Inglaterra

Governo britânico aprova reformas no futebol inglês para ter mais controle financeiro e participação de torcedores

Planos do governo seguem recomendação de controle financeiro e proteção garantida aos torcedores, mas Premier League rejeita ideia de regulação independente

O governo britânico aprovou uma reforma do futebol inglês que fará com quem haja mais fiscalização, especialmente em relação a finanças, mas também em questões de preservação de patrimônio, como nome, cores, estádio e uniforme, além de tratar de questões de diversidade. Por enquanto, está tudo no campo das ideias e a aprovação é apenas o primeiro passo para colocar em prática, provavelmente apenas em 2024 – um dos motivos de críticas da oposição, inclusive.

O futebol inglês tem sofrido com clubes em situação financeira precária. O Bury foi excluído da Football League em 2019, depois de entrar em processo de falência. Outros clubes viveram situação similar, como o Bolton, Macclesfield Town, Wigan Athletic e o Derby County, que perdeu pontos por entrar em recuperação judicial, o que culminou no rebaixamento à terceira divisão. Tudo isso ficou ainda mais forte depois da ideia da Superliga, que foi quando o governo finalmente passou a falar abertamente em agir.

A reforma se tornou uma pauta forte depois do surgimento e queda (por enquanto) da Superliga, que tinha seis clubes ingleses. Com a Superliga desmoronando, o governo inglês aproveitou para dizer que iria examinar a governança do futebol no país.

 A deputada Tracey Crouch foi quem tomou a frente para montar uma proposta com as mudanças, especialmente no que diz respeito à regulação independente – tanto dos governos quanto dos clubes. Foi a partir da proposta dela que se criou uma revisão com participação dos torcedores, com diversas recomendações.

São três pontos principais na reforma atual, de forma geral:

  • Estabelecer um regulador independente forte, com apoio estatutário para garantir sustentabilidade
  • Melhorar o teste para proprietários e diretores, incluindo teste de integridade, para melhorar a governança corporativa e proteger os clubes e os torcedores de donos inescrupulosos
  • Oferecer proteção aos torcedores com uma espécie de “Golden share”, com poder de veto para mudanças como nome, cores, escudo e estádio

O governo também confirmou que irá seguir as recomendações para criar uma espécie de diretoria sombra, um conceito que já se usa na política britânica, quando a oposição tem um ministro, por exemplo, que exerce uma função de fiscalização.

A ideia é que os torcedores formem essa diretoria sombra, que teria voz para decisões mais estratégicas, como mudança de nome, cores, estádio ou mesmo o uniforme. O governo, porém, não detalhou como será feito isso e prometeu para o verão europeu, quando acabar a temporada.

Outro ponto importante é promover a igualdade e diversidade em diretorias de clubes por toda a pirâmide do futebol. O governo também irá estabelecer os detalhes e como isso será fiscalizado pelo regulador independente.

Clubes da Premier League e da Championship (segunda divisão) estão em desacordo com a nova regulação da Uefa que prevê que o gasto total com salários, transferências e comissão de empresários não pode ultrapassar 70% da receita total.

O regulador independente terá poder para fiscalizar financeiramente os clubes, incluindo coleta de informações, investigação e poderes de execução. A revisão recomendava ainda que se olhasse a distribuição financeira, incluindo os pagamentos de solidariedade (aquela porcentagem, de até 5%, relativa à formação do jogador entre 14 e 21 anos de idade).

O governo acredita que quem tem que lidar primeiramente com isso são as autoridades do futebol e ainda não está claro como o regulador independente poderá exercer esse poder em caso de violação. Isso ainda virá no documento a ser divulgado.

Premier League rejeita regulador independente

O governo decidiu seguir as 10 recomendações estratégicas feitas por lideranças de torcedores e publicadas pela deputada conservadora Tracey Crouch em novembro de 2021. O foco era melhorar a sustentabilidade financeira e a governança corporativa no futebol do país, que tem sido muito criticado pela situação catastrófica de diversos clubes, especialmente os menores. A ideia é também dar mais poder ao torcedor para participar do dia a dia do clube, ainda que de forma minoritária.

A Premier League, porém, rejeita a ideia de um regulador independente e diz que “não é necessário”. Segundo a liga, o teste de integridade para donos e diretores que ela aplica já está sendo revisado antes da próxima temporada para garantir que os torcedores sejam ouvidos.

Este foi um ponto bastante criticado, especialmente nos últimos meses, pela forma como foi conduzida a venda do Newcastle para o governo da Arábia Saudita. Os clubes da Premier League criticaram a decisão de aprovar a venda, diante de todas as questões de direitos humanos envolvidas no governo saudita. A pressão foi tanta que o presidente da Premier League, Gary Hoffmann, teve que anunciar que deixaria o cargo.

