Leste Europeu

Dois lados da mesma história, CS Universitatea Craiova e FC U Craiova se enfrentaram pela primeira vez na elite romena

O clássico entre os dois clubes que reivindicam o mesmo passado tinha ocorrido apenas na segundona do Campeonato Romeno

A cidade de Craiova experimentou, pela primeira vez, um aguardado clássico de elite entre dois clubes que disputam a mesma história. CS Universitatea Craiova e FC U Craiova 1948 são basicamente dois lados da mesma moeda. As duas equipes possuem seus argumentos para se considerarem cada uma “a verdadeira herdeira” do Universitatea Craiova, um dos clubes mais tradicionais do futebol romeno. Na última temporada, o FC U Craiova 1948 conquistou o acesso à primeira divisão e o duelo aconteceria de maneira inédita na elite nacional. Mais competitivo nos últimos anos, porém, o CS Universitatea Craiova mostrou quem manda na cidade e ganhou por 2 a 0 o duelo, com mando dos rivais.

A história da rivalidade na cidade é contada pelo ótimo documentário “Craiova versus Craiova”, do jornalista João Vítor Roberge – disponível na íntegra no YouTube. Para resumir a história, que Roberge contou aqui na Trivela em 2015: fundada em 1948, a Universitatea Craiova “original” conquistou quatro títulos do Campeonato Romeno e seis da Copa da Romênia. A partir de 1991, o fim do regime comunista no país levou à privatização das equipes de futebol antes pertencentes a organismos estatais. Neste momento, o departamento de futebol do Clubul Sportiv (CS) Universitatea Craiova virou o Fotbal Club (FC) Universitatea Craiova. Já em 2011, uma pendência judicial levou à extinção do FC Universitatea Craiova. E no intuito de resgatar o clube, dois times diferentes surgiram, em meio a uma disputa também política nos bastidores de Craiova.

O novo CS Universitatea Craiova era apoiado pela prefeitura da cidade e terminou abraçado também por antigos ídolos, além de preservar o antigo estádio. Já o FC Universitatea Craiova pertencia ao antigo dono da agremiação extinta, mas carregava consigo problemas financeiros e não tinha uma sede fixa. Parte dos torcedores, no entanto, não concordavam com a manobra política do CSU e questionavam a legitimidade reivindicada pelo time. Dois lados distintos brigavam pelo mesmo passado.

Em 2013/14, os dois U Craiova figuraram na segunda divisão do Campeonato Romeno. Os dois duelos se encerraram com empates por 0 a 0, mas os destinos das equipes foram opostos. Enquanto o CSU conquistou o acesso, o FCU terminou rebaixado e fechou as portas. Com investimento da prefeitura e uma estrutura de primeiro nível, incluindo o recém-inaugurado Estádio Ion Oblemenco, o CSU se manteve na primeira divisão do Campeonato Romeno nas últimas oito temporadas. Chegou a ser vice-campeão em 2019/20, além de conquistar duas edições da Copa da Romênia, em 2018 e 2021. São quatro aparições nas preliminares da Liga Europa e uma da Conference desde então. Porém, nos últimos anos, o CS Universitatea Craiova deixou de estar sozinho na cidade.

O ressurgimento do FCU aconteceu em 2017, rebatizado como FC U Craiova 1948, sob as mãos do antigo proprietário e com apoio de parte da torcida. O clube precisou recomeçar na quarta divisão do Campeonato Romeno, mas conquistou três acessos em apenas quatro temporadas. Em 2020/21, o FCU assegurou a promoção na segundona e reapareceu na elite (conforme sua linha do tempo) pela primeira vez desde 2010/11. Ganhava também o direito de desafiar o CS Universitatea Craiova pela hegemonia na cidade.

A grande figura no FC U Craiova 1948 está no banco de reservas: Adrian Mutu, que assumiu o comando da equipe em maio. Já o CS Universitatea Craiova reúne alguns jogadores com histórico na seleção romena, incluindo o lateral Nicusor Bancu e o ponta Andrei Ivan, convocados para a próxima Data Fifa. E essa superioridade do CSU se provou em campo, com a vitória por 2 a 0 no Ion Oblemenco.

Como era de se esperar, o duelo seria cercado de provocações. Ultras de ambos os lados fizeram caminhadas nas ruas da cidade. No estádio, os dois times se apresentaram com uniformes parecidos e houve um impasse, embora o CSU tenha usado um uniforme preto com detalhes azuis confundível com o azul do FCU. Nos alto-falantes, o FCU anunciou a escalação dos rivais apenas por números, se recusando a falar os nomes dos jogadores, e mencionou apenas as iniciais do técnico. Além disso, os ultras do FCU não compareceram entre os 10 mil presentes nas arquibancadas, por discordarem da obrigatoriedade da vacina determinada pela prefeitura.

O primeiro tempo seria inclusive interrompido por sinalizadores atirados em campo pela torcida do CS Universitatea Craiova, visitante na tarde. De qualquer maneira, o time deu conta do recado contra os recém-promovidos. Dan Nistor abriu o placar num chute de fora da área no início do segundo tempo, enquanto o garoto Stefan Baiaram ampliou no final, após uma bola enfiada pelo próprio Nistor. O FC U Craiova 1948 terminou o dérbi com um jogador a menos, depois que Andrea Compagno deixou o braço numa disputa pelo alto com o goleiro rival.

O CS Universitatea Craiova também aparece em situação melhor na tabela. A equipe ocupa a quinta colocação, com 19 pontos, 11 a menos que o líder Cluj. O FC U Craiova 1948, por sua vez, aparece num modesto 13° lugar. O time de Adrian Mutu conquistou nove pontos e apenas duas vitórias neste recomeço na primeira divisão. O desafio agora é se sustentar na elite para tentar desafiar mais vezes o CSU pela hegemonia na cidade. E o mais curioso é que esse tipo de clássico pode não ser o único no Campeonato Romeno, com a chance do Steaua Bucareste enfrentar o FCSB na próxima edição da elite, ambos também representando dois lados da mesma identidade. Histórias que se repetem no leste da Europa, como também presente em CSKA Sofia e CSKA-1948 do Campeonato Búlgaro.

* Fica o agradecimento ao amigo João Vítor Roberge, por recomendar a pauta durante a semana. Valeu!

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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