Inglaterra

Desabafo de Paquetá e atitude de jovem do United acendem alerta da saúde mental na Premier League

Expulso por reclamação desmedida, brasileiro usou as redes sociais para rebater críticas ao seu comportamento em campo

A ligação entre saúde mental e esporte são temas frequentemente debatidos nos últimos anos. A importância de oferecer acompanhamento psicológico tem sido progressivamente constata por especialistas. Dois episódios da 13ª rodada da Premier League corroboram com a afirmação: o desabafo do brasileiro Lucas Paquetá e a cena do inconsolável Leny Yoro no banco de reservas do Manchester United.

O brasileiro foi expulso na derrota do West Ham por 2 a 0 para o Liverpool, neste domingo (30), ao receber dois cartões amarelos seguidos por reclamação constante, aos 38 minutos do segundo tempo.

A atitude rendeu críticas do ex-goleiro do West Ham e comentarista da Sky Sports, Rob Green, que classificou o cartão vermelho como “comportamento ridículo”.



Nas redes sociais, o meio-campista respondeu afirmando que o seu “comportamento ridículo foi um reflexo de tudo o que tive que suportar“, e cobrou a Federação Inglesa de Futebol a falta de apoio psicológico.

— É ridículo ter minha vida e carreira afetadas por dois anos sem nenhum apoio psicológico da federação. Talvez esse comportamento ridículo seja apenas um reflexo de tudo que tive que suportar e, ao que parece, continuarei a suportar! Me desculpem se não sou perfeito –, escreveu o brasileiro, ex-Flamengo.

A fala faz referência ao período em que passou pela investigação sobre o suposto envolvimento em apostas esportivas, no qual foi acusado de manipulação de resultados. O processo foi finalizado em julho, com a absolvição de Lucas Paquetá.

O processo vivido por Paquetá ocorreu em um momento importante da carreira, quando, segundo informações de diversos veículos da imprensa internacional, o brasileiro estava prestes a se transferir para o Manchester City por 97 milhões de euros (cerca de R$ 600 milhões) em agosto de 2023, antes que a investigação da FA viesse à tona.

Na época em que as investigações foram iniciadas, Paquetá enfrentava até a possibilidade de banimento vitalício do esporte, caso fosse considerado culpado. O caso fez com que a negociação entre Manchester City e jogador não fosse adiante.

Lucas Paquetá foi expulso durante partida contra o Liverpool (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)
Lucas Paquetá foi expulso durante partida contra o Liverpool (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

O episódio deixou marcas permanentes no jogador, que confessou ter se sentido como um vilão, mesmo após o caso ser finalizado. Em um forte desabafo, Paquetá pediu desculpas aos torcedores e equipe, afirmando que tentará fazer com que o momento enfrentado não o afete mais.

— Entendo que agora tenho que me apresentar como o vilão, é difícil conviver com tudo o que foi causado na minha vida e na minha psique. Vou continuar tentando garantir que isso não me afete ainda mais. Isso não justifica minha expulsão e é por isso que peço desculpas aos torcedores e aos meus companheiros de equipe — desabafou.

Para além do brasileiro, a rodada do Campeonato Inglês também protagonizou outro momento delicado. O jovem zagueiro Lenny Yoro, do Manchester United, foi visto abatido no banco de reservas por sua atuação irregular, que resultou na sua substituição durante a partida contra o Crystal Palace.

Ainda no primeiro tempo, Yoro errou e cometeu pênalti em Mateta, que converteu na sequência e abriu o placar para a equipe londrina. Posteriormente, o defensor deixou o gramado aos nove minutos da segunda etapa, quando o jogo estava empatado por 1 a 1. Minutos depois, Mason Mount anotou o segundo e garantiu a vitória ao time de Manchester.

Após o jogo, Rio Ferdinand, ex-zagueiro e lenda dos Red Devils utilizou a sua conta no X (antigo Twitter) para demonstrar apoio ao francês, de apenas 20 anos. O ex-atleta ressaltou que “às vezes, o futebol pode te deixar maluco”.

— Este jogo pode te deixar maluco às vezes. Use esses aprendizados como combustível. Ele é um jogador jovem e vai se recuperar. Trabalho duro, dedicação e talento de sobra. Um novo dia amanhã –, escreveu.

Bellingham e o desabafo sobre saúde mental no futebol

Aos 22 anos e protagonista de um dos maiores clubes do planeta, Jude Bellingham revelou em um forte desabafo os impactos que o futebol teve na sua saúde mental. No mês passado, o astro do Real Madrid falou sobre a importância dos cuidados com o aspectos psicológicos e de entender a importância de estar aberto ao diálogo durante a sua carreira.

— Tentei manter aquela imagem de atleta machão de ‘não preciso de ninguém’, mas a verdade é que preciso, como todo mundo. Se os atletas, aqueles de nós que parecem ter o mundo aos nossos pés, conseguirem mostrar sua vulnerabilidade, isso abrirá um diálogo mais amplo para as pessoas que lutam no escuro — declarou o jogador em entrevista ao Laureus, do qual é embaixador.

Celebrada mundialmente no dia 10 de outubro, a saúde mental tem sido diretamente afetada pelas mídias digitais. Bellingham relembrou o início da carreira, quando ainda atuava pelo Birmingham, e quase foi influenciado pelos comentários negativos compartilhados nas redes sociais.

Jude Bellingham em atuação pelo Real Madrid (Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire)
Jude Bellingham em atuação pelo Real Madrid (Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire)

— Todo mundo tem direito à sua opinião sobre esporte, mas deve haver limites para as coisas horríveis que você pode dizer. Quando eu era mais jovem, costumava digitar meu nome no Twitter e ler tudo o que era dito. Eu me perguntava por que estou colocando isso na minha própria saúde mental? Já há negatividade e pressão suficientes no esporte profissional, sem precisar sair para procurá-las — desabafou.

Bellingham acredita que falar sobre o assunto no futebol ainda é um estigma, mas que a experiência de ter alguém para conversar foi necessária ao longo dos momentos difíceis da carreira, apesar de ter tentado, inicialmente, manter a imagem de ‘machão’ e que não precisar compartilhar os seus sentimentos.

— Como atletas, parece que temos o mundo aos nossos pés ou em nossas mãos: podemos fazer o que quisermos e ganhar muito dinheiro. Mas a realidade é que, se formos capazes de mostrar nossa vulnerabilidade, isso abrirá um diálogo mais amplo para pessoas que estão lutando no escuro. É dever de pessoas como eu de sermos modelos — comentou.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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