Serie A

Fim do silêncio: Maldini enfim fala sobre o fim da passagem como diretor e rusgas com donos do Milan

Diretor técnico do Milan entre agosto de 2018 a junho de 2023, Paolo Maldini admitiu conflitos com os proprietários do clube e não poupou críticas

Quase seis meses depois, Paolo Maldini enfim falou sobre sua saída da diretoria do Milan. O ex-defensor foi diretor técnico de agosto de 2018 a junho de 2023 e foi essencial para o clube deixar para trás o período de vacas magras da década passada, retornando à Champions depois de sete anos, chegando em uma semifinal do torneio após 16 e ainda conquistando a Serie A 2021/22, encerrando um jejum de 11 temporadas sem um Scudetto. Apesar do bom trabalho, o ídolo rossonero foi demitido sob especulações de conflitos com a Red Bird, proprietária do Milan. Agora, resolveu abrir o jogo e detalhar o que realmente aconteceu ao jornal La Repubblica.

Maldini confirmou que se desentendeu com Gerry Cardinale, dono do fundo de investimentos norte-americano que controla o gigante italiano desde junho do ano passado, em relação ao planejamento para a atual temporada, mas afirmou que a saída dele e do diretor esportivo Frederic Massara era desejada pelos novos proprietários antes disso. O ex-jogador ainda criticou o chefe executivo Giorgio Furlani, o presidente Paolo Scaroni e opinou sobre a pouca confiança dada ao técnico Stefano Pioli e os jovens jogadores, especialmente aqueles contratados e que duraram pouco tempo em Milanello.

Relação com a Red Bird e demissão

Como não podia ser diferente, as respostas iniciais de Paolo Maldini foram sobre a Red Bird, que adquiriu o Milan por €1,2 bilhão de euros (cerca de 6 bilhões na cotação da época) no meio do ano passado. Na época, o clube havia recém-conquistado a Serie A em uma temporada que as expectativas não eram de título.

— Se o clube é vendido por €1,2 bilhão e os novos donos querem mudar, é um direito. Mas se respeitam pessoas e funções. Tive de chegar a um acordo por meus direitos. O amor pelo Milan segue incondicional. Como filho de Cesare, pai de Christian e Daniel. Como dirigente em cinco anos fantásticos — disse o ex-defensor.

— Não falei antes (sobre a saída) porque falaria com o estômago, o tempo dá serenidade. Há pessoas de passagem, sem respeito à identidade e história do Milan, enquanto outras são ligadas aos seus ideais. Essas deveriam ser mantidas — completou.

Maldini também falou mais especificamente sobre sua relação com Gerry Cardinale, que esteve na derradeira reunião de planejamento em junho deste ano e que foi a gota d'água na relação entre o diretor técnico e a Red Bird. O ídolo rossonero afirmou que a decisão de lhe demitir já havia sido tomada, mas a conquista do Scudetto atrasou os planos norte-americanos.

— Com Gerry Cardinale, em um ano, só uma conversa e mais quatro mensagens. Dizia que tínhamos de confiar um no outro. Eu o fiz, sabemos como acabou. Creio que a decisão de me demitir foi tomada meses antes e havia quem soubesse. O contrato, de dois anos com opção de renovação, foi feito dia 30 de junho de 2022, às 22 horas (último dia de seu contrato anterior com o Milan). Seria muito impopular nos mandar embora depois do Scudetto — declarou.

Enquanto esteve na diretoria do Milan, o ex-jogador teve grande influência no planejamento interno e na montagem do elenco. Segundo ele, o primeiro pedido de Cardinale ao assumir o controle do clube foi “só” ganhar a Champions League. Maldini, que foi finalista oito vezes e foi vencedor de cinco edições do torneio, montou junto com Frederic Massara um plano esportivo de três anos para que isso fosse possível, mas ambos foram demitidos antes mesmo que ele fosse colocado em prática.

— Cardinale pedia que ganhássemos a Champions. Expliquei que precisávamos de um plano de três anos. Entre outubro e fevereiro o preparamos com Massara e um amigo consultor: 35 páginas de estratégia sustentável e necessidade de um salto de qualidade. Mandei a Gerry, dois colaboradores próximos e ao diretor Furlani — detalhou.

