer e fico eternamente agradecido ao Fluminense, porque aqui vivi grande parte da minha carreira. Aqui eu fui muito bem-sucedido. A base surgiu aqui, tudo de bom no campo profissional, o sentimento de vitória… pertencer a um clube com tanta história e tradição é um orgulho que eu carrego para o resto da vida. E ser lembrado neste momento é muito gratificante. Muito obrigado pela lembrança — disse Parreira.

O presidente Mario Bittencourt com Carlos Alberto Parreira, emocionado com a homenagem do Fluminense no CT Carlos Castilho - Foto: Marcelo Gonçalves/FFC
O presidente Mario Bittencourt com Carlos Alberto Parreira, emocionado com a homenagem do Fluminense no CT Carlos Castilho – Foto: Marcelo Gonçalves/FFC

O ex-técnico certamente engrossará a lista de torcedores do Fluminense contra o Al Ahly na Arábia Saudita, país em que morou e trabalhou duas vezes no comando da seleção local. Em 1998, classificou os sauditas para a Copa do Mundo da França.

Geração de tricolores acostuma-se com títulos de expressão do Fluminense

Após viverem o que houve de pior na história do clube, a geração de 1999 e outras posteriores se acostumaram com grandes conquistas. O torcedor tricolor, desde então, só não conquistou o Mundial de Clubes. E terá duas chances para isso em 2023 e 2025.

Título da Libertadores coroou geração vencedora do Fluminense após piores anos da história do clube - Foto: Icon sport
Título da Libertadores coroou geração vencedora do Fluminense após piores anos da história do clube – Foto: Icon sport

Fernando Diniz fez parte disso como jogador, ao vencer o Campeonato Carioca de 2002, o primeiro título após a volta para a elite do futebol brasileiro, em 2000, e também como técnico. É o comandante da equipe que levantou uma taça que era obsessão nas Laranjeiras: a Libertadores da América.

Um duro vice em 2008 fez da conquista em 2023 ainda mais comemorada pelos tricolores. Agora, os torcedores podem dizer que realmente foram do inferno ao céu. Uma epopeia sem precedentes no futebol brasileiro.

No mesmo ano, Manchester City também jogou terceira divisão

Em 1998-99, o Manchester City, já tradicional na Inglaterra, também amargava a pior de suas fases. O lado azul de Manchester não só acompanhava seu clube na terceira divisão como via o arquirrival, United, conquistar a tríplice coroa: Champions League, Premier League e Copa da Inglaterra. No fim da temporada, ainda faturou o Mundial de Clubes sobre o Palmeiras.

O contraste entre o pior momento dos Citizens e talvez o grande time da história dos Red Devils foi apenas a cereja do bolo. O City ainda sofreria mais uma queda à segunda divisão, até ser comprado em 2007 por um fundo de investimentos de Abu Dhabi, iniciando, então, a fase mais vencedora desde sua fundação.

De lá para cá, o Manchester City conquistou sete edições da Premier League, três Copas da Inglaterra, seis Copas da Liga Inglesa e três Supercopas da Inglaterra. Em 2023, venceram a Champions League e a Supercopa da Europa, os primeiros títulos continentais do clube. Trajetórias parecidas apesar das diferenças abissais nas finanças.

Fluminense faz mais um jogo mais importante de sua história

No CT Carlos Castilho, todo dia já foi 4 de novembro, dia da decisão da Libertadores, e hoje, é 22 de dezembro, data da final do Mundial de Clubes. Para chegar lá, entretanto, o Fluminense terá pela dfrente um dos jogos mais importantes de sua história.

A partida contra o Al Ahly já é histórica. Se vencer, o Tricolor disputará a grande final do Mundial. Mas a cabeça de todos, garante Fernando Diniz, está no agora.

— Não foi algo que aconteceu na casualidade, foi muito trabalho. Não é porque você trabalha muito que você vai ganhar, mas trabalhar muito e sonhar todos os dias que é possível te aproxima das conquistas e foi o que nos trouxe até aqui. Continuamos trabalhando muito, sem parar e sonhando também. Vamos procurar fazer o nosso melhor na semifinal, vamos colher um resultado e diante disso vamos nos preparar para o segundo jogo — apontou o treinador.

Para o jogo, o Flu terá a mesma escalação que começou a partida na final da Libertadores: Fábio, Samuel Xavier, Nino, Felipe Melo e Marcelo; André, Martinelli e Ganso; Keno, Arias e Cano. O técnico é Fernando Diniz.

Foto de Caio Blois

Caio Blois

Caio Blois nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e se formou em Jornalismo na UFRJ em 2017. É pós-graduado em Comunicação e cursa mestrado em Gestão do Desporto na Universidade de Lisboa. Antes de escrever para Trivela, passou por O Globo, UOL, O Estado de S. Paulo, GE, ESPN Brasil e TNT Sports.
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