Europa

‘A saúde mental é assassina silenciosa e precisamos fazer mais para apoiar não só jogadores’

Treinadora da seleção feminina dos EUA alertou sobre necessidade de cautela no tratamento com técnicos de futebol

A técnica da seleção feminina dos Estados Unidos, Emma Hayes, foi introduzida ao Hall da Fama do Museu Nacional do Futebol, em Manchester, na Inglaterra, na última quarta-feira (1). No que poderia ser apenas uma celebração de conquistas esportivas, ela alertou sobre perigos que os treinadores sofrem no futebol de alto nível.

Hayes tem sete títulos da Women’s Super League, uma medalha de ouro olímpica e um impacto histórico no Chelsea. No entanto não deixou de tocar em um tema delicado: a morte do treinador Matt Beard, seu antecessor no comando dos Blues, e a necessidade urgente de cuidar melhor da saúde mental dos técnicos.

A perda de Matt Beard e o alerta de Hayes sobre treinadores

Beard faleceu no mês passado, aos 47 anos, deixando a comunidade do futebol feminino em luto. Para Hayes, trata-se de um sinal de alerta que não pode ser ignorado.

“É uma perda enorme. A saúde mental é um assassino silencioso e os treinadores são seres humanos. Ainda temos muito trabalho a fazer para apoiar mais do que apenas os jogadores”, disse a treinadora ao jornal inglês “The Guardian”.

Emma Hayes comandou o ouro olímpico dos Estados Unidos em Paris 2024. (Foto: Imago)

Hayes lembrou que a pressão no futebol moderno é intensificada pelas redes sociais e frisou o impacto de uma era em que as pessoas são “canceladas” muito rapidamente.

— É fácil criticar e não penso que os treinadores sejam sempre considerados seres humanos. Isso tem de ser uma aprendizagem para o futebol.

Ela destacou ainda o legado humano de Beard: “Ele deu tanto ao futebol feminino. As jogadoras o amavam porque ele se importava profundamente com elas. Será lembrado não apenas pelos títulos, mas pelo ser humano que era.”

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Chelsea, continuidade com Bompastour e presente com os EUA

Ao olhar para o Chelsea, Hayes demonstrou satisfação por ver sua sucessora, Sonia Bompastor, mantendo o clube no topo. A equipe segue invicta na WSL desde o verão europeu de 2024.

“O marco para mim não eram apenas os troféus, mas poder deixar uma equipe que pudesse continuar a vencer. Sonia está fazendo um trabalho incrível, e Paul Green [chefe do futebol feminino do Chelsea] também merece muito crédito”, afirmou.

Para Hayes, a base construída ao longo de mais de uma década no clube foi essencial para a continuidade do sucesso. Aos 48 anos, ela vive uma nova fase como técnica da seleção feminina dos Estados Unidos. Ela valoriza o equilíbrio entre vida pessoal e profissional que o cargo proporciona, algo diferente da rotina intensa dos clubes.

“Fui tão bem recebida lá, sinto que me adotaram e cuidam de mim. Estou gostando de ter mais tempo para pensar estrategicamente e planejar o futuro, não só da seleção principal, mas também das nossas equipes de base”, explicou.

A equipe vem de uma sequência de cinco vitórias sem sofrer gols, o que reforça a confiança para o ciclo rumo à Copa do Mundo de 2027, que será disputada no Brasil. Hayes, no entanto, mantém os pés no chão.

— Temos de nos qualificar primeiro, passo a passo. Ainda precisamos de mais experiência e temos de dar essa exposição internacional às jogadoras.

Um legado consolidado

Apesar do foco no presente, Hayes sabe que sua marca no futebol inglês já está assegurada. Ser introduzida no Hall da Fama é motivo de orgulho, mas ela prefere destacar o impacto humano de sua trajetória.

“Quando reflito sobre tudo o que fiz, o que mais valorizo não são as vitórias ou prêmios individuais, mas as pessoas que conheci e as fundações que ajudamos a construir. Estou muito grata por o futebol feminino estar num lugar melhor neste país”, concluiu.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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