Até que ponto a vulnerabilidade do Manchester City nos contra-ataques pode ser um problema?
Manchester City tem pior desempenho defensivo em 27 rodadas da Premier League desde que o Liverpool terminou como campeão nacional
O Manchester City quase não deixou o rival United respirar no clássico disputado no Etihad Stadium, no último domingo (3). A vitória por 3 a 1 poderia ter sido muito mais se não fosse a boa atuação do goleiro camaronês André Onana ou a falta de pontaria de alguns atletas dos Citizens. O domínio foi quase completo do lado azul, seja pela pressão, presença no campo de ataque e números de finalizações. Os Red Devils, quando partiram ao ataque, só utilizaram o contragolpe e aí que o time de Pep Guardiola mostrou uma vulnerabilidade que precisa ter a atenção do treinador.
É verdade que o golaço de Marcus Rashford que abriu o placar aos sete minutos do primeiro tempo não foi um contra-ataque. O lançamento de Onana para o ataque entrou Bruno Fernandes, que escorou para o atacante inglês cravar. A partir disso, aí, sim, o Manchester United, que tinha oito desfalques, especialmente no ataque, utilizou bem a velocidade quando recuperava a bola. Em uma dessas, se aproveitando do espaço rival, o meia português deixou Rashford em ótimas condições de marcar, mas ele furou a bola na segunda trave.
O autor do gol dos Red Devils teve outras duas oportunidades de puxar contragolpes e errou na condução da bola ou foi desarmado — inclusive, assim que saiu o gol de empate do time azul, a partir de roubada de Kyle Walker em cima de Rashford.
Espaços cedidos contra o United não são novidade para o Manchester City
Os espaços dados pelo City no clássico lembraram muito o que aconteceu no confronto contra o Chelsea, novamente no Etihad, há duas semanas. Os Blues de Mauricio Pochettino empilharam chances e chances em contra-ataques pelos pés de Raheem Sterling (autor do primeiro gol), Cole Palmer e Nicolas Jackson. Eram tabelas rápidas, iniciadas normalmente pelo jovem inglês, se aproveitando da velocidade dos dois colegas de ataque. Por sorte, neste dia, Ederson brilhou e impediu que o clube londrino pudesse ter “matado” o jogo antes dos Citizens empatarem no fim com Rodri.
Em 27 rodadas da atual Premier League, o Manchester City sofreu 27 gols. Nessa altura nas últimas temporadas, o clube foi vazado 25 vezes (em 2022/23), 17 (21/22), 18 (20/21) e 29 (2019/20). Ou seja, é o pior desempenho do sistema defensivo de Guardiola em 27 partidas do Campeonato Inglês desde que o Liverpool foi campeão com 99 pontos, 18 a mais do que o clube mancuniano.
Agora, o líder Liverpool tem defesa superior (25 sofridos) e o terceiro Arsenal também (23). Em um campeonato que aparenta ser disputado ponto a ponto, o saldo de gols pode ser algo que vá pesar ao término da competição.
Na Champions League, mesmo em um grupo com adversários abaixo (RB Leipzig, Young Boys e Estrela Vermelha), o City só não foi vazado em uma partida de seis. No restante, sempre sofreu gols, incluindo dois agitados 3 a 2 – no fim, a equipe de Guardiola terminou com 100{62c8655f4c639e3fda489f5d8fe68d7c075824c49f0ccb35bdb79e0b9bb418db} de aproveitamento de toda forma. Frente ao Copenhegen, nas oitavas de final, um erro defensivo de Ederson também custou outro “clean sheet” na vitória por 3 a 1 dos azuis de Manchester.
O exemplo da Champions possibilita mostrar que, mesmo sendo vazado em seis de sete jogos, o clube do Etihad é absoluto no ataque e sufoca o adversário a ponto de não se preocupar em tomar gols. No entanto, em um jogo mais parelho, como contra Real Madrid ou Internazionale, dupla talhada para contra-atacar em velocidade, pode custar uma vaga no mata-mata.
Para Premier League também há essa questão. O City tem uma capacidade sem igual para virar jogos, o United soube bem disso ontem, mas nem sempre dá para contar com isso para vencer os jogos.
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Cobertor curto: formação cada vez mais ofensiva pode explicar parte da vulnerabilidade
A versão atual do Manchester City talvez seja a mais ofensiva da era Guardiola. O técnico manteve a estrutura de 3-2-5, que já fez anteriormente e na qual venceu a Champions League na temporada passada. Nesse esquema, três homens ficam na base da jogada (normalmente Nathan Aké, Rúben Dias e Walker) e John Stones (ou Manuel Akanji), zagueiro no momento defensivo, dá um passo à frente para se alinhar ao volante Rodri. Com isso, forma-se um quinteto ofensivo contra a última linha adversária.
É muita gente atacando. Por vezes, vemos até Stones à frente de Rodri, que também não tem vergonha de subir ao ataque. No primeiro gol do City contra o United, por exemplo, o volante puxa a marcação e abre espaço para Foden cortar para o meio e acertar o chute no ângulo. Rodrigo também é autor do gol do título da Champions.
Nesse cenário de muita gente na frente, os contra-ataques normalmente são em igualdade numérica, e aí que o Manchester City utiliza a velocidade e capacidade de recuperação de Walker, Dias e Aké. O trio de muita velocidade tem que trabalhar no erro zero porque, se passa deles, sobra apenas Ederson contra o atacante adversário.
O City segue sendo o melhor time da Europa, candidato a todos os títulos que disputa, mas essa vulnerabilidade defensiva pode custar algumas taças pelo caminho em 2023/24.
Desempenho defensivo do Manchester City na 27ª rodada das Premier Leagues sob comando de Guardiola
- 2023/24: 27 gols sofridos;
- 2022/23: 25;
- 2021/22: 17;
- 2020/21: 18;
- 2019/20: 29;
- 2018/19: 20;
- 2017/18: 20;
- 2016/17: 29.