Johnson: “O governo garantirá que os torcedores estejam no coração do jogo”

“Faz pouco mais de um ano desde a tentativa fracassada da Superliga Europeia, mas está claro que uma mudança radical é necessária para proteger o futuro do nosso jogo nacional”, afirmou o ministro do esporte Nigel Huddelston.

“Trabalharemos em ritmo acelerado para estabelecer um regulador forte e independente. Contudo, as autoridades do futebol podem tomar medidas agora para resolver os problemas atuais do esporte, como a questão da distribuição justa das finanças em toda a pirâmide do futebol e dar aos torcedores uma voz maior na administração de seus clubes”, continuou Huddelston.

“O futebol une amigos, famílias e comunidades e é por isso que estamos levando adiante os planos liderados pelos torcedores para garantir o futuro do nosso esporte nacional, desde o investimento de £230 milhões para elevar o nível dos campos de base até fortalecer a voz dos torcedores no funcionamento de seus clubes”, disse o Primeiro-Ministro do Reino Unido, Boris Johnson. “Onde quer que você esteja torcendo, em casa ou fora, este governo garantirá que os torcedores estejam novamente no coração do jogo”.

Quem comentou o assunto também foi a secretária de cultura, Nadine Dorries. “O futebol não é nada sem os torcedores e por muito tempo as autoridades do futebol foram coletivamente incapazes de resolver alguns dos maiores problemas do esporte”, afirmou a secretária. “O governo tomou medidas decisivas para conduzir a revisão liderada pelos torcedores e hoje endossamos cada uma das 10 recomendações estratégicas e a abordagem estabelecida por Tracey Crouch”.

“Agora estamos comprometidos com uma reforma fundamental, colocando o futebol em um caminho financeiro mais sustentável, fortalecendo a governança corporativa dos clubes e aumentando a influência dos torcedores na condução do esporte nacional”, continuou a secretária de cultura.

Governança de futebol no país “é uma piada”

Apesar da iniciativa do governo ser bem vista, a oposição critica a demora para colocar em práticas as medidas – só a partir de 2024, na melhor das hipóteses. “O comprometimento de introduzir um regulador independente é um passo bem-vindo, mas o governo agora deve agora começar a cria-lo em prol da saúde do nosso esporte nacional”, afirmou Julian Knight, deputado dos trabalhistas.

“Acontecimentos como a proposta da absurda Superliga Europeia e as lutas pela sobrevivência enfrentadas pelos clubes em nossas comunidades, expuseram a governança do futebol neste país pela piada que é”.

“Sem prazo firme para resolver os problemas profundamente enraizados que afligem o jogo e nenhum movimento para estabelecer o regulador à parte antes da legislação, parece que o governo estacionou o ônibus, quando eles deveriam ir direto ao ataque para entregar ao melhor interesse dos torcedores”, continuou Knight.

FA aprova regulação independente: “Alguns clubes gastaram além dos seus meios”

A Football Association (FA), que é a federação inglesa, aprovou a medida do governo. “O futebol inglês é motivos de inveja no mundo, mas com o sucesso vem os desafios. Enquanto muitos clubes estão no centro da sua comunidade e estão prosperando, alguns gastaram além das suas possibilidades para buscar o sucesso”, disse um representante à Sky Sports.

“Nós concordamos com uma regulação financeira mais forte e controle de custos são necessários no futebol inglês para garantir que os torcedores e a sustentabilidade venham em primeiro lugar. Uma nova regulação independente é necessária e continuaremos a trabalhar com o governo para garantir que estejamos protegendo o futuro dos clubes enquanto apoiamos o apelo do futebol inglês”, diz ainda o porta-voz da FA.

Opinião: Bom sinal, mas ainda é cedo para comemorar

Ainda falta muito para vermos o que vai acontecer e se tudo isso vai sair do papel. Como o prazo ainda está indefinido e só poderá ser aplicado em 2024, justamente porque o governo andou pouco com isso, há muito o que fazer e muito a se desconfiar. Especialmente porque a Premier League imediatamente se colocou contra um ponto que é crucial, o regulador independente. Mesmo assim, é uma iniciativa que parece interessante, ao menos se ela não ficar em uma gaveta e chegar à prática.

Pode ser uma iniciativa interessante para que outros países se espelhem e tenhamos mais preocupação com sustentabilidade dentro do futebol. Algo que o futebol brasileiro precisa com urgência, considerando que por aqui os clubes gastam como querem, se endividam para tentar ganhar títulos e criam distorções constantes que premiam as gestões irresponsáveis.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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