Rogers, Palmer e mais: Como o City virou uma máquina de revelar jogadores e municiar clubes ingleses
Jogadores formados pelos Citizens e até executivos que trabalharam na base estão espalhados pela Europa
Muito além do clube mais bem-sucedido da Inglaterra na última década, o Manchester City se transformou no maior centro de revelação de talentos do futebol local. O impacto é visto na própria equipe, com Phil Foden, eleito melhor jogador do título da Premier League de 2023/24, e, mais recentemente, Nico O’Reilly, titular e autor de dois gols na conquista da Copa da Liga Inglesa em março passado.
Mas sua influência vai também ao restante da elite do futebol inglês. O Chelsea que o diga. Atualmente, o gigante de Londres conta com seis jogadores que passaram pela base dos Citizens: Cole Palmer, Tosin Adarabioyo, Roméo Lavia, Jamie Gittens, Liam Delap e Morgan Rogers.
Rogers, o reforço mais recente, chegou por 117 milhões de libras, inglês mais caro da história, do Aston Villa. Os talentos, porém, estão espalhados por mais centros, como Real Madrid (Brahim Díaz), Barcelona (Eric García), Liverpool (Jeremie Frimpong) e Borussia Dortmund (Felix Nmecha).
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Retorno esportivo, como no caso de Foden e O’Reilly, e financeiro, em vários outros. Um levantamento do CIES Football Observatory, publicado em abril deste ano, colocou o Manchester City como o segundo clube que mais lucrou com vendas de jogadores de base nos últimos cinco anos, com 318 milhões de euros em 35 jogadores. A maior transferência foi Palmer ao Chelsea por 47 milhões em 2023.
Claro que, hoje, Palmer, Rogers e até Lavia seriam peças importantes aos Citizens e nem renderam tanto ao clube comparado a seus talentos. De toda forma, mostra como um trabalho sério feito na base transformou o clube azul de Manchester em uma máquina de formar atletas. Uma revolução que começou há 12 anos e segue dando frutos.
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Base do Manchester City se transformou com investimento e influência catalã
A estrutura do Manchester City e da rede multiclubes Grupo City, no quesito formação e estilo de jogo, é uma clara inspiração no modelo de La Masia do Barcelona. Na Catalunha, os jovens são formados dentro do estilo de jogo culé que é praticado no time profissional. O perfil dos contratados também parte dessa filosofia.
O City, após a aquisição pelo governo de Abu Dhabi em 2008, decidiu replicar o Barça com a contratação de Ferran Soriano, vice-presidente do clube espanhol entre 2003 e 2008 e CEO do Grupo City há mais de uma década, e do diretor esportivo Txiki Begiristain, que ficou sete anos na Espanha e depois 13 na Inglaterra.
Para completar essa transformação, Abu Dhabi investiu 150 milhões de libras em seu supermoderno centro de treinamento, o City Football Academy, inaugurado em 2014 após visitas a mais de 70 CTs ao redor do mundo. Facilitou ter um estado por trás, os Emirados Árabes Unidos, para investir em uma área que não tem limitação de gastos.
A estrutura conta com 16 campos, um estádio de 7 mil lugares para os times de base e feminino e estrutura completa de recuperação de jogadores, análise de desempenho e ciência do esporte. Ainda há uma ponta de 190 metros que conecta diretamente ao Etihad Stadium. Um exemplo de que o passo para o profissional está ao lado.
E não é apenas simbólico. Só sob o comando de Pep Guardiola, técnico dos Sky Blues entre 2016 e 2026, 41 jovens do CFA estrearam. Quando questionaram o catalão sobre a estrutura em comparação à de Barça e Bayern de Munique, não teve receio de cravar: “Temos a melhor do mundo”.
— Temos absolutamente tudo. As instalações são incríveis e é o lugar perfeito para trabalhar — completou ao site do clube em 2018.
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Modelo de jogo foi chave a partir de Guardiola
Guardiola é outro capítulo essencial dessa integração da base e outra óbvia influência do Barça. O modelo de jogo do treinador, que revolucionou o futebol a partir dos anos 2010, passou a ser implementado em toda a estrutura de categorias.
O ofensivo Jogo de Posição, iniciado por Johan Cruyff na Catalunha nos anos 80 e 90, com a divisão do campo em cinco faixas verticais, a ocupação dos espaços e monopolização da posse de bola, virou a cara do Manchester City. Claro, adaptado ao contexto inglês.
— Criamos um estilo de jogo muito claro. Desde as categorias sub-11 e sub-12 até a sub-23, era possível ver uma clara sintonia na maneira como jogávamos, na nossa identidade e no nosso estilo — disse Gareth Taylor, que passou nove anos na academia do City (2012-2020) e hoje é técnico do Liverpool feminino, à “BBC”.
— Temos um estilo de jogo muito bem definido que percorre toda a academia. Cada equipe jogará da mesma maneira, com a mesma filosofia. Portanto, quando procuramos jogadores, sabemos o que estamos procurando em um camisa 2, um camisa 7 e assim por diante. Quando você traça esse caminho, quase consegue enxergar o eixo à medida que avança pelo clube — disse, em 2016, o então diretor de formação, Mark Allen, ao “Telegraph”.
