Leste Europeu

A crise na Ucrânia ajuda a explicar o fim do jejum de seis anos do Dynamo Kiev

O Dynamo Kiev atravessou cinco temporadas tenebrosas desde 2009. A eliminação para o Shakhtar Donetsk na semifinal da Copa da Uefa marcou o início da desgraça dos maiores campeões ucranianos. Desde então, o clube só havia conquistado uma vez a Copa da Ucrânia, em 2014, enquanto via os rivais desfrutando seus maiores sucessos, pentacampeões nacionais. Um calvário que teve fim no último domingo. A vitória por 1 a 0 sobre o Dnipro deu o 27º título nacional ao Dynamo, o 14º desde o fim da União Soviética. Conquista que diz muito sobre a recuperação dos alviazuis, mas também reflete o conflito civil que estourou no país a partir de 2014.

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Obviamente, o Dynamo possui grandes méritos pela conquista. A equipe reencontrou seus rumos sob o comando de Serhiy Rebrov, ex-atacante idolatrado pela torcida que assumiu o time a partir de abril de 2014. O novo técnico não só conquistou a Copa da Ucrânia de 2014, encerrando o jejum de títulos, como também pôs ordem em um elenco de altos investimentos que não vinha dando resultados. Estrelado por Yarmolenko, Kravets, Lens e Belhanda, o Dynamo decolou. Segue invicto na campanha após 24 rodadas, somando 19 vitórias. Dentro de campo, o grande segredo foi a defesa liderada por Dragovic e Shovkovsky, que sofreu apenas dez gols em todo o campeonato.

Contudo, os desdobramentos da crise na Ucrânia também tiveram sua influência dentro de campo. Enquanto alguns jogadores importantes deixaram o país (incluindo nomes do próprio Dynamo, como o artilheiro Brown Ideye), as contratações de atletas do exterior se tornaram muito mais raras. Os reforços giraram quase sempre entre os próprios clubes ucranianos. Como os do Shakhtar Donetsk, que, acostumado em comprar brasileiros para o setor ofensivo, teve que se contentar em tirar Marlos e Márcio Azevedo do Metalist Kharkiv. Não foi o suficiente para um elenco que já vinha sofrendo com as seguidas transferências, ainda que não tenha perdido nenhum astro na atual temporada.

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Além do mercado, o impacto nos próprios jogos foi evidente. Por causa do clima tenso no leste do país, os clubes da região foram obrigados a mandar suas partidas em outras regiões, assim como passaram a treinar longe de suas estruturas. O Shakhtar, que teve o seu estádio bombardeado por rebeldes, disputou os seus jogos na Arena Lviv. Da mesma maneira, Zorya Luhansk, Illichivets Mariupol, Metalurh Donetsk e Olimpik Donetsk não atuaram em suas casas tradicionais. Algo que teve impacto direto sobre o desempenho, especialmente do Shakhtar, em uma atmosfera longe de ser tranquila para se preparar.

A média de público do gigante de Donetsk, que chegou a bater 41 mil torcedores em 2012/13, caiu para 9,3 mil nesta temporada. E o próprio aproveitamento como mandante entrou em declínio. O time de Mircea Lucescu teve aproveitamento de 80,5% dos pontos disputados em casa na campanha, tropeçando em duas de suas primeiras seis partidas em Lviv. O desempenho é muito bom, mas está abaixo do que o Shakhtar estava acostumado na Donbass Arena. Durante o pentacampeonato entre 2010 e 2014, perdeu apenas três dos 74 jogos em seu estádio, com aproveitamento geral de 90,2% dos pontos. Queda que teve seu preço.

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Além disso, as outras forças do país foram menos competitivas do que nas temporadas anteriores. Voltado à campanha até a decisão da Liga Europa, o Dnipro deixou de lado a liga nacional durante as últimas rodadas, sofrendo duas derrotas que o tiraram do páreo. Já o Metalist teve um desempenho muito abaixo do que estava acostumado e, na sexta posição, sequer tem chances de se classificar às ligas europeias.

Ainda é incerto o futuro do Campeonato Ucraniano, tanto sobre o retorno às cidades do leste quanto às possibilidades de mercado. O Dynamo Kiev também terá um desafio a mais ao precisar se dividir com a fase de grupos da Liga dos Campeões, já que nesta temporada precisou se preocupar apenas com a Liga Europa, na qual caiu para a Fiorentina nas quartas de final. Enquanto isso, desfruta seu reinado em uma Ucrânia ainda dividida pela revolta dos separatistas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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