— Cardinale disse a mim e a Massara que estávamos demitidos. Perguntei o motivo e ele me falou de más relações com o diretor Furlani. Então rebati: “Já te liguei para reclamar dele? Jamais”. Então, ele fez uma piada sobre a semifinal perdida com a Inter, mas as explicações me pareciam um pouco fracas. Os objetivos da temporada imaginavam eliminação na Champions, uma fase superada na Liga Europa e vaga na Champions seguinte. Com aquela semifinal (perdida para a grande rival Internazionale), faturamos €70 milhões a mais e batemos recordes de patrocínios e bilheteria — complementou.

Desavenças sobre o planejamento e falta de apoio aos jovens

O plano de Maldini e Massara para o Milan voltar a conquistar a Champions League incluía investimentos maiores e uma atitude mais agressiva no mercado em busca de jogadores renomados, além do aumento da folha salarial para o plantel. Apesar do pedido para vencer o torneio de clubes mais importante da Europa em pouco tempo, a Red Bird ofereceu um orçamento reduzido e que direcionava o dinheiro a apostas futuras que pudessem se valorizar nos rossoneri e gerar lucro com revendas.

— Em março ainda não tinham falado em orçamento (para a temporada 2023/24), e não se pode esperar junho para programar o mercado. Quatro dias antes da demissão, Furlani envergonhado me passou um orçamento baixo. Depois da nossa saída, ele foi dobrado com a venda de Tonali (de €70 milhões para o Newcastle), e a folha salarial finalmente alinhada com nosso plano. Deve ter sido fonte de inspiração — alfinetou.

— Você não precisa se um algoritmo para comprar Loftus-Cheek, Pulisic e Chukwueze: basta usar o dinheiro que merece um clube que finalmente fatura €400 milhões. Não se podem comparar os quatro mercados passados com esse último, tínhamos outras armas. Sustentabilidade? Com Boban e Massara foi estimulante cortar 30% dos salários, renovar o elenco e aumentar seu valor com Scudetto e três anos na Champions após sete anos fora — continuou Maldini.

Apesar da venda de Tonali ter ajudado a colocar o plano de Maldini e Massara em prática, mesmo com ambos fora do Milan, negociar o meio-campista da seleção italiana nunca foi um objetivo. Ela, no entanto, foi necessária e rendeu bons reforços para diferentes setores da equipe de Pioli. Maldini ainda comentou sobre o envolvimento do jogador de 23 anos com apostas esportivas, caso que considera uma derrota pessoal.

— Tonali? Fizemos o possível para não deixá-lo ir. Nunca fomos contra uma venda importante, mas não era necessária. Por Sandro gastamos um quinto do valor de domínio público e tivemos de discutir exaustivamente com CEO e donos: nem a área de scouting queria. O caso de apostas é uma derrota: não me dei conta de seus problemas. Nunca se faz o suficiente pelos jovens. Compras e vendas são uma parte pequena do trabalho. O verdadeiro, com Leão, Theo, Bennacer, Maignan, Kalulu, Thiaw, Tomori e muitos outros, foi apoiar seus desenvolvimentos — relatou o ex-diretor.

Maldini ainda falou mais sobre o apoio aos jovens jogadores. Durante a maior parte de seu período na diretoria, a ideia do Milan no mercado era justamente se reestruturar com atletas de potencial e que pudessem crescer com os rossoneri e, se necessário, render caixa. Foram 35 contratações nas cinco temporadas em que esteve nos bastidores, com muitas delas dando retorno esportivo — praticamente todo o time campeão italiano em 2022 e semifinalista da Champions em 2023 foi montado com contratações desse perfil.

Inicialmente, no entanto, alguns não renderam o que rendem atualmente. Maldini revelou que Rafael Leão, Ismaël Bennacer e Theo Hernández foram três dos muitos garotos criticados e que rapidamente foram tratados como insuficientes. Para sorte do Milan, eles seguiram no clube e se tornaram pilares do time.

— De 35 contratações contestam De Ketelaere, que tinha 21 anos. Se você quer jogadores dessa idade, o percentual de insucesso é maior. Tem de esperá-los, ajudá-los, mimá-los, recuperá-los. Com três meses de trabalho, Boban, Massara e eu fomos chamados a Londres pelos donos e praticamente deslegitimados: Leão, Bennacer e Theo não agradavam. Mas nos servia um percurso. Eu me lembro sempre de onde partimos — destacou.

Maldini também criticou Paolo Scaroni, presidente do Milan desde 2018. Citando também Furlani e Ivan Gazidis, diretor de 2018 até o fim de 2022, ele afirmou que o mandatário não encoraja o elenco rossonero e aparece apenas nos momentos de glória.

— Presidente Scaroni? O Milan merece um presidente que cuide apenas dos interesses do clube e não deixem o time sozinho. Ele nunca me perguntou se cabia encorajamento a jogadores e grupo de trabalho. Já o vi ir embora quando os adversários empatavam ou passavam à frente, talvez para não pegar trânsito, mas chegar pontualíssimo à fila para o Scudetto. Tenho um conceito diferente de grupo. Posso dizer o mesmo sobre os dois CEOs, Gazidis e Furlani — bradou.

Conflitos sobre novo estádio e futuro como dirigente

Além do orçamento e planejamento para a temporada 2023/24, a construção do novo estádio do Milan também foi motivo para conflito com a Red Bird. Após o abandono dos planos de erguer uma nova arena moderna com a rival Internazionale no mesmo local do San Siro, Paolo Maldini e os proprietários não se entenderam quanto a capacidade da nova casa.

— O estádio foi motivo de confronto. Não podia botar minha cara num projeto de 55 a 60 mil lugares, quase todos corporativos. Queria um maior e com parte dos lugares populares. Considerando nossa média de mais de 70 mil em San Siro, eu tinha razão — pontuou.

Por fim, Maldini falou sobre o seu futuro. O ídolo já afirmou em outras ocasiões que não deseja ser técnico, mas dessa vez revelou que se imagina como dirigente em algum clube de outro país — quem sabe até na Arábia Saudita.

— Futuro como dirigente? Nunca em outro time italiano, eventualmente um estrangeiro de alto nível. Gosto de vencer e construir. Arábia? Quem sabe, poderia ser uma ideia — concluiu.

Entrevista de Maldini sai às vésperas de jogo chave para Pioli

Por mais que tenha dito que esperou seis meses para falar de sua saída com a cabeça mais fria, Paolo Maldini talvez tenha escolhido a dedo o momento para dar a entrevista ao La Repubblica. As críticas aos proprietários sobre a falta de apoio ao elenco e comissão técnica foram publicadas nas vésperas de um importante confronto entre Milan e Frosinone, em San Siro, pela 14ª rodada da Serie A.

Com apenas uma vitória nos últimos cinco jogos pela competição nacional, o Milan é o terceiro colocado, com seis pontos a menos que a líder Inter. Na Champions League, o cenário é ainda mais complicado (principalmente para quem tem donos com objetivos audaciosos). Tendo perdido em casa para o Borussia Dortmund, o time rossonero terá de vencer o Newcastle fora de casa na última rodada e torcer por uma derrota do Paris Saint-Germain para avançar às oitavas de final.

Tudo isso, junto com os resultados ruins nos clássicos contra a Inter em 2023, tem aumentado a pressão sobre Stefano Pioli. De acordo com La Gazzetta dello Sport, Gerry Cardinale foi à Milanello (atitude nada corriqueira) no dia seguinte ao revés para o Dortmund para almoçar com o técnico e discutir o atual momento da equipe. Acredita-se que o treinador campeão do Scudetto em 2022 possa ser demitido em caso de derrota para o Frosinone, neste sábado (2).

Foto de Felipe Novis

Felipe Novis

Felipe Novis nasceu em São Paulo (SP) e cursa jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Antes de escrever para a Trivela, passou pela Gazeta Esportiva.
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