Com essa estrutura, o City conseguiu formar Phil Foden e Palmer, ambos iniciando no clube desde os oito anos. Rico Lewis, outro criado dentro do CFA, destacou o poder da base dos Sky Blues. “Quando você olha para a Premier League, a Championship e outras ligas europeias, você vê jogadores da Academia do City por todos os lados”, disse, ao site do time inglês, no ano passado.
— Talvez seja o treinamento que recebemos desde pequenos. Tentando implementar essa mentalidade de time principal desde o sub-12, ou talvez seja o ambiente em que estamos também. É uma academia de alto nível, com o melhor treinamento, os melhores equipamentos e instalações — completou.
O investimento no Manchester também permitiu que o clube conseguisse mapear o mercado para trazer os jovens para sua base mais velhos. Morgan Rogers chegou aos 17; Lavia, com 16.
— [Estar no City] pode não ter sido a parte mais bem-sucedida da minha carreira, mas ajudou a me moldar e me desenvolver no jogador que sou hoje — disse Rogers ao “Guardian” em 2024.
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Alguns dos jogadores revelados pelo Manchester City nos últimos anos com carreiras de destaque na Europa
- Aleix García
- Angeliño
- Tosin Adarabioyo
- Lukas Nmecha
- Brahim Díaz
- Felix Nmecha
- Jeremie Frimpong
- Jadon Sancho
- Phil Foden
- Eric García
- Tommy Doyle
- James Trafford
- James McAtee
- Morgan Rogers
- Cole Palmer
- Oscar Bobb
- Liam Delap
- Carlos Forbs
- Jamie Gittens
- Roméo Lavia
- Rico Lewis
- Nico O’Reilly
O sucesso dos Citizens na base e a influência em toda a Premier League
Só a revelação de tantos jogadores mostra como o modelo do Manchester City deu certo. Mas, mais do que isso, os resultados também vieram. Foram vários títulos em todas as categorias. Entre os principais, cinco Premier Leagues sub-18 (quatro seguidas entre 2020 e 2023) a partir de 2016 e três FA Youth Cups desde 2020.
Inclusive, uma dessas Copas da Inglaterra teve um fator curioso. Em 2020, os Citizens bateram o Chelsea com Palmer, Delap e Rogers, além de Oscar Bobb (hoje no Fulham) e James McAtee (Nottingham Forest).
A rivalidade com o Chelsea na base era quente porque os Blues eram a outra potência nas categorias inferiores — impusionados por outro investidor estrangeiro, o russo Roman Abramovich, dono dos Blues entre 2003 e 2022. Segundo a mídia inglesa, os clubes até tinham um acordo informal para não contratar jogadores um do outro para evitar salários e transferências inflacionados.
Hoje, isso já não é mais válido. Atualmente, o gigante do Stamford Bridge, na verdade, tenta usar a expertise de quem esteve no Etihad Stadium para melhorar sua base.
O diretor de recrutamento do Chelsea, Joe Shields, passou nove temporadas na base do City, assim como Calum McFarlane, auxiliar técnico de Xabi Alonso, que trabalhou em Manchester entre 2020 e 2023, e Glenn van der Kraan, atual diretor de desenvolvimento em Londres após quatro anos nos Citizens.
O clube do Etihad Stadium virou referência. Até o rival Manchester United tem dois executivos que trabalhavam lá (o CEO Omar Berrada e o diretor-esportivo Jason Wilcox). Ou seja, a influência vai além dos jogadores e está nos cargos de gestão. O clube que se inspirou no Barcelona virou inspiração na Inglaterra.
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A dificuldade dos jovens em se firmar e importância de suas vendas
Ao mesmo tempo que é referência e teve jogadores da base sendo importantes recentemente, a estrutura do time principal do Manchester City é de estrangeiros ou atletas ingleses que vieram de outras equipes. Sendo um superclube, com um dono muito rico, a base é apenas uma parte auxiliar, como apontou Ben Knight, formado pelo clube e hoje no Cambridge United.
— Eu tentava imitar o Bernardo Silva, o McAtee tentava imitar o David Silva. Não sei quem Palmer estava assistindo, mas você tenta ser como eles. O mais difícil é que são jogadores de 100 milhões de libras e você está tentando ocupar a posição deles, e isso é muito difícil. É quase impossível — afirmou o meia ao “Guardian” no início deste ano.
No fim, a venda desses jovens da base é também o que ajuda o City a investir tanto no mercado. Os clubes da Premier League são incentivados a vender jogadores formados em suas estruturas porque garantem como lucro 100% no fair play financeiro da liga e das competições da Uefa, diferente de atletas que são contratados e só são contabilizados como lucrativos se a venda for maior do que a compra.
Nem mesmo ser um extraclasse, como Palmer e Rogers se provaram, garante um espaço. Foden não é necessariamente mais talentoso que eles, mas conseguiu furar essa bolha, mesmo que sua fase atual não seja das melhores. O’Reilly é outro, pilar na lateral-esquerda.
A base do City deve continuar importante, talvez até mais agora sob o comando de Enzo Maresca, novo técnico principal que treinou o sub-23 do time por um ano antes de ser auxiliar de Guardiola na temporada 2022/